
A Liquid Network voltou a ter 100% de lastro em Bitcoin, dois meses depois de um ataque que retirou cerca de 4.000 BTC das reservas da rede, avaliados em aproximadamente US$ 320 milhões na época.
A Liquid Federation, responsável pela operação da sidechain, anunciou nesta segunda-feira que restabeleceu a proporção de 1:1 entre Bitcoin e LBTC, token que representa o BTC dentro da rede. A paridade também havia sido retomada algumas semanas antes por meio de provedores participantes.
Adam Back, CEO da Blockstream, publicou uma captura do painel de monitoramento da rede mostrando ativos equivalentes a 100% dos passivos e um déficit de reservas de 0,00 BTC.
Segundo a federação, usuários que operam seus próprios nós da Liquid podem verificar diretamente as reservas. A entidade, porém, não explicou como cobriu o déficit deixado pelo ataque.
Liquid Network reforça segurança após exploração
Lançada pela Blockstream em 2018, a Liquid Network é uma sidechain do Bitcoin: uma blockchain separada que opera em paralelo à rede principal e foi projetada para permitir transferências mais rápidas e privadas.
Para utilizar o sistema, os participantes bloqueiam BTC em uma carteira controlada pela federação e recebem a mesma quantidade de LBTC em troca. A federação reúne exchanges e outras empresas do setor que operam a infraestrutura da rede.
Questionado sobre como evitar outro ataque, Back apontou três mudanças nas defesas técnicas. As chaves de autorização para retiradas de BTC, conhecidas como peg-outs, foram atualizadas e passaram a ser mantidas em carteiras físicas offline. A rede também desativou caches de validação de provas, corrigiu um bug nos nós e reforçou as regras de consenso para que o sistema adote uma postura de bloqueio em caso de falha, descrita como “fail closed”.
O executivo acrescentou que a infraestrutura passou por múltiplas auditorias independentes. Em outra declaração, deixou um alerta sobre o uso de inteligência artificial no desenvolvimento de software: “treat with suspicion (don’t trust, verify) AI suggested fixes”.
Em entrevista à Bloomberg Television em 20 de outubro, Back já havia comentado o avanço das ferramentas de inteligência artificial na análise de segurança. Segundo ele, a tecnologia pode ajudar tanto no desenvolvimento quanto na identificação de falhas em códigos, mas também tem afetado empresas do setor.
A federação afirmou ainda que está modernizando a estrutura de governança da Liquid Network, com responsabilidades mais claras, maior supervisão e novas proteções técnicas e operacionais. Mais detalhes devem ser divulgados nas semanas seguintes.
O episódio teve início em 6 de setembro, quando os invasores, que se apresentaram como hackers white hat, retiraram aproximadamente 4.000 BTC da carteira da federação. Eles se comunicaram com a Blockstream por meio de mensagens assinadas com PGP e incorporadas a transações de Bitcoin.
No dia seguinte, devolveram 3.400 BTC, então avaliados em cerca de US$ 269 milhões, depois que a Blockstream informou ter corrigido os nós da ponte da Liquid. Os responsáveis pelo ataque mantiveram aproximadamente 598 BTC.
Na ocasião, Charles Guillemet, diretor de tecnologia da Ledger, questionou a classificação da ação como uma operação de segurança ética. Para ele, caso os bitcoins retidos representassem uma recompensa negociada, a situação se parecia mais com extorsão do que com uma atuação white hat.
Posteriormente, a Blockstream recusou pagar um resgate pela devolução dos fundos restantes. A empresa declarou que retirar ativos sem autorização e impedir sua devolução constituía crime, não uma divulgação responsável de vulnerabilidades.
Mesmo com as reservas novamente integralizadas, a Liquid Network ainda não esclareceu de onde vieram os recursos usados para cobrir o déficit. A restauração do lastro resolve uma questão central para a representação do Bitcoin na sidechain, mas não elimina as dúvidas sobre a origem das perdas nem sobre a responsabilidade pelo ataque.









