
No dia das eleições, empresas brasileiras usaram stablecoins e Bitcoin de forma expressiva para proteger suas tesourarias de variações na moeda nacional. A movimentação atípica ocorreu no domingo em que Luiz Inácio Lula da Silva venceu Flávio Bolsonaro no segundo turno presidencial.
Na corretora Mercado Bitcoin, as contas corporativas geraram 78% de todo o volume negociado no domingo. As transações com Tether (USDT), moeda digital pareada ao dólar, saltaram quase 800% frente à semana anterior, superando em mais de três vezes a média dos quatro domingos precedentes.
O volume de negociações em Bitcoin cresceu 865% na plataforma em comparação com o domingo anterior. A reação refletiu receios com o programa de governo de Lula, voltado ao aumento de gastos sociais e à proibição de apostas online, o que poderia reduzir a arrecadação e afetar as contas públicas.
Em análise distribuída pelo Mercado Bitcoin, Pedro Fontes afirmou que “para os investidores, isso reforça a lógica de não depender apenas do real”. O especialista explicou que “nesse cenário de maior pressão cambial, as stablecoins, como USDT e USDC, são uma forma simples de dolarizar parte dos ativos, a qualquer momento e a partir de baixos valores”. Fontes acrescentou que uma oposição fortalecida no Congresso pode dificultar o combate aos problemas fiscais.
Os receios corporativos se confirmaram na segunda-feira seguinte ao pleito, quando o índice Ibovespa recuou 14%, seu pior desempenho diário desde março de 2020. No mercado de câmbio, o dólar comercial disparou mais de 8% frente ao real, registrando o maior ganho em um único dia desde 1999.
O comportamento do mercado foi o oposto do registrado três semanas antes, quando Bolsonaro terminou à frente no primeiro turno. Naquela ocasião, o Ibovespa subiu 7,7% e o dólar recuou mais de 4%. Com a vitória confirmada no segundo turno, Lula tornou-se o primeiro candidato na democracia moderna brasileira a vencer a eleição presidencial após ficar em segundo lugar no turno inicial.
Como empresas brasileiras usaram stablecoins no mercado cripto
Segundo dados do agregador Biscoint, que monitora dez plataformas incluindo Binance e Mercado Bitcoin, o volume negociado de USDT contra o real subiu 150% em relação ao domingo anterior. O volume na stablecoin USDC avançou 318%.
A movimentação continuou na segunda-feira, somando 1,84 bilhão de reais (cerca de US$ 350 milhões) negociados em USDT e USDC, alta de 65% na comparação semanal. As negociações com Bitcoin na data aumentaram mais de nove vezes, alcançando 1.336 BTC.
Na Binance, o volume negociado de Bitcoin contra o real subiu 370%, enquanto o par global BTC/USDT recuou 25%. O preço do Bitcoin valorizou 9,4% frente à moeda brasileira, enquanto oscilou levemente para baixo (-0,2%) contra o USDT, acompanhando a repaginação do câmbio local.
A vitória de Lula contrariou as estimativas dos mercados de predição. Em 24 de outubro, a plataforma Kalshi apontava 84% de chances de vitória para Bolsonaro, embora citasse pesquisas que indicavam disputa acirrada. Tanto a Kalshi quanto a Polymarket estão bloqueadas no Brasil desde abril. A votação de domingo também contou com uma prorrogação de duas horas concedida pelo ex-advogado de defesa de Lula.
A respeito do resultado nas plataformas, Einar Knobel, CEO da TxODDS, declarou que “[os mercados de predição] estavam negociando o resultado do primeiro turno, manchetes de pesquisas e a narrativa construída em torno deles”. Knobel ressaltou: “eu não interpretaria isso como uma falha dos mercados de predição. O mecanismo fez o que foi projetado para fazer com as informações que recebeu.”









