A Papertrade, nova corretora descentralizada de contratos perpétuos construída sobre a HyperEVM, camada de contratos inteligentes da Hyperliquid, começa a operar neste sábado (10). A plataforma oferece alavancagem de até 1.000 vezes e um modelo incomum de distribuição de recompensas, no qual traders que perdem podem receber tokens PAPER.

Criada pelos traders Jez e Blurr, conhecidos por manter parte de suas identidades em pseudônimo, a Papertrade abriu os pré-depósitos na quinta-feira (8). O lançamento está previsto para coincidir com o aniversário do grande crash do mercado cripto ocorrido no ano passado.

Além da alavancagem extrema, a proposta da plataforma dispensa slippage — diferença entre o preço esperado e o preço de execução, e pagamentos de funding, cobranças periódicas comuns em contratos perpétuos. Em contrapartida, o sistema depende de um fundo compartilhado para pagar os traders que obtêm lucro.

Como funciona a Papertrade e o token PAPER

Em vez de conectar compradores e vendedores por meio de um livro de ofertas ou recorrer a formadores de mercado externos, a Papertrade assume o outro lado das operações usando um fundo coletivo em USDC, chamado Martingaler LP.

O fundo começa com saldo zero e recebe dinheiro das perdas dos participantes. Para negociar, o usuário precisa depositar pelo menos US$ 10 e pagar uma taxa única de ativação de US$ 1. As operações disponíveis envolvem Bitcoin e Ethereum, com alavancagem de até 1.000x.

Quando uma posição é lucrativa, o trader tem direito ao valor inicialmente depositado como garantia, além dos ganhos. Se o fundo não tiver saldo suficiente para pagar tudo, os valores pendentes entram em uma fila por ordem de chegada. Nesse cenário, novos depósitos decorrentes das perdas de outros participantes podem ajudar a quitar os pagamentos atrasados.

Já quem perde dinheiro ou tem a posição liquidada contribui para financiar o fundo e pode receber tokens PAPER. Enquanto o saldo do fundo permanecer abaixo de US$ 2 milhões, a emissão pode chegar inicialmente a 100 tokens para cada US$ 1 em perdas elegíveis. Essa proporção diminui à medida que o fundo cresce.

Os detentores também poderão fazer staking de PAPER para receber uma parcela das taxas de negociação em USDC. Quando o fundo ultrapassar US$ 5 milhões, ganhos adicionais acumulados nele também poderão beneficiar os participantes que mantêm os tokens em staking.

Lançamento da Papertrade será gradual

A negociação está prevista para começar aproximadamente uma hora depois de uma atualização da HyperEVM programada para sábado. O horário exato ainda não foi anunciado, e existe a possibilidade de o lançamento ser adiado para domingo (11).

A primeira etapa permitirá operar pelo site da Papertrade. Serviços aprovados enviarão as ordens assinadas pelos usuários onchain, em um mecanismo criado para dificultar que bots ultrapassem outros participantes na fila. Liquidações terão prioridade sobre a abertura de novas posições, enquanto ordens menores poderão enfrentar mais demora.

O lançamento gradual também busca lidar com uma possível sobrecarga da rede. Embora os pré-depósitos já estejam disponíveis, antecipar o envio de fundos não garante prioridade nas negociações. Quem depositar depois da abertura das operações poderá enfrentar atrasos relacionados ao congestionamento.

Em fases posteriores, bots e agentes de inteligência artificial poderão negociar diretamente. Aplicativos de terceiros também poderão receber taxas por atrair usuários, enquanto a transferência do token PAPER será habilitada futuramente. No lançamento, o ativo não poderá ser transferido nem vendido.

Projetos já se organizam em torno do PAPER

A estreia da Papertrade também movimenta projetos que pretendem explorar as recompensas e as possibilidades de acumulação do token.

A DX Research Group, responsável pelo DX Terminal, mantém o DXAP, um aplicativo por convite que permite a agentes de inteligência artificial negociar nas contas de usuários da Hyperliquid. Segundo o fundador, identificado como poof, o agente Superclip pretende operar com recursos de usuários do DXAP, mas os detalhes dessa estratégia ainda não estão claros.

Outro projeto, o PaperStrategy, utiliza 90% de um imposto de 10% cobrado sobre negociações do token PSTR para financiar estratégias de acumulação e staking de PAPER. Da receita gerada em USDC, 90% será destinada à recompra e queima de PSTR, enquanto os 10% restantes irão para a equipe.

A PaperDAO, por sua vez, arrecadou recursos em 7 de outubro por meio da plataforma daos.world. A iniciativa pretende reunir o dinheiro dos participantes em um tesouro coletivo, acumular PAPER desde o lançamento e fazer staking dos tokens para obter receita em USDC. Seu token PULP representa uma participação proporcional nesse tesouro e poderá ser resgatado em PAPER quando as transferências forem habilitadas.

Papertrade enfrenta riscos de liquidez e manipulação

Apesar da proposta diferente, o modelo traz riscos relevantes. O principal é a liquidez: se muitos traders tiverem lucro ao mesmo tempo, o saldo compartilhado poderá não ser suficiente para pagar todos. Os participantes com valores pendentes podem ter de esperar por novos recursos, sem garantia de quando receberão o dinheiro.

Outro risco envolve os preços usados para calcular os resultados das posições. Como as cotações da Hyperliquid funcionam, na prática, como referência para as operações da Papertrade, uma manipulação desses preços poderia permitir que traders extraíssem recursos do fundo de maneira injusta.

A emissão de PAPER também pode criar incentivos indesejados. O pesquisador tempest, da Delphi Digital, apontou que posições compradas e vendidas combinadas poderiam permitir a obtenção de tokens a baixo custo, diluindo os detentores existentes sem adicionar uma quantia equivalente ao fundo. Além disso, não há garantia de que o PAPER terá valor suficiente para compensar as perdas sofridas para acumulá-lo.

Por fim, a alavancagem de até 1.000x amplia drasticamente o risco de liquidação. Um movimento de aproximadamente 0,1% contra a posição pode eliminar a margem do trader, dependendo das condições da operação.

O lançamento coloca a Papertrade à prova com uma estrutura que transforma perdas em possíveis participações na receita futura da plataforma. A ideia diferencia o projeto de uma corretora convencional, mas sua viabilidade dependerá da capacidade de manter liquidez, distribuir pagamentos e evitar estratégias que explorem as regras de emissão do PAPER.

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Luíza Nunes
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