Os gigantes cripto estão, na prática, operando como bancos, mas sem o mesmo nível de regras e supervisão. O alerta veio do BIS (Banco de Compensações Internacionais), que acendeu o sinal vermelho para riscos crescentes no setor.
Segundo o novo relatório do Financial Stability Institute (FSI), as maiores plataformas cripto já funcionam como “intermediários multifuncionais”, oferecendo serviços que vão muito além da simples negociação de ativos digitais.
Na prática, essas empresas recebem recursos de clientes em estruturas semelhantes a depósitos, mas sem exigências equivalentes de capital, liquidez ou proteção.
O problema? Isso cria um ambiente típico de “shadow banking” (banco paralelo), onde riscos sistêmicos crescem fora do radar regulatório tradicional.
Os programas de rendimento (yield) e “earn”, por exemplo, transferem a posse dos ativos dos usuários para as plataformas. Isso gera passivos resgatáveis no curto prazo, muito parecidos com depósitos bancários.
A diferença crucial é que, no mundo cripto, não há seguro de depósitos nem acesso a liquidez de bancos centrais. Além disso, atividades como empréstimos com margem, derivativos e emissão de tokens ampliam ainda mais o risco de crédito e de mercado dentro dessas plataformas.
Falta de transparência e risco global aumentam pressão regulatória do BIS
O relatório aponta que essa combinação replica exatamente os mecanismos clássicos que historicamente levaram a crises no sistema financeiro tradicional. Os colapsos de 2022, incluindo Celsius e FTX, são citados como alertas iniciais. Já o flash crash de outubro de 2025 reforçou o risco, apagando cerca de US$ 19 bilhões em posições alavancadas em um único evento.
Outro ponto crítico destacado pelo BIS é a falta de transparência. Entre novembro de 2025 e março de 2026, pesquisadores analisaram termos de grandes plataformas e encontraram falhas relevantes. Muitas delas ainda não divulgam demonstrações financeiras completas nem explicam claramente como utilizam os ativos dos clientes.
O relatório recomenda uma combinação de regulação por entidade e por atividade, incluindo regras mais rígidas para empréstimos e operações fora das estruturas atuais. A cooperação internacional também aparece como peça-chave, já que grande parte dessas operações acontece de forma global e descentralizada.
A interconexão entre plataformas agrava o cenário, já que atuam simultaneamente como corretoras, credoras e custodiante de ativos umas das outras. Isso significa que problemas em uma grande empresa podem se espalhar rapidamente por todo o mercado.
Diante desse risco, investidores institucionais já começaram a mover seus ativos para custódias fora de exchanges, buscando reduzir exposição.
O recado do BIS é direto: as grandes empresas cripto já não podem ser tratadas apenas como plataformas de negociação. Agora, a grande questão é a velocidade com que reguladores ao redor do mundo vão transformar esse diagnóstico em regras concretas.












