Uma blockchain pode processar milhares de transações e ainda assim ter uma experiência cara ou congestionada para quem usa a rede. A explicação não está apenas na velocidade dos computadores. Está também em uma escolha menos visível: como a blockchain organiza o trabalho que precisa fazer.

Uma rede pode concentrar execução, consenso e disponibilidade dos dados em uma estrutura integrada. Outra pode separar essas funções entre diferentes camadas e redes especializadas. É dessa diferença que nasce o debate entre blockchain monolítica e blockchain modular.

Ethereum e Solana demonstram os dois caminho, mas o ponto não é descobrir qual arquitetura “vence”. É entender o que cada uma está tentando otimizar — e qual complexidade aceita carregar no processo.

A blockchain precisa fazer mais do que registrar transações

Quando uma pessoa envia uma transação, a rede precisa responder a três questões básicas.

Primeiro, o que deve ser executado? É a função de execução, responsável por calcular a mudança de estado, por exemplo, atualizar o saldo de uma carteira depois de uma transferência.

Depois, qual é o estado correto da rede? É aí que entra o consenso: os participantes precisam concordar sobre quais transações foram aceitas e em que ordem.

Por fim, os dados necessários para verificar tudo isso estão realmente disponíveis? Essa é a chamada disponibilidade de dados. Sem os dados, outros participantes podem ter dificuldade para conferir se o estado apresentado pela rede é válido. O próprio Ethereum destaca essa função como uma peça importante da escalabilidade baseada em rollups.

Essas tarefas podem ficar juntas ou ser distribuídas. A arquitetura escolhida define boa parte dos compromissos que vêm depois.

Na blockchain monolítica, a conta fica na própria rede

Uma blockchain monolítica concentra as principais funções na própria camada-base. Em vez de depender de várias redes especializadas para executar, validar e disponibilizar dados, a própria cadeia assume a maior parte desse trabalho.

A Solana costuma aparecer como exemplo dessa abordagem integrada. Sua documentação descreve um pipeline no qual a transação chega a um validador, passa por verificação de assinaturas, carregamento de contas, execução das instruções e confirmação do resultado.

A rede também possui mecanismos próprios para ordenar e sincronizar o processamento entre validadores.

Isso cria uma arquitetura com menos dependências entre camadas externas. Para o usuário, a interação também pode parecer mais direta: há uma rede principal realizando a maior parte do trabalho.

O preço dessa integração é que aumentar a capacidade da própria camada-base pode exigir que os operadores da rede acompanhem um volume maior de processamento, comunicação e armazenamento. O desafio passa a ser escalar sem tornar a participação na rede tão pesada a ponto de reduzir sua descentralização.

É uma questão de engenharia, não de slogan: quanto mais trabalho uma única camada assume, maior a pressão sobre ela.

O Ethereum mudou a pergunta ao dividir o trabalho

O caminho do Ethereum foi diferente. Em vez de depender apenas de aumentar a capacidade da rede principal, o ecossistema passou a transferir parte da execução para soluções de camada 2, principalmente rollups.

Um rollup processa transações separadamente e publica no Ethereum as informações necessárias para que as mudanças de estado possam ser verificadas. A execução fica fora da camada principal, enquanto o Ethereum continua desempenhando funções importantes de segurança, liquidação e disponibilidade de dados.

É essa separação que explica a blockchain modular.

Modularidade não significa simplesmente “ter várias blockchains”. Significa distribuir funções que antes poderiam estar concentradas em uma única estrutura. Uma camada pode ser especializada em execução, enquanto outra cuida do consenso ou da disponibilidade dos dados.

No caso dos rollups do Ethereum, essa divisão permite agrupar muitas transações e enviar os resultados de forma mais eficiente para a camada principal. O objetivo é reduzir a pressão sobre a L1 e aumentar a capacidade do sistema como um todo.

O ganho, porém, vem acompanhado de uma nova arquitetura de dependências. O usuário pode estar em uma camada diferente daquela responsável pela segurança ou pela liquidação final.

A arquitetura aparece no momento em que o usuário paga

É tentador tratar essa discussão como assunto exclusivo de desenvolvedores. Não é.

Quando uma rede fica congestionada, o usuário sente a arquitetura na forma de taxas maiores ou transações mais lentas. Quando parte da atividade migra para outras camadas, ele pode sentir a diferença em carteiras, pontes, depósitos e saques.

No Ethereum, por exemplo, uma aplicação pode operar em uma camada 2 e ainda depender da rede principal para publicar dados e garantir propriedades de segurança. Isso explica por que a experiência do usuário em um ecossistema modular pode ser mais distribuída do que a de uma rede integrada.

Ao mesmo tempo, “mais camadas” não significa automaticamente “mais risco”. Rollups são justamente desenhados para herdar determinadas garantias do Ethereum, embora os detalhes dependam de como cada sistema foi construído.

A própria documentação do Ethereum ressalta que soluções de camada 2 ainda envolvem tecnologias em diferentes níveis de maturidade.

A modularidade não elimina a complexidade, apenas muda onde ela fica

Esse é o ponto mais importante do debate.

Uma arquitetura integrada coloca mais responsabilidade dentro da própria blockchain. Uma arquitetura modular distribui essa responsabilidade entre componentes especializados.

Isso pode tornar o sistema mais flexível. Também pode criar novas interfaces, dependências e pontos de coordenação.

O caso da disponibilidade de dados deixa isso claro. Um rollup pode executar transações fora da camada principal, mas ainda precisa disponibilizar os dados necessários para que seu estado possa ser verificado. Sem essa informação, a capacidade de conferir o que aconteceu diminui.

Por isso, modularizar não é simplesmente “tirar peso da blockchain”. É mover o peso para outro lugar.

Essa mudança é relevante porque a escalabilidade de uma blockchain não depende apenas de processar mais transações por segundo. O objetivo é aumentar capacidade sem abrir mão das propriedades que tornam a rede útil, como segurança e descentralização.

O próprio Ethereum trata esses três elementos como partes do mesmo problema de escalabilidade.

Monolítica ou modular é, no fundo, uma escolha de compromissos

Ethereum e Solana ilustram arquiteturas diferentes porque partiram de prioridades e desenhos técnicos diferentes. Uma concentra mais funções na própria camada-base; a outra vem construindo um ecossistema em que a execução pode ser distribuída entre várias camadas.

Nenhuma dessas palavras, sozinha, explica se uma blockchain será barata, rápida ou descentralizada. O que importa é onde cada rede coloca os custos e as responsabilidades necessários para chegar a esse resultado.

É por isso que a arquitetura de blockchain importa para além do jargão. Quando o usuário pergunta por que uma rede ficou cara, por que outra processa transações de maneira diferente ou por que uma aplicação funciona em uma camada separada, muitas vezes a resposta começa antes da transação: começa na decisão sobre quem faz cada parte do trabalho.

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Luíza Nunes
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Luíza Nunes