
A Europol publicou dois relatórios nesta quarta-feira alertando que governos, empresas e o setor de criptomoedas precisam começar a se preparar para ataques quânticos. O principal risco, segundo a agência policial da União Europeia, está nas carteiras de criptomoedas.
O relatório Quantum Computing and Cryptocurrencies, produzido pelo European Cybercrime Centre da Europol, aponta as carteiras como o principal ponto de exposição ao avanço da computação quântica.
O motivo está na forma como as transações são protegidas. As carteiras utilizam um par de chaves: a chave privada autoriza movimentações, enquanto a chave pública permite que a rede valide essas transações.
Um computador quântico suficientemente poderoso poderia usar uma chave pública exposta para derivar a chave privada correspondente. Na prática, isso permitiria que um invasor movimentasse fundos sem autorização — cenário associado ao chamado Q-Day.
Apesar do risco, a Europol não prevê o colapso das criptomoedas por causa da computação quântica. O relatório afirma que as funções hash usadas para conectar blocos e sustentar a mineração continuam amplamente protegidas, já que quebrar uma função hash de 256 bits exigiria uma quantidade de operações considerada astronomicamente alta com a tecnologia prevista atualmente.
A recomendação, portanto, é começar uma transição gradual para sistemas de criptografia resistentes à computação quântica, além de reforçar a segurança das carteiras e o gerenciamento de chaves.
Ataques quânticos aumentam pressão sobre carteiras de Bitcoin
O problema é especialmente delicado para carteiras cujas chaves públicas já foram expostas na blockchain. Segundo a Europol, nesses casos não é possível corrigir a vulnerabilidade depois que ela ocorreu.
A saída seria uma migração preventiva: os usuários precisariam transferir os fundos para novas carteiras antes que uma máquina quântica pudesse explorar as chaves expostas.
O relatório cita uma estimativa da Glassnode, de maio, segundo a qual 6,04 milhões de BTC, equivalentes a 30,2% da oferta emitida, já tiveram suas chaves públicas expostas.
A adaptação da rede, porém, também teria custos. Assinaturas pós-quânticas padronizadas pelo NIST podem ser entre 10 e 120 vezes maiores do que as assinaturas ECDSA utilizadas pelo Bitcoin atualmente.
Na prática, isso poderia pressionar o espaço dos blocos, aumentar as taxas e tornar as confirmações mais lentas. A Europol cita ainda um estudo de 2024 segundo o qual a migração de todos os outputs de transações não gastos do Bitcoin exigiria pelo menos 76 dias de indisponibilidade acumulada, ou cerca de 300 dias caso o processo ocupasse apenas 25% de cada bloco.
O risco dos ataques quânticos pode começar antes do Q-Day
A Europol também chama atenção para o conceito de “harvest now, decrypt later”, em que invasores coletam dados criptografados hoje com a expectativa de conseguir decifrá-los no futuro.
Um segundo relatório, elaborado em parceria com a Universidad Carlos III de Madrid, analisou protocolos amplamente utilizados, como TLS, SSH e OpenPGP. O nível de vulnerabilidade varia conforme configurações e sistemas de gerenciamento de chaves.
Atualmente, não há evidências claras de que essa estratégia esteja sendo explorada de forma sistemática em grande escala. Ainda assim, o relatório considera comunicações governamentais e informações empresariais confidenciais como alvos mais prováveis, devido aos recursos necessários para esse tipo de operação.
Para as criptomoedas, a Europol identifica um risco ainda mais imediato: um ataque realizado durante uma transação. O cenário descrito seria um ataque “just-in-time”, no qual um computador quântico obteria a chave privada no curto intervalo entre a exposição da chave pública e a confirmação da operação na blockchain.
A pressão por preparação já aparece em diferentes frentes. A IBM trabalha com uma meta de computador quântico tolerante a falhas até 2029, enquanto a Microsoft também projeta computação quântica escalável até esse período.
Pesquisas do Google em março e uma competição com apoio de inteligência artificial em setembro reduziram estimativas sobre os recursos necessários para atacar a criptografia de curva elíptica usada pelo Bitcoin.
Enquanto isso, a Coinbase recomendou em junho que desenvolvedores comecem a migração para sistemas pós-quânticos. Ripple e Stellar Development Foundation também já publicaram planos de transição.
Em julho, nove empresas, incluindo BlackRock, Coinbase e Strategy, prometeram US$ 15 milhões ao longo de três anos para pesquisas sobre segurança do Bitcoin, incluindo defesas contra ameaças quânticas.
A União Europeia também trabalha para antecipar o problema. Em setembro, três supervisores financeiros do bloco alertaram para a possibilidade de surgir um computador quântico capaz de quebrar sistemas de criptografia antes de a tecnologia alcançar uso comercial viável.
O grupo de cooperação NIS da União Europeia recomendou que os países-membros adotem uma estratégia de migração para sistemas pós-quânticos até o fim de 2026.
Nos Estados Unidos, o NIST propôs retirar gradualmente as configurações de chave pública mais comuns a partir de 2030 e eliminar progressivamente a criptografia clássica de chave pública até 2035.
O movimento reforça a principal conclusão da Europol: ataques quânticos não significam o fim das criptomoedas, mas aumentam a necessidade de preparar as redes antes que a tecnologia capaz de explorá-las esteja disponível.









