
A mineração de Bitcoin enfrenta uma mudança de modelo de negócios. Com os custos de produção pressionados e a inteligência artificial oferecendo novas oportunidades de receita, grandes mineradoras estão direcionando suas instalações para data centers de IA.
Ao mesmo tempo, plataformas como a GoMining apostam em outra alternativa: permitir que investidores tenham exposição às recompensas da mineração sem precisar comprar ou operar equipamentos.
A pressão financeira ajuda a explicar o movimento. Segundo relatório da CoinShares de setembro de 2026, o custo médio ponderado em dinheiro para produzir um Bitcoin entre mineradoras de capital aberto chegou a aproximadamente US$ 75.500 no segundo trimestre.
No fim de junho, o BTC era negociado a US$ 58.400, cenário que tornava a operação deficitária para empresas com custos nessas condições.
A receita da mineração também perdeu força. O hashprice, indicador que mede a receita diária por unidade de poder computacional, teve média de US$ 27,70 por petahash em junho, o menor valor mensal já registrado até então. As taxas de transação representaram menos de 1% das recompensas dos blocos, aumentando a dependência dos mineradores em relação ao preço do Bitcoin.
Mineração de Bitcoin disputa espaço com a inteligência artificial
A mudança de estratégia já aparece nos resultados das empresas. A IREN registrou US$ 70,5 milhões em receita trimestral com serviços de computação em nuvem para IA, superando pela primeira vez os US$ 66,7 milhões provenientes da mineração de Bitcoin.
A TeraWulf, por sua vez, obteve 71% da receita do segundo trimestre com contratos de aluguel de infraestrutura de computação de alto desempenho. Já a Core Scientific teria desembolsado US$ 41,9 milhões para encerrar um acordo de equipamentos de mineração de nova geração e direcionar recursos para infraestrutura de IA.
A CoinShares estima que a infraestrutura de inteligência artificial pode gerar cerca de US$ 1,5 milhão em lucro anualizado por megawatt, ante aproximadamente US$ 500 mil para a mineração de Bitcoin nas condições de mercado analisadas.
O relatório também identificou mais de US$ 100 bilhões em contratos divulgados de IA e computação entre empresas de mineração listadas.
Em agosto, Wolfie Zhao, do The Energy Mag, publicação que mudou de nome após ampliar sua cobertura para além da mineração, afirmou à BBC: “We expect to see many public miners continue winding down their Bitcoin mining hardware in the coming quarters,”
Hashrate tokenizado oferece outro caminho para investidores
Com parte da indústria migrando para a IA, investidores interessados especificamente na produção de Bitcoin podem buscar alternativas às ações de mineradoras tradicionais. Uma delas é a tokenização do hashrate, modelo que procura separar a exposição às recompensas da mineração da propriedade e da operação dos equipamentos.
A GoMining, empresa sediada no Chipre, oferece o Digital Miner. Nesse modelo, o usuário adquire uma representação digital de uma parcela do poder computacional de equipamentos físicos operados pela empresa e por seus prestadores de serviço.
A plataforma administra a infraestrutura e distribui recompensas diárias em BTC, descontadas as taxas aplicáveis de manutenção.
Segundo a empresa, sua frota representa aproximadamente 2% do hashrate global do Bitcoin. O CEO Mark Zalan resumiu a proposta durante uma discussão com a KuCoin em 2025: “We want to make participation in Bitcoin mining simpler,”
A estrutura, porém, não elimina os custos econômicos da atividade nem garante rentabilidade. Os resultados continuam sujeitos a fatores como o preço do Bitcoin, a dificuldade de mineração, o hashprice e as despesas operacionais. Se a receita gerada pelo poder computacional não for suficiente para cobrir os custos, os retornos podem diminuir ou até se tornar negativos.
Zalan também afirmou que o direito associado ao hashrate tokenizado é contratual e técnico, e não representa participação acionária na GoMining. Portanto, adquirir esse tipo de ativo não equivale a ser dono dos equipamentos nem a possuir ações da empresa.
A transformação do setor abre espaço para duas teses diferentes: investir em mineradoras que buscam receitas mais previsíveis com contratos de IA ou procurar produtos vinculados diretamente à produção de Bitcoin. Em ambos os casos, a exposição envolve riscos distintos, e a tokenização não torna a mineração imune à queda das margens.








