O Bitcoin voltou a cair nesta quinta-feira (5), chegando a ser negociado abaixo de US$ 76 mil e devolvendo praticamente todos os ganhos registrados após as eleições legislativas dos Estados Unidos. A queda ocorreu em meio a uma onda de vendas nas bolsas americanas, com destaque para empresas de tecnologia ligadas à inteligência artificial e à fabricação de semicondutores.

Por volta das 14h, no horário de Brasília, a criptomoeda era negociada perto de US$ 76.180, acumulando perdas superiores a 4% em 24 horas. Na quarta-feira, o ativo havia ultrapassado US$ 80 mil e chegado a aproximadamente US$ 80.500 durante a madrugada. A reversão eliminou quase US$ 5 mil de seu valor em poucas horas.

O movimento também atingiu o restante do mercado cripto. O Ethereum (ETH) recuava cerca de 7%, para US$ 2.250, enquanto a Solana (SOL) perdia mais de 6%, negociada perto de US$ 90. XRP, BNB e Dogecoin (DOGE) também registravam perdas, em uma sessão negativa para aproximadamente 90% das cem maiores criptomoedas.

A velocidade da queda provocou US$ 428 milhões em liquidações de posições compradas (longs) em apenas uma hora, segundo dados da CoinGlass. Essas operações envolvem investidores que utilizam alavancagem para apostar na valorização de um ativo. Quando o preço recua além de determinado limite, a plataforma encerra a posição automaticamente, o que pode intensificar a pressão vendedora.

Bitcoin acompanha tombo das ações de tecnologia

A correção das criptomoedas ocorreu junto com uma forte desvalorização das bolsas americanas. O Nasdaq Composite chegou a cair mais de 5% durante a manhã, enquanto o S&P 500 recuava aproximadamente 3,4%, devolvendo os ganhos da sessão anterior.

Fabricantes de semicondutores e empresas de infraestrutura para inteligência artificial lideraram as perdas. As ações da Nvidia recuavam cerca de 8%, enquanto AMD e Micron registravam quedas de dois dígitos. CoreWeave e Nebius, ligadas à construção e operação de centros de processamento de dados, também enfrentavam desvalorizações expressivas.

Segundo a Reuters, o índice de empresas de semicondutores da Bolsa da Filadélfia chegou a perder aproximadamente 8%. A pressão reflete dúvidas sobre os investimentos bilionários em inteligência artificial e sobre a capacidade das companhias de gerar retornos suficientes para justificar suas avaliações.

As preocupações ganharam força após as eleições legislativas americanas, nas quais os democratas conquistaram o controle das duas casas do Congresso.

Depois de uma reação inicialmente positiva dos mercados, investidores passaram a avaliar os possíveis efeitos de uma fiscalização mais rigorosa sobre a expansão dos centros de dados, especialmente diante das preocupações com o consumo de energia e o custo da eletricidade.

Um levantamento citado pela Reuters apontou que eleitores de pelo menos 29 localidades americanas apoiaram medidas para restringir a instalação de novos centros de dados. O UBS estima que eventuais suspensões de projetos poderiam afetar até 30% da capacidade adicional prevista para os Estados Unidos em 2028.

“Suspeitamos que haverá algum escrutínio sobre essa expansão agressiva da inteligência artificial”, afirmou Ipek Ozkardeskaya, analista sênior do Swissquote Bank, à Reuters.

A busca por ativos considerados mais seguros também apareceu nos mercados tradicionais. O ouro avançava aproximadamente 1,1%, para US$ 4.116 por onça, enquanto o rendimento dos títulos do Tesouro americano de dez anos recuava para perto de 4,86%.

Liquidações ampliam a volatilidade do Bitcoin

A dinâmica do mercado de derivativos ajuda a explicar por que a recuperação de quarta-feira foi revertida tão rapidamente. Na sessão anterior, a alta havia sido impulsionada, em parte, pelo encerramento forçado de apostas contra a criptomoeda.

Dados da CoinGlass mostram que cerca de US$ 378 milhões em posições vendidas (shorts) foram liquidados em apenas uma hora, quando o preço superou US$ 80 mil. O fenômeno, conhecido como short squeeze, ocorre quando investidores que apostam na queda precisam recomprar o ativo para encerrar suas operações, criando demanda adicional e acelerando a valorização.

Nesta quinta-feira, o mecanismo funcionou na direção oposta. Com a queda dos preços, investidores alavancados que esperavam a continuidade da recuperação tiveram suas posições encerradas, aumentando a pressão de venda.

A correção também acontece depois de um mês de perdas para o setor. Antes das eleições americanas, o mercado de criptomoedas já havia perdido aproximadamente US$ 300 bilhões em valor, pressionado pelos juros elevados, pelas preocupações com os investimentos em inteligência artificial e pelo ataque hacker de US$ 6,3 bilhões sofrido pela Binance na semana anterior.

As ações de empresas diretamente ligadas ao setor cripto acompanharam o movimento. A Coinbase recuava cerca de 7,8%, enquanto a Circle, emissora da stablecoin USDC, perdia aproximadamente 10%. A Strategy, maior empresa de tesouraria de Bitcoin do mundo, registrava queda superior a 8%.

Também foram afetadas as empresas de mineração que investem em infraestrutura para inteligência artificial. Cipher Mining, Bitdeer, IREN e TeraWulf chegaram a apresentar perdas entre 13% e 15%.

Para os próximos dias, os investidores acompanham a divulgação do relatório de emprego dos Estados Unidos, prevista para sexta-feira (6). O indicador poderá influenciar as expectativas sobre os juros americanos, em um momento em que a inflação persistente levou parte do mercado a considerar a possibilidade de novos aumentos pelo Federal Reserve.

No cenário político, a nova composição do Congresso também pode dificultar o avanço do Clarity Act, projeto de lei que pretende estabelecer regras federais para o mercado de ativos digitais nos Estados Unidos. A proposta já enfrentava obstáculos no Senado e poderá sofrer alterações ou ter sua tramitação interrompida antes de o novo Congresso assumir, em janeiro.

No gráfico, a região de US$ 75 mil aparece como um suporte importante. Uma perda consistente desse patamar poderia ampliar as vendas, enquanto uma recuperação acima de US$ 80 mil ajudaria a reduzir parte da pressão. A queda também pode formar um padrão de engolfo de baixa, mas sua confirmação depende do fechamento diário.

A reversão mostra que a recuperação posterior às eleições americanas ainda não havia sido acompanhada por uma melhora consistente das condições de mercado. Com as ações de tecnologia em forte correção e as liquidações de posições alavancadas, o Bitcoin voltou a enfrentar um ambiente de maior volatilidade.

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Luíza Nunes
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