
O hack da Binance reacendeu o debate sobre a segurança das corretoras de criptomoedas e as diferenças entre proteger ativos digitais e dinheiro depositado em bancos. Em ataques dessa dimensão, invasores que conseguem assumir o controle dos sistemas de saque podem transferir bilhões de dólares em poucos minutos, enquanto as instituições tentam localizar e recuperar os fundos.
O episódio, apresentado como um ataque de US$ 6,3 bilhões, também levantou uma questão importante para o setor: as corretoras de criptomoedas são mais vulneráveis a ataques cibernéticos ou simplesmente têm menos recursos para impedir que uma invasão resulte em perdas definitivas?
Os bancos também enfrentam ataques frequentes. Um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) publicado em 2024 identificou as instituições bancárias como os alvos mais recorrentes de ataques cibernéticos no setor financeiro.
Entre 2004 e 2023, empresas financeiras responderam por quase 20% dos incidentes cibernéticos reportados entre diferentes setores, com aproximadamente US$ 12 bilhões em perdas diretas registradas. Esses números, porém, não representam todas as perdas decorrentes de fraudes bancárias e não permitem concluir se bancos ou corretoras sofrem mais ataques.
Para Tomer Sharoni, CEO da empresa israelense de inteligência blockchain Addressable, a principal diferença está menos na maneira como os hackers conseguem acesso aos sistemas e mais no que podem fazer depois de invadi-los.
“A bank employee’s laptop can be compromised exactly the same way as an exchange employee’s laptop”, afirmou Sharoni à CoinDesk. Segundo ele, técnicas como phishing, downloads maliciosos e falsas entrevistas de emprego podem atingir os dois tipos de instituição. A diferença está no resultado que os invasores conseguem obter.
No sistema bancário tradicional, uma transferência suspeita pode passar por diferentes etapas de verificação, incluindo controles de conformidade e análises das instituições responsáveis pelo processamento do pagamento. Dependendo do caso, também existe a possibilidade de reverter ou recuperar uma transferência.
Nas redes blockchain, a situação é diferente. Depois que uma transação é confirmada, normalmente não existe um mecanismo para desfazê-la. Alguns emissores de tokens podem congelar ativos roubados, mas essa possibilidade não se aplica a todas as criptomoedas e não garante a recuperação dos valores.
Essa combinação de velocidade e irreversibilidade torna os grandes cofres de criptomoedas alvos particularmente valiosos. Sharoni resumiu o problema da seguinte maneira: “Speed, finality and irreversibility make large crypto treasuries the most valuable targets in finance.”
Hack da Binance divide especialistas sobre a segurança das corretoras
A avaliação de Sharoni sobre a frequência dos ataques, entretanto, não é consenso entre os especialistas.
Abdul Rafay Gadit, cofundador da ZIG Finance, argumenta que as empresas de criptomoedas não necessariamente sofrem mais invasões do que os bancos. A diferença estaria na visibilidade dos incidentes e na dificuldade de reverter suas consequências.
“Crypto doesn’t get hacked more than banks. It just can’t hide it, and it can’t undo it”, afirmou Gadit à CoinDesk.
Segundo o executivo, instituições bancárias frequentemente conduzem investigações internas e comunicam os clientes afetados de maneira privada. Já os roubos de criptomoedas deixam rastros públicos nas blockchains, permitindo que qualquer pessoa acompanhe a movimentação dos fundos.
Além disso, uma invasão bancária não significa necessariamente que houve roubo de dinheiro. Os criminosos podem conseguir acesso a informações de clientes, senhas e outros dados sem retirar recursos das contas.
A divergência entre os especialistas evidencia uma limitação importante: não há, nas avaliações apresentadas, dados comparativos suficientes para determinar qual dos dois setores sofre mais ataques. O que o caso da Binance demonstra é como uma falha nos controles operacionais pode resultar em perdas expressivas.
Segundo uma análise técnica da CoinDesk, os invasores retiraram aproximadamente US$ 2,5 bilhões de uma carteira da Binance em menos de quatro minutos. A operação envolveu código malicioso autorizado a controlar a carteira por meio do EIP-7702 do Ethereum, recurso que permite que carteiras convencionais executem funcionalidades de software conhecidas como smart contracts.
O co-CEO da Binance, Richard Teng, afirmou na sexta-feira que os investigadores identificaram múltiplas violações de segurança, incluindo evidências de um mecanismo utilizado pelos invasores para apagar rastros da atividade.
A corretora está reconstruindo sua infraestrutura de saques e revisando os procedimentos de assinatura de transações, os dispositivos utilizados pelos funcionários e os mecanismos de gerenciamento de chaves.
O episódio não envolveu a quebra da criptografia fundamental do Ethereum. A exploração atingiu os sistemas e as permissões utilizados para controlar uma carteira de criptomoedas, mostrando que a segurança de uma corretora depende também dos processos internos responsáveis por autorizar movimentações.
Gadit defende que as corretoras adotem mecanismos operacionais semelhantes aos utilizados pelos bancos, incluindo autoridades de assinatura separadas, processos de aprovação independentes e limites para saques.
Hack da Binance expõe o custo de falhas nos controles internos
O episódio também ocorre em um momento de perdas elevadas no mercado de segurança blockchain. Antes do ataque, a empresa de segurança CertiK havia registrado US$ 1,28 bilhão em perdas com criptomoedas durante o terceiro trimestre de 2026, um aumento de quase 56% em relação ao trimestre anterior.
Outro caso de grande dimensão foi o roubo de US$ 1,5 bilhão da Bybit, em fevereiro de 2025, que também envolveu ataques direcionados aos sistemas utilizados para controlar ativos digitais.
Para Daniel Tunkel, responsável pela área de regulação financeira do escritório britânico Edwin Coe, os riscos enfrentados pelas corretoras representam “an accident waiting to happen”.
O advogado também defendeu que os reguladores avaliem não apenas a capacidade das plataformas de impedir invasões, mas se possuem recursos financeiros e salvaguardas operacionais suficientes para suportar um ataque de grandes proporções.
Essa preocupação envolve um desafio próprio das corretoras: proteger grandes quantidades de criptomoedas sem comprometer a disponibilidade de recursos necessária para atender negociações e saques dos clientes.
A transparência das blockchains também tem dois lados. Embora permita acompanhar o destino dos fundos roubados e identificar movimentações suspeitas, rastrear uma transação não significa conseguir interrompê-la ou recuperar os ativos.
Para Sharoni, o principal desafio da indústria está justamente em reduzir o intervalo entre identificar uma movimentação criminosa e conseguir impedir que ela aconteça. No mercado de criptomoedas, fortalecer os controles antes da autorização de uma transferência pode ser tão importante quanto descobrir quem está por trás de um ataque.









