Uma criptomoeda pode ter um limite máximo de unidades e continuar aumentando sua presença no mercado por anos. Outra pode não estabelecer um teto, mas seguir regras claras para a criação de novos tokens.

Há também projetos que retiram unidades de circulação sem necessariamente reduzir a oferta total ao longo do tempo.

Esses fatores, e.g. quanto existe, quanto está disponível no mercado e como essa quantidade pode mudar, influenciam a dinâmica do ativo e ajudam a contextualizar sua cotação.

Entender essas diferenças é importante para avaliar a economia de um criptoativo além de sua cotação. A oferta de tokens depende de fatores como a emissão de novas unidades, o desbloqueio de ativos e a queima de tokens.

Como funciona a oferta de tokens de uma criptomoeda?

Três medidas costumam aparecer nessa análise, mas não significam a mesma coisa. A oferta circulante reúne as unidades consideradas em circulação segundo a metodologia da fonte, já a oferta total contabiliza as unidades já emitidas que continuam sendo consideradas existentes, e a oferta máxima indica o limite previsto pelo protocolo, quando existe.

Cada uma delas responde a uma pergunta distinta. A oferta máxima fala de um limite, mas não informa, sozinha, quantas unidades estão disponíveis agora nem em que ritmo isso pode mudar. Já a oferta circulante pode crescer mesmo sem a criação de tokens novos, quando unidades previamente bloqueadas são liberadas.

Para entender a dinâmica, é útil separar três movimentos: emissão, desbloqueio e queima. A emissão cria unidades novas. O desbloqueio torna disponíveis tokens que já existiam. A queima remove unidades de circulação, segundo as regras adotadas por cada projeto.

Mais tokens em circulação significam mais diluição?

Algumas redes criam tokens para remunerar validadores, mineradores ou participantes de programas de incentivo. Essa emissão faz parte do funcionamento econômico do protocolo, mas seu efeito não termina no pagamento das recompensas: também aumenta a quantidade de unidades existentes.

Quando medida como aumento percentual dessa quantidade, a dinâmica costuma ser chamada de inflação da oferta — algo diferente da inflação de preços no consumo.

Imagine uma criptomoeda com 100 milhões de tokens. Se o protocolo emitir mais 5 milhões ao longo de um ano, sem queimas ou outros ajustes, a oferta total crescerá 5%. Uma pessoa que mantenha 1 milhão de tokens continuará com a mesma quantidade, mas sua participação no total cairá de 1% para cerca de 0,95%.

Isso é diluição. Não significa que o preço necessariamente cairá: a demanda pode crescer mais rápido que a oferta, e o mercado também considera fatores como utilidade, liquidez e expectativas. O ponto é que a emissão muda as condições que precisam ser consideradas para interpretar a cotação.

Também vale distinguir oferta máxima de ritmo de emissão. Um ativo pode ter um teto fixo e continuar emitindo até alcançá-lo. Outro pode não ter um limite máximo, mas seguir uma regra conhecida de emissão.

O que muda na oferta quando tokens bloqueados são liberados

Um cronograma de vesting define quando unidades reservadas a fundadores, investidores, colaboradores ou outros grupos ficam disponíveis. Um desbloqueio pode aumentar a oferta de tokens circulantes e, com isso, ampliar a quantidade potencialmente negociável, mas não cria tokens que antes não existiam.

Sem essa distinção, a análise pode dar uma impressão errada do que realmente mudou. Emissões alteram a quantidade total de unidades; desbloqueios mudam a parcela que está disponível. Ambos podem influenciar o mercado, mas por caminhos diferentes.

Um desbloqueio também não significa que os tokens serão vendidos. Ele sinaliza uma mudança nas condições de disponibilidade, não uma ordem automática de venda.

Para analisar a oferta, portanto, convém olhar separadamente para o calendário de liberações e para as regras que determinam a criação de unidades novas.

Queimar tokens é suficiente para reduzir a oferta de uma criptomoeda?

A queima de tokens é um mecanismo que retira unidades de circulação, normalmente enviando-as a um endereço irrecuperável ou usando uma regra de protocolo que as torna inutilizáveis. O efeito depende de quanto é queimado em comparação com o que continua sendo emitido.

A Ethereum oferece um bom exemplo com o EIP-1559, a taxa-base das transações é queimada, enquanto a taxa de prioridade pode remunerar o validador. Como a rede também emite ETH para recompensas, a quantidade total pode crescer ou diminuir conforme o equilíbrio entre emissão e queima.

A existência do mecanismo de queima não garante, por si só, uma oferta decrescente.

Esse é o detalhe que slogans como “token deflacionário” podem esconder. Para saber se a oferta de tokens está realmente encolhendo, é necessário observar a variação líquida no período, e não apenas a quantidade queimada ou a presença de uma função de queima no código.

Queimar unidades tampouco cria demanda automaticamente: escassez e interesse de compra são coisas diferentes.

Recompensas altas podem vir acompanhadas de diluição

O rendimento divulgado por um protocolo também precisa ser lido à luz da oferta de tokens. Em alguns casos, quem participa de staking ou de outro programa recebe recompensas criadas pelo próprio protocolo. A quantidade de tokens na carteira aumenta, mas a oferta geral pode crescer ao mesmo tempo.

Uma rentabilidade positiva no papel não significa necessariamente um ganho real. É preciso entender de onde vem a recompensa: de taxas pagas por usuários e outras receitas da atividade econômica, de novas emissões ou de uma combinação dessas fontes.

No mercado cripto, a expressão ‘rendimento real’ costuma ser usada para diferenciar retornos ligados a receitas do protocolo daqueles financiados principalmente pela emissão de tokens, embora o termo não tenha uma definição única e universal.

Mesmo quando há receita, não basta assumir que ela chegará aos detentores do token. O protocolo pode direcioná-la a validadores, tesouraria, fornecedores de liquidez ou outras finalidades. O importante é acompanhar as regras efetivas, não apenas o percentual anunciado.

A oferta de uma criptomoeda depende do equilíbrio entre emissão e queima

Antes de avaliar a oferta de tokens de uma criptomoeda, procure entender quantos tokens já existem, quantos estão em circulação e quantas unidades ainda podem ser emitidas ou desbloqueadas. Também vale verificar se as recompensas do protocolo vêm de receitas próprias ou da criação de novos tokens, já que a origem desses pagamentos influencia a dinâmica da oferta.

Essas informações ajudam a avaliar a estrutura econômica do projeto, mas não permitem prever o preço por conta própria. Uma oferta crescente não significa necessariamente desvalorização, assim como a queima de tokens não garante valorização.

O resultado depende também da demanda, do uso do ativo e das condições do mercado.

Entender a oferta de tokens é, portanto, mais do que conferir se existe um limite máximo. É acompanhar como as regras do protocolo afetam a quantidade de unidades ao longo do tempo e quem pode ter acesso a elas. Ao analisar a oferta de tokens, considere esses mecanismos em conjunto com a demanda, em vez de tratar a escassez como garantia de retorno.

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Luíza Nunes
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Luíza Nunes