A tokenização de ativos financeiros promete acelerar operações e permitir negociações 24 horas por dia, mas o mercado ainda está longe de alcançar a escala das finanças tradicionais. Em seu relatório de estabilidade financeira de outubro, o Fundo Monetário Internacional (FMI) aponta volumes reduzidos e dificuldades de integração entre plataformas.

Segundo o documento, os ativos tokenizados disponíveis publicamente, excluídos os de pensões, somam cerca de US$ 65 bilhões. As ações tokenizadas representam apenas US$ 2,3 bilhões desse total, com mais de 70% concentrados em duas plataformas, Ondo Finance e Backed Finance.

O relatório também destaca o segmento de pensões, com volume diário médio de US$ 303 bilhões. O FMI aponta a gestão de garantias como uma das aplicações mais concretas da tokenização, embora a atividade continue concentrada nos Estados Unidos e em algumas jurisdições offshore.

Outro obstáculo está na infraestrutura. As plataformas operam em redes com pouca compatibilidade entre si, o que dificulta a conexão entre mercados e limita o potencial de integração das operações financeiras.

Tokenização de ativos amplia o acesso, mas tem limites

Os dados mostram que a negociação fora do horário convencional já é uma característica relevante desse mercado. Mais da metade das transações com ações tokenizadas ocorre fora do horário de funcionamento das bolsas americanas.

As operações também são marcadas por valores menores. Cerca de 80% das transações envolvem menos de uma ação, indicando a presença de negociações fracionadas. Mesmo assim, esses mercados apresentam menos liquidez e volatilidade aproximadamente 1,5 vez maior do que a de seus equivalentes tradicionais.

A negociação contínua também não rompe a ligação com os mercados convencionais. Informações divulgadas durante a noite são incorporadas aos preços quando as bolsas tradicionais abrem, mostrando que os dois ambientes permanecem interdependentes.

A velocidade das operações, por sua vez, traz riscos próprios. Com prazos de liquidação menores, participantes têm menos tempo para administrar a liquidez e ajustar posições. A falta de conexão entre registros e o uso de alavancagem podem ampliar tensões no sistema financeiro.

Para que a tokenização de ativos avance de forma sustentável, o FMI identifica quatro prioridades: segurança jurídica, clareza regulatória, interoperabilidade entre plataformas e confiabilidade dos ativos usados na liquidação.

A instituição também defende regras neutras em relação à tecnologia. Na prática, atividades semelhantes devem seguir os mesmos requisitos, independentemente do sistema utilizado para executá-las.

O FMI ainda favorece a liquidação em moeda de banco central e alerta para os riscos de contágio associados a soluções privadas, incluindo stablecoins.

O diagnóstico é que a tokenização pode transformar a infraestrutura dos mercados financeiros, mas a expansão dependerá não apenas da velocidade das transações. A integração entre plataformas, a liquidez e a confiança nos mecanismos de liquidação serão determinantes para que a tecnologia alcance uma adoção mais ampla.

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Luíza Nunes
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