
Transformar uma ação em um token resolve uma parte relativamente clara do problema: criar uma representação digital que possa circular em uma blockchain.
Depois disso, ainda é preciso encontrar alguém disposto a negociá-la.
A Robinhood acaba de adicionar a Arcus como uma nova rota para negociações de mais de 190 Stock Tokens dentro da Robinhood Wallet. A diferença está no mecanismo utilizado para executar essas operações: em vez de depender apenas da liquidez disponível em pools on-chain, a Arcus utiliza um sistema de request for quote, ou RFQ, no qual market makers profissionais competem para oferecer preços para cada ordem.
A integração parece uma evolução técnica de um produto que a Robinhood já oferece em mais de 120 países. Mas ela expõe uma questão maior sobre a tokenização do mercado de ações.
Colocar um ativo na blockchain não cria automaticamente o mercado necessário para negociá-lo.
É preciso construir liquidez, execução e formação de preço ao redor do token. E, quando isso acontece, parte da infraestrutura que parecia destinada a desaparecer começa a reaparecer em uma nova forma.
O token existe. Agora ele precisa encontrar uma contraparte
Os Stock Tokens da Robinhood podem circular como ativos ERC-20 e, em mercados elegíveis, ser negociados 24 horas por dia através da Robinhood Chain. A empresa também prevê sua utilização em aplicações DeFi, incluindo empréstimos e como garantia em outras operações.
Mas essas possibilidades não respondem a uma pergunta fundamental de qualquer mercado: o que acontece quando alguém quer vender?
Uma blockchain permite transferir um token entre duas carteiras. Isso não significa que exista automaticamente uma contraparte disposta a comprá-lo pelo preço esperado.
É aí que entra a Arcus.
Quando uma ordem é encaminhada por sua infraestrutura, market makers competem para apresentar cotações. Em vez de o investidor depender exclusivamente de um pool com ativos previamente depositados, diferentes participantes profissionais podem disputar a execução daquela operação.
É uma diferença importante.
Tokenização resolve a representação do ativo. Market makers continuam ajudando a resolver a negociação do ativo, e esses são problemas diferentes.
Blockchain não elimina a necessidade de formar um mercado
Grande parte da promessa dos ativos tokenizados está ligada à possibilidade de tornar mercados mais contínuos e programáveis.
Um token pode circular fora do horário de funcionamento das bolsas. Pode ser transferido entre carteiras. Pode interagir com protocolos e contratos inteligentes. Em determinadas estruturas, pode ser utilizado como garantia ou integrado a outros produtos financeiros.
Mas nenhuma dessas características garante liquidez.
Para um mercado funcionar bem, compradores e vendedores precisam encontrar preços aceitáveis, ordens precisam ser executadas e participantes precisam estar dispostos a fornecer capital quando os dois lados do mercado não aparecem simultaneamente.
A infraestrutura pode mudar. A função econômica continua existindo.
A Arcus é uma demonstração disso.
Criada pela equipe por trás da dYdX, a plataforma afirma ter processado mais de US$ 5 bilhões desde seu lançamento na Robinhood Chain em julho, com mais de 15 mil traders únicos. Sua oferta cresceu de pouco mais de 90 Stock Tokens no lançamento para mais de 190 atualmente.
Esse crescimento não elimina os intermediários responsáveis por fornecer liquidez, ele os reorganiza.
Em vez de um market maker atuar apenas dentro da arquitetura tradicional de uma bolsa, ele pode competir para precificar uma ordem enviada por uma carteira cripto.
A Robinhood está construindo várias rotas para a mesma ação tokenizada
A própria estrutura da Robinhood mostra que não existe uma única maneira de negociar esses ativos.
A Arcus passa a ser uma entre várias rotas disponíveis para swaps de Stock Tokens dentro da Robinhood Wallet. A empresa também lista integrações com plataformas como Uniswap, Rialto, Lighter e 1inch.
Isso aproxima o mercado tokenizado de uma característica que já existe nos mercados financeiros tradicionais: diferentes ambientes e provedores podem competir pela execução da mesma exposição econômica.
A diferença está na arquitetura.
Uma carteira pode procurar liquidez em protocolos diferentes. Um RFQ pode solicitar preços a market makers. Pools podem oferecer outra fonte de execução. O ativo continua sendo transferível on-chain, mas o caminho utilizado para encontrar seu preço pode variar.
Tokenizar uma ação, portanto, não significa criar uma bolsa dentro do token.
A representação do ativo e a infraestrutura necessária para negociá-lo continuam sendo camadas separadas.
E ainda existe uma diferença entre o token e a ação
Há outra separação importante no modelo atual da Robinhood.
Apesar de serem chamados de Stock Tokens e terem lastro 1:1 nos respectivos ativos, eles não são juridicamente as ações subjacentes.
A Robinhood informa que os tokens são títulos de dívida emitidos pela Robinhood Assets (Jersey) Limited. Eles oferecem exposição econômica aos ativos correspondentes, mas seus detentores não possuem direitos legais ou beneficiários contra as empresas que emitiram as ações subjacentes.
Essa distinção ajuda a explicar por que a próxima etapa da tokenização não é apenas tecnológica.
A SEC abriu em setembro uma nova possibilidade para negociação on-chain de ações tokenizadas nos Estados Unidos por meio de uma isenção temporária de cinco anos. Mas estabeleceu condições: os tokens abrangidos precisam conferir os mesmos direitos e privilégios das ações tradicionais equivalentes, além de existirem limites sobre quantidade de ativos e volume negociado.
Johann Kerbrat, responsável pelas operações de cripto e internacionais da Robinhood, afirmou nesta semana que a empresa ainda está analisando o novo regime e que o volume de seus Stock Tokens fora dos Estados Unidos já seria suficiente para atingir alguns dos limites previstos pela SEC.
A Robinhood, portanto, enfrenta outra fronteira.
Não basta fazer o token circular e construir liquidez ao redor dele. Para levar a estrutura ao mercado americano dentro desse regime, também será necessário encaixá-la nas regras que determinam quando um token pode funcionar efetivamente como uma ação.
Wall Street pode mudar de forma sem desaparecer
A tokenização costuma ser apresentada como uma maneira de eliminar camadas do mercado financeiro.
Em alguns casos, ela pode fazer exatamente isso.
Mas a experiência da Robinhood mostra que determinadas funções existem por uma razão econômica, não apenas porque a tecnologia antiga exigia intermediários.
Alguém ainda precisa fornecer liquidez, alguém ainda precisa formar preços, uma ordem ainda precisa encontrar uma contraparte e regras ainda precisam determinar quais direitos o investidor possui sobre aquilo que está negociando.
Blockchain pode alterar profundamente a maneira como essas funções são executadas. Uma carteira pode acessar vários ambientes de negociação, market makers podem responder a pedidos de cotação on-chain e ativos podem continuar circulando quando bolsas tradicionais estão fechadas.
Mas transformar uma ação em token não faz essas necessidades desaparecerem.
A Robinhood já construiu a representação digital. Agora está expandindo as rotas que permitem que essa representação encontre compradores e vendedores.
É uma etapa menos chamativa do que colocar ações na blockchain, mas talvez seja a mais importante para determinar se esses ativos conseguem se tornar um mercado de verdade.
Tokenizar uma ação cria o ativo digital. Construir tudo o que permite negociá-lo continua sendo outro trabalho.









