A ARK Invest colocou na Ethereum um fundo que dá aos investidores exposição a algumas das empresas privadas mais disputadas do mercado de tecnologia.

OpenAI, Anthropic, Stripe e Databricks estão entre as companhias presentes no ARK Venture Fund, um fundo administrado ativamente que combina investimentos em empresas privadas e públicas ligadas às principais teses de inovação da gestora.

Agora, investidores elegíveis poderão acessar uma versão tokenizada do ARKVX por meio da Securitize, que fornece a infraestrutura de emissão e a experiência on-chain. O lançamento transforma a participação no fundo em um ativo registrado em blockchain e amplia as formas pelas quais o produto pode ser distribuído e administrado.

Mas existe algo que a tokenização não mudou.

O ARK Venture Fund continua sendo um fundo fechado de intervalo com liquidez limitada. Suas cotas não são negociadas em bolsa, a própria ARK afirma que não espera o desenvolvimento de um mercado secundário e os investidores continuam dependendo principalmente das janelas periódicas de recompra para sair da posição.

A diferença expõe uma distinção importante para o mercado de ativos tokenizados.

Colocar um investimento na blockchain pode torná-lo digital e potencialmente mais transferível. Isso não significa automaticamente torná-lo líquido.

Transferibilidade e liquidez são problemas diferentes

Blockchain resolve muito bem uma parte específica da infraestrutura financeira: registrar propriedade e permitir que ativos digitais sejam movimentados entre participantes autorizados segundo determinadas regras.

Liquidez depende de outra coisa.

Para um investidor conseguir vender um ativo quando deseja, é preciso existir uma contraparte disposta a comprá-lo por um preço aceitável. Também é necessário haver infraestrutura de negociação, formação de preços e profundidade suficiente para que uma venda não dependa apenas de uma janela determinada pelo próprio emissor.

A tokenização não produz esses elementos automaticamente.

Isso fica particularmente claro no ARK Venture Fund.

O fundo oferece liquidez trimestral e informa que até aproximadamente 5% das cotas em circulação podem ser recompradas a cada trimestre. Se os pedidos superarem o limite da oferta, não há garantia de que todos os investidores conseguirão vender tudo o que solicitaram.

A própria ARK é explícita ao afirmar que o investidor não deve esperar conseguir vender suas cotas fora da política de recompra do fundo.

A existência de um token não elimina essa restrição.

Ela muda a infraestrutura através da qual a participação pode ser representada, mas não altera automaticamente a estrutura econômica que determina quando e como o capital pode sair.

O problema começa nos ativos que estão dentro do fundo

Existe uma razão para essa limitação.

O ARK Venture Fund foi construído justamente para manter exposição significativa a empresas privadas.

Esses ativos não possuem a mesma liquidez de ações negociadas diariamente em bolsas. Participações em empresas privadas podem ter restrições de transferência, preços determinados em rodadas espaçadas e poucos compradores disponíveis.

A ARK reconhece esse risco nos próprios documentos do fundo, destacando tanto a incerteza de avaliação quanto a liquidez restrita dos investimentos em empresas privadas.

Tokenizar a participação no fundo não muda a natureza desses ativos.

OpenAI não passa a ter ações negociadas continuamente porque um fundo que possui exposição à empresa ganhou uma representação na Ethereum. O mesmo vale para Anthropic, Stripe ou Databricks.

A blockchain está sendo adicionada acima dessa estrutura.

O investidor possui uma representação digital de sua participação no fundo. Mas o fundo continua possuindo ativos cujo mercado funciona segundo regras muito diferentes das de uma ação listada.

Isso estabelece um limite importante para aquilo que a tecnologia consegue transformar.

A infraestrutura do investimento pode se tornar mais digital sem que os ativos que determinam sua liquidez sofram a mesma transformação.

O token pode melhorar o produto sem resolver sua saída

Nada disso torna a tokenização irrelevante.

A Securitize fornece uma infraestrutura regulada pela qual investidores elegíveis podem acessar o ARKVX, enquanto a Ethereum passa a funcionar como camada para sua emissão e administração on-chain.

Isso pode reduzir fricções operacionais, melhorar registros de propriedade e permitir novas formas de distribuição e integração com infraestrutura digital.

É uma transformação real.

Mas ela acontece em uma camada diferente daquela em que a liquidez é criada.

Essa distinção é particularmente importante porque três conceitos costumam aparecer juntos quando o mercado fala de tokenização:

digitalização, transferibilidade e liquidez.

Eles não são sinônimos.

Um ativo pode ser digital sem ser livremente transferível. Pode ser transferível sem possuir um mercado profundo. E pode ter compradores e vendedores sem necessariamente possuir liquidez suficiente para absorver grandes negociações sem impacto relevante no preço.

Blockchain pode melhorar os dois primeiros componentes.

O terceiro continua dependendo de mercado.

Mercados privados deixam essa diferença ainda mais evidente

A tokenização vem sendo apresentada como uma maneira de ampliar o acesso a mercados que historicamente tiveram barreiras elevadas.

O ARK Venture Fund já fazia parte desse movimento antes mesmo de chegar à Ethereum.

A estrutura permite que investidores não credenciados tenham exposição a empresas privadas e possui investimento mínimo relativamente baixo em comparação com fundos tradicionais de venture capital. A própria ARK apresenta o produto como uma tentativa de democratizar o acesso a essa classe de ativos.

A tokenização adiciona uma nova camada de distribuição a essa proposta.

Mas democratizar acesso e democratizar liquidez são objetivos diferentes.

É possível permitir que mais investidores comprem exposição a ativos privados sem criar um mercado em que todos possam vendê-la a qualquer momento.

Na verdade, existe uma tensão estrutural aí.

Fundos de venture capital investem em ativos de longo prazo justamente porque empresas privadas podem precisar de anos antes de uma aquisição, IPO ou outro evento de liquidez. Oferecer liquidez diária aos investidores enquanto o patrimônio do fundo permanece ilíquido cria um descasamento que nenhuma blockchain consegue simplesmente apagar.

É por isso que o ARKVX mantém suas janelas de recompra mesmo depois da tokenização.

A tecnologia mudou.

A estrutura econômica continua impondo seus limites.

Blockchain pode modernizar mercados sem mudar a natureza dos ativos

O ARK Venture Fund é um bom exemplo do que a tokenização já consegue fazer — e também daquilo que ainda não consegue.

Um fundo que reúne participações em empresas privadas e públicas pode ganhar representação on-chain. Sua distribuição pode utilizar infraestrutura blockchain. Registros e processos que antes dependiam exclusivamente de sistemas tradicionais podem migrar para novos trilhos.

Nada disso exige que os ativos dentro do fundo se tornem líquidos.

Essa distinção tende a ganhar importância conforme fundos de private equity, crédito privado, imóveis e outros ativos menos líquidos começam a aparecer em blockchain.

O token pode circular de maneira diferente do instrumento tradicional.

Mas alguém ainda precisa estar disposto a comprá-lo.

A tokenização pode reduzir a distância tecnológica entre um ativo privado e um mercado digital. Ela não elimina a distância econômica entre existir um ativo e existir um mercado para ele.

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Rodrigo Reis
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