
Os ativos tokenizados ultrapassaram US$ 34 bilhões, mas o crescimento do mercado não acontece de forma igual entre as diferentes classes. Dados da Dune mostram que ações, crédito, commodities e produtos equivalentes a dinheiro estão sendo usados de maneiras bastante distintas depois de migrar para o blockchain.
No estudo “After Issuance: Reading the Onchain RWA Market”, a Dune calculou US$ 33,9 bilhões em ativos nas quatro principais categorias acompanhadas até 31 de agosto, alta de mais de 140% em um ano. Em uma divulgação complementar, a empresa apontou um valor total de US$ 34,5 bilhões.
O levantamento analisou mais de 2.600 produtos de mais de 250 emissores e plataformas, distribuídos por 21 blockchains. A Dune considerou dados de oferta, número de detentores, negociação, empréstimos e preços.
Entre as categorias analisadas, produtos equivalentes a dinheiro representavam quase metade do mercado em valor. As ações, porém, concentravam a maior parte das negociações no mercado secundário.
Ativos tokenizados de ações ganham força entre empresas individuais
Um dos contrastes mais claros apareceu no mercado de ações. Segundo a Dune, papéis de empresas individuais representavam 81% das posições em ações tokenizadas nos mercados à vista, enquanto fundos e ETFs respondiam pelos 19% restantes.
O valor dessas posições em ações individuais cresceu nove vezes em relação ao ano anterior.
A diferença também aparece quando o volume de negociação entra na conta. Embora as ações representassem uma parcela pequena da oferta total de ativos acompanhados pela Dune, elas responderam por 93% do volume spot em agosto.
O volume de ações tokenizadas no mercado à vista chegou a US$ 12,6 bilhões. Nos contratos perpétuos, as ações geraram outros US$ 72,4 bilhões em volume.
A atividade também teve forte presença asiática. Empresas da Ásia representavam 24% do open interest em contratos perpétuos de ações, enquanto companhias de memória tiveram participação especialmente elevada nas negociações.
Essas empresas responderam por 47% do volume de contratos perpétuos de ações em agosto. Em julho, um contrato ligado à SK Hynix chegou a uma taxa de financiamento anualizada de 308%, em meio à forte demanda por posições compradas.
A diferença de comportamento chamou a atenção de Frederik Haga, CEO da Dune. Em declaração à Fortune, ele afirmou: “The way the market is wired is completely different.”
Dinheiro tokenizado permanece parado enquanto crédito ganha outra função
Os produtos equivalentes a dinheiro continuam muito maiores que as ações em valor. A Dune calculou US$ 17,8 bilhões nessa categoria, com mais de 95% da exposição concentrada em fundos de mercado monetário e títulos do Tesouro.
Apesar do tamanho, esses produtos quase não circularam no mercado secundário. Apenas 0,006% da oferta de ativos equivalentes a dinheiro foi negociada em agosto.
O crédito apresentou um comportamento diferente. Entre 19% e 21% do crédito tokenizado havia sido depositado em protocolos de empréstimo como garantia, enquanto a proporção para equivalentes a dinheiro era de apenas 0,4%.
A Dune já havia identificado essa diferença em uma análise anterior. Em maio, a empresa estimou US$ 27,5 bilhões em ativos do mundo real tokenizados, mas somente US$ 1,7 bilhão estava sendo usado em atividades de DeFi, como garantias, empréstimos ou outras aplicações.
Isso ajuda a separar duas formas diferentes de uso. Um ativo pode ser comprado para permanecer na carteira e gerar rendimento, sem necessariamente circular em protocolos de finanças descentralizadas.
Ativos tokenizados de ações ainda representam uma fração do mercado tradicional
Um retrato posterior da Binance Research, baseado em dados de 15 de setembro, colocou o mercado de ativos do mundo real monitorado em US$ 34,18 bilhões, após crescimento de 85,2% em 2026.
Títulos e fundos de mercado monetário representavam US$ 18,29 bilhões, enquanto as ações tokenizadas chegavam a US$ 4,43 bilhões.
O avanço das ações foi expressivo. O segmento havia crescido 390,4% no ano e representava 13% dos ativos de RWA acompanhados pela Binance Research.
Mesmo assim, os US$ 4,43 bilhões em ações tokenizadas equivaliam a apenas 0,0029% do mercado de ações listadas usado como referência no estudo, estimado em US$ 151,9 trilhões.
A Binance Research também calculou que cerca de 12% do capital tokenizado monitorado estava efetivamente empregado em empréstimos, pools de liquidez, mercados de garantias ou outras aplicações onchain.
Nas ações, a utilização cresceu mais rapidamente. A chamada Capital Activation Rate, que mede quanto do valor tokenizado estava efetivamente empregado, chegou a 7,54% em 15 de setembro, ante 1,95% no início de 2026.
Dentro desse capital utilizado, os pools de liquidez concentravam 65,4%, enquanto os empréstimos representavam outros 28,1%.
Reguladores começam a abrir espaço para ações tokenizadas
Nos Estados Unidos, parte dessa atividade também começa a ganhar um caminho regulatório mais definido.
Em 17 de setembro, a Securities and Exchange Commission anunciou uma isenção condicional de cinco anos para permitir que determinadas plataformas de negociação de valores mobiliários tokenizados negociem ações do National Market System por meio de automated market makers e pools de liquidez autorizados.
A regra tem limites claros. Os tokens elegíveis precisam dar aos detentores os mesmos direitos de participação em dividendos, votação e liquidação das ações tradicionais que representam.
Produtos sintéticos que oferecem apenas exposição ao preço ficaram fora desse enquadramento. A estrutura também estabelece condições para terceiros que tokenizam ações e, em determinadas situações, exige notificação ao emissor original antes da listagem.
O caminho criado pela SEC não representa uma aprovação geral para os produtos de ações tokenizadas já existentes. A medida é temporária, tem condições específicas e ainda está sujeita a comentários públicos enquanto o regulador avalia regras mais permanentes.
As próprias bolsas tradicionais também começam a testar esse mercado.
Em 23 de setembro, a Blockchain.com anunciou um acordo com a NYSE Group para explorar a negociação 24 horas por dia de ações e ETFs listados nos Estados Unidos por meio da infraestrutura digital planejada pela NYSE.
O projeto ainda depende de aprovação regulatória e não tem data pública confirmada para lançamento. A proposta prevê negociação contínua, ações fracionárias e liquidação baseada em blockchain, mas as empresas ainda não informaram quais ativos seriam disponibilizados primeiro ou em quais jurisdições o acesso começaria.








