
A França registrou 90 casos de sequestro, extorsão, ameaças e roubos violentos relacionados a criptomoedas entre 1º de janeiro e meados de agosto de 2026. Os números, fornecidos pelo Ministério do Interior francês, colocam o país no centro de uma onda de crimes físicos contra investidores do setor.
No mesmo período, as autoridades contabilizaram 223 prisões. Entre janeiro e julho, 126 pessoas foram encarceradas. A média equivale a um novo caso relacionado a criptomoedas a cada dois dias e meio.
Os dados oficiais, porém, não permitem determinar se a violência aumentou em relação ao ano anterior. Segundo o ministério, o registro desse tipo de ocorrência começou apenas em 1º de janeiro de 2026.
A Chainalysis contabilizou 30 casos violentos conhecidos publicamente no país até meados de 2026, enquanto a empresa de segurança Gart.io registrou 73 ataques no ano, contra 66 nos Estados Unidos e 27 no Reino Unido.
Como os ataques a investidores de criptomoedas se espalham na França
Conhecidos como wrench attacks, esses crimes envolvem violência ou ameaças físicas para obrigar vítimas a entregar criptomoedas, revelar frases-semente ou realizar transferências.
O problema não está restrito a Paris. Segundo a Chainalysis, os casos também foram registrados em cidades como Estrasburgo, Marselha, Grenoble, Toulouse e Nantes. Além disso, entre as vítimas cuja residência era conhecida, 93% eram francesas, contrariando a ideia de que os criminosos estariam mirando principalmente turistas estrangeiros com patrimônio em criptoativos.
Para Eric Jardine, pesquisador-chefe da Chainalysis, uma violação significativa de dados é uma explicação provável para a concentração de casos no país.
“These sort of breaches expose more than financial information; they reveal who holds crypto, where they live, and how to find them.”
Um dos possíveis fatores é o comprometimento de dados da autoridade tributária francesa em 2024, que teria exposto informações pessoais, financeiras e sobre a posse de criptomoedas de contribuintes. Os registros da Chainalysis mostram que os ataques cresceram a partir do fim de novembro daquele ano.
Em janeiro de 2026, outro incidente ampliou as preocupações. A Waltio, empresa francesa de declaração tributária de criptomoedas, informou uma violação que afetou cerca de 50 mil usuários.
Informações desse tipo podem facilitar a identificação de pessoas com ativos digitais, seus endereços e seus vínculos pessoais. Em vez de depender de uma vítima revelar espontaneamente que possui criptomoedas, os criminosos podem usar dados vazados para escolher alvos antes mesmo de iniciar uma abordagem.
O debate também envolve as regras europeias de compartilhamento de informações fiscais sobre criptoativos, conhecidas como DAC8. Francis Pouliot, fundador da corretora canadense Bull Bitcoin, critica as exigências de comunicação de dados e declarou que a regulamentação transformou o conceito de conhecer o cliente em uma ameaça à sua segurança:
“DAC8 has transformed the concept of Know Your Customer into Kill Your Customer,”
Familiares também viraram alvo de ataques ligados a criptomoedas
O risco não se limita a quem controla diretamente uma carteira digital. Segundo a Chainalysis, familiares e conhecidos representavam entre 25% e 30% dos incidentes violentos com motivação cripto no mundo no início de 2026. Na França, essa proporção ultrapassava 40%.
Em maio de 2026, seis homens teriam tentado sequestrar a esposa de Sébastien Borget, cofundador do projeto The Sandbox, na residência do casal em Villenoy. Um dos suspeitos teria se passado por entregador para fazê-la abrir o portão.
Em agosto, um casal que vivia em uma área rural francesa relatou três tentativas de invasão da própria casa. O imóvel havia sido comprado de antigos moradores milionários em criptomoedas, cujos dados fiscais e endereço teriam sido expostos na dark web.
O padrão também apareceu em 2025, quando o pai de um empreendedor do setor cripto foi sequestrado em Paris e mantido em cativeiro por dois dias. Segundo os relatos, os criminosos cortaram parte de um de seus dedos e enviaram o fragmento ao filho enquanto exigiam US$ 5,6 milhões em criptomoedas.
Para Jardine, a participação de parentes e pessoas próximas sugere que os criminosos realizam um trabalho prévio de investigação, recorrendo a redes sociais, dados públicos de blockchain, informações vazadas ou dicas de pessoas com acesso privilegiado.
As autoridades francesas passaram a tratar esses casos como crimes organizados, coordenando investigações por meio da JUNALCO, jurisdição especializada no combate ao crime organizado.
A segurança de carteiras, o uso de dispositivos físicos e a proteção de frases-semente continuam importantes, mas não resolvem sozinhos o risco de violência. Quando criminosos conseguem associar a identidade de uma pessoa à posse de criptoativos e ao seu endereço residencial, a exposição pode ultrapassar os limites da segurança digital.









