O mercado financeiro global sempre teve estratégias extremamente lucrativas restritas aos grandes players institucionais. Agora, o avanço das stablecoins de real está mudando essa dinâmica, permitindo que o capital digital acesse o tradicional “carry trade” brasileiro de forma desimpedida.
Historicamente, fundos macro de Wall Street aproveitam as taxas de juros do Brasil, atualmente em 14,5% ao ano, uma das maiores entre as grandes economias. Segundo uma análise da gestora Atlântico, US$ 100 aplicados na taxa básica brasileira em 2010 viraram US$ 124 em 2025 (ajustados pelo dólar), superando os US$ 122 dos títulos do Tesouro americano.
John Delaney, CEO da Crown, explicou essa vantagem histórica das stablecoins de real em entrevista recente: “A person who held dollars ten years ago and traded all their dollars for Brazilian reais, and then kept those reais – earning only the risk-free interest rate – would actually have more dollar value at the end of that period than somebody who just held dollars the whole time”.
Dados do Ministério da Fazenda de abril de 2026 apontam que investidores estrangeiros possuem cerca de R$ 879 bilhões (aproximadamente US$ 155 bilhões) em títulos públicos federais. Esse montante representa 10% da dívida pública interna do país, concentrada majoritariamente em papéis prefixados.
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O impacto tecnológico das stablecoins de real no mercado de títulos
Apesar dos retornos atraentes, a burocracia excessiva das stablecoins de real e a necessidade de contas especiais para não residentes afastavam o investidor comum. Para mitigar esse problema, redes de liquidez como a Checker conectam bancos e fintechs à liquidez global de stablecoins, tendo movimentado mais de US$ 3 bilhões em seu primeiro ano de operação.
A Crown lidera a outra ponta dessa transformação com o BRLV, uma das novas stablecoins de real lastreada integralmente em títulos públicos brasileiros. A fintech captoou US$ 13,5 milhões em uma rodada Series A liderada pela Paradigm e repassa os rendimentos dos títulos diretamente aos parceiros institucionais.
Para Delaney, os juros são metade do valor de uma moeda que sofre depreciação cambial. Ele destaca que a tecnologia blockchain une essas duas partes de forma inédita: “It’s almost like the interest rate is half of the money. You have the actual fiat currency that depreciates, but then you have this interest rate. When you couple them together, that makes the money better”.
David Taylor, CEO da Etherfuse, compartilha dessa visão sobre a eficiência da tokenização de dívidas soberanas: “The blockchain quite literally makes sovereign debt better than it can be in the traditional space”. O projeto da Crown já atrai nomes de peso, como a Atmos Capital, o family office Citrino Gestão e o renomado economista André Lara Resende.
O cenário regulatório atual impulsiona o uso de stablecoins de real. O marco regulatório de Provedores de Serviços de Ativos Virtuais (VASPs) no Brasil entra totalmente em vigor no quarto trimestre de 2026, enquanto nos Estados Unidos a Lei GENIUS abriu as portas para que instituições tradicionais operem nesse ecossistema.
Com a meta de alcançar R$ 1 trilhão em circulação em dez anos, a Crown projeta o BRLV como uma referência de mercado similar ao que Tether e Circle representam para os títulos americanos. O objetivo final é claro, como resume Delaney: “The net effect is that Brazil will be able to export its interest rate a lot more”.
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