
A segurança da Coinbase ganhou destaque após o ataque que provocou um roubo de US$ 6,3 bilhões na Binance. A coretora americana afirma manter mais de 99% dos criptoativos de seus clientes em armazenamento offline, conhecido como cold storage, para reduzir a exposição a ataques pela internet.
A empresa tinha US$ 377 bilhões em ativos de clientes em sua plataforma no fim de setembro. Segundo a Coinbase, esses recursos pertencem aos usuários, não à coretora, que afirma não emprestar nem utilizar os fundos sem autorização.
Em sua declaração, a companhia foi direta: “Coinbase does not lend or use those assets unless customers instruct us to.”
O volume também chama atenção pelo peso da empresa no mercado institucional. Segundo uma pesquisa citada na reportagem, a Coinbase mantém sob custódia 84% dos ativos dos ETFs de bitcoin à vista dos Estados Unidos.
Como a Coinbase protege os fundos dos clientes
Um dos mecanismos de proteção é a separação contábil entre os recursos dos clientes e o patrimônio da própria empresa. Em seu último balanço trimestral, a Coinbase informou US$ 8,6 bilhões em caixa e US$ 2,2 bilhões em criptoativos próprios, registrados separadamente dos US$ 377 bilhões mantidos para clientes.
A estrutura também envolve exigências regulatórias. Sua unidade americana de custódia opera em Nova York como custodiante qualificada (qualified custodian) e fiduciária, com obrigação legal de priorizar os interesses dos clientes. Na Europa, a operação é supervisionada pela autoridade financeira de Luxemburgo sob as regras do regulamento MiCA.
A coretora também afirma ter sido uma das primeiras empresas de custódia cripto a passar por auditorias SOC 1 e SOC 2 Tipo II, avaliações externas que verificam se os controles internos de segurança funcionam como deveriam.
Outro componente é a própria equipe de segurança. O responsável pela área, Jeff Lunglhofer, trabalhou anteriormente com segurança da informação no BNY. Sua equipe reúne especialistas em criptografia, investigação, mercado financeiro, segurança nacional e forças policiais.
O ataque à Binance expôs um risco além das chaves privadas
O caso da Binance ajuda a explicar por que manter criptomoedas offline não é suficiente para eliminar todos os riscos de segurança.
Segundo a coretora, o ataque começou com uma falsa entrevista de emprego. Os invasores conseguiram acessar computadores de funcionários e, em 29 de outubro, enviaram solicitações fraudulentas de saque.
Uma reportagem do BeInCrypto, publicada em 1º de novembro, identificou um padrão semelhante nos ataques envolvendo Binance, Bybit e Bitget. Em vez de roubar diretamente as chaves privadas, os criminosos manipularam os sistemas responsáveis por aprovar e assinar as retiradas de fundos.
A Coinbase utiliza uma tecnologia chamada multi-party computation (MPC), que divide os componentes de uma chave privada entre diferentes máquinas. Assim, nenhum equipamento individual concentra sozinho todas as informações necessárias para autorizar uma operação.
A empresa também desenvolve internamente seus próprios sistemas de segurança, ao contrário de algumas soluções terceirizadas envolvidas nos incidentes da Bybit e da Bitget. Pesquisadores argumentam que, caso um computador da Coinbase fosse comprometido, o invasor teria acesso apenas a uma parte inutilizável da chave.
Isso não significa que a coretora esteja livre de incidentes. Em 2025, criminosos subornaram funcionários terceirizados de suporte no exterior para obter dados de clientes. A Coinbase estimou que o episódio poderia custar até US$ 400 milhões.
A empresa também chamou atenção para a inteligência artificial (IA), que estaria modificando as técnicas utilizadas por invasores.
Mais segurança offline pode significar saques mais lentos
A discussão não está restrita às grandes coretoras americanas. Na Coreia do Sul, a Comissão de Serviços Financeiros pediu que as plataformas mantenham offline uma parcela superior ao mínimo legal de 80% de seus ativos.
O Upbit, uma das principais coretoras do país, já mantinha 99,17% dos fundos nesse formato, segundo o Herald Business.
Mas aumentar a proporção de ativos em cold storage também traz desafios operacionais. Como as carteiras offline não permitem movimentações imediatas pela internet, a transferência de fundos para carteiras conectadas pode acrescentar etapas e tempo ao processamento dos saques.
Em agosto, retiradas na Bithumb ficaram paralisadas por mais de 13 horas depois que sua carteira online ficou sem saldo disponível, segundo o Seoul Shinmun.
O custo também preocupa o setor. Coretora sul-coreanas alertaram que manter equipes adicionais de segurança pode elevar significativamente as despesas operacionais. Plataformas menores talvez não tenham recursos para acompanhar essas exigências, segundo o Newsway.
O caso evidencia uma questão importante para o mercado: proteger os criptoativos exige mais do que manter chaves privadas longe da internet.
A segurança da Coinbase, assim como a de outras coretoras, depende também de controles de acesso, aprovação de transações, gestão de funcionários e capacidade de responder a ataques sem comprometer a operação dos usuários.








