
A B3 pretende ampliar sua atuação no mercado de criptomoedas com uma licença do Banco Central e iniciar o lançamento de ações tokenizadas no começo de 2027. O projeto prevê levar representações digitais de papéis já negociados na bolsa para uma nova infraestrutura, mantendo a integração com o mercado tradicional.
Humberto Costa, diretor de Produtos de Balcão e Ativos Digitais da B3, afirmou nesta quinta-feira (8), durante um evento na FGV, em São Paulo, que a companhia pretende protocolar o pedido de autorização antes de 30 de outubro. A intenção é obter uma licença abrangente, que permita atividades como intermediação e custódia de criptoativos.
A iniciativa acompanha a implementação das novas regras do Banco Central para prestadores de serviços de ativos virtuais. Com a regulamentação, instituições supervisionadas pela autoridade monetária terão restrições para viabilizar determinadas operações com empresas do setor que não estejam autorizadas ou em processo de autorização.
A B3 já oferece soluções de crypto as a service para participantes do mercado. A nova licença deve adequar essas atividades às exigências regulatórias e abrir espaço para a expansão dos negócios com ativos digitais, incluindo projetos de tokenização e soluções envolvendo stablecoins.
B3 prepara ações tokenizadas para 2027
A primeira etapa do projeto prevê criar representações digitais de ações brasileiras que já existem no mercado tradicional. Em vez de lançar ações originalmente emitidas em blockchain, a B3 pretende começar com versões tokenizadas de ativos já negociados na bolsa.
A proposta é que a ação tradicional e sua representação digital sejam fungíveis, correspondam economicamente ao mesmo ativo e compartilhem liquidez e formação de preços. A lista de papéis que poderá integrar a primeira fase ainda está em discussão com participantes do mercado.
A estratégia também poderá alcançar outros produtos de renda variável, como BDRs, em etapas posteriores.
Na prática, tokenizar uma ação significa criar uma representação digital do ativo em uma blockchain ou em outra tecnologia de registro distribuído. Essa estrutura pode permitir a integração de processos como transferência, custódia, negociação e liquidação.
O lançamento, porém, não significa que a bolsa passará imediatamente a operar sem interrupções. A B3 trabalha com a perspectiva de aproximar o mercado tradicional da dinâmica dos criptoativos, com negociação contínua e liquidação mais rápida, mas esse avanço depende de mudanças regulatórias e operacionais.
Atualmente, as ações brasileiras seguem o ciclo de liquidação D+2, no qual a transferência definitiva dos ativos e do dinheiro ocorre dois dias úteis após a negociação. Segundo Costa, reduzir esse prazo exige uma série de evoluções regulatórias.
A companhia também avalia como preservar a integração com o mercado tradicional, inclusive o compartilhamento de liquidez, em vez de criar um ambiente totalmente separado.
O que falta para as ações tokenizadas funcionarem 24 horas por dia?
Um dos principais desafios é conectar uma infraestrutura digital capaz de operar continuamente a estruturas financeiras que ainda dependem de horários comerciais e dias úteis.
“Como é que você conecta isso com tesourarias que trabalham só em dia útil, com a tecnologia que vai vir em 24×7, que vai vir em outra dinâmica?”, questionou Costa durante o evento.
A liquidação é parte central dessa discussão. A B3 já possui uma stablecoin atrelada ao real, a B3RL, mas o executivo afirmou que ela não será utilizada para liquidar as primeiras ações tokenizadas.
Entre as alternativas em discussão estão stablecoins, depósitos tokenizados e uma possível integração com o Drex. O modelo definitivo ainda não foi escolhido.
O tema também envolve a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), responsável por conduzir seu piloto de tokenização, e o Banco Central, cuja participação deverá ganhar importância conforme os projetos precisem se conectar à infraestrutura financeira tradicional.
Nos testes da CVM, a moeda utilizada para liquidar as operações foi deixada de lado inicialmente, permitindo concentrar os trabalhos nos temas diretamente ligados à competência da autarquia.
Além dos mecanismos de pagamento, a B3 terá de considerar questões de interoperabilidade, supervisão e segurança. Costa destacou a importância de conseguir identificar e interromper comportamentos irregulares rapidamente em uma infraestrutura digital.
“Tem coisa que você consegue evitar, tem coisa que você consegue interromper. Mas o interromper tem que ser rápido, tem que ser no dia seguinte, dois dias, não dois anos”, afirmou.
O executivo também apontou que consumidores acostumados a serviços digitais disponíveis a qualquer hora tendem a pressionar por mudanças no funcionamento do mercado financeiro. “Essa nova geração já não consegue mais entender por que não consegue comprar um ativo 10 da noite, por que não consegue resgatar no sábado para poder usar o dinheiro no mesmo dia”, disse.
A B3 já vinha preparando sua infraestrutura para ampliar os casos de uso de ativos tokenizados a partir do início de 2027, incluindo a movimentação de garantias em tempo real.
O lançamento das ações tokenizadas será uma etapa dessa transformação. A possibilidade de negociar ativos ininterruptamente e liquidar operações de forma instantânea, no entanto, dependerá da evolução das regras e da integração entre os sistemas do mercado de capitais e do sistema financeiro.







