
Uma falha em um contrato ligado ao protocolo Ekubo permitiu que um invasor retirasse aproximadamente US$ 1,42 milhão de 31 endereços de criptomoedas. O ataque explorou autorizações de tokens concedidas anteriormente pelos usuários e que continuavam válidas meses depois das transações originais.
A primeira retirada ocorreu em 5 de maio de 2026, às 17h50 UTC. Segundo o relatório da Ekubo, uma única carteira concentrou cerca de 98% das perdas, com o roubo de aproximadamente 17 WBTC, avaliados em quase US$ 1,37 milhão, além de 0,34 cbBTC.
O caso expõe um risco pouco evidente para quem negocia ativos em aplicações descentralizadas: aprovar uma operação pode dar a um contrato permissão para movimentar tokens mesmo depois que o usuário deixa de acessar a plataforma.
Como autorizações de tokens podem expor carteiras a ataques
Ao trocar criptomoedas em uma aplicação descentralizada, o usuário geralmente precisa autorizar um contrato inteligente a movimentar determinada quantidade de tokens em seu nome. Pelo padrão ERC-20, essa permissão pode ser utilizada várias vezes, até o limite autorizado.
O problema é que essas autorizações não têm prazo de validade automático. A permissão permanece registrada no contrato do token, na blockchain, até que seja revogada. Fechar o site ou desconectar a carteira não elimina o acesso concedido anteriormente.
O risco aumenta quando a aplicação solicita acesso ilimitado aos tokens. Essa prática evita que o usuário precise aprovar novamente cada operação, mas também pode deixar quantias maiores expostas caso o contrato apresente uma vulnerabilidade.
Foi esse tipo de permissão persistente que entrou em jogo no ataque à Ekubo. O alvo foi o HuffRouter, um roteador desenvolvido para otimizar as taxas de negociação e implantado na Ethereum e na Arbitrum.
Segundo o relatório do protocolo, uma falha no processamento de dados permitia acrescentar informações arbitrárias ao final de um caminho de troca válido. O contrato interpretava esses dados adicionais como informações definidas pelo próprio roteador durante a liquidação da operação.
Na prática, o invasor conseguia indicar qualquer usuário como responsável pelo pagamento de uma troca. Assim, carteiras que haviam autorizado o HuffRouter a movimentar seus tokens podiam ser atingidas sem que seus proprietários precisassem conceder uma nova permissão naquele momento.
A equipe informou que o incidente não afetou os provedores de liquidez nem a versão do protocolo na Starknet.
A Ekubo também reconheceu que o contrato não havia passado por uma auditoria de segurança. Na avaliação inicial da equipe, o risco era baixo porque as autorizações poderiam ser limitadas e as operações realizadas pela interface deveriam ser pequenas e pouco frequentes.
Os roteadores atingidos não podem mais ser modificados e, segundo o relatório, continuam vulneráveis. Em 23 de junho, a Ekubo disponibilizou um fundo de reembolso com limite por endereço, financiado voluntariamente por sua DAO.
Ataques com autorizações ilimitadas não são novidade
Outros protocolos também sofreram perdas associadas a permissões que permaneceram ativas. Em seu relatório anual, a Revoke.cash contabilizou nove ataques desse tipo em 2025, com prejuízos superiores a US$ 6 milhões. Em 2024, as perdas chegaram a US$ 80 milhões.
Em julho de 2024, uma vulnerabilidade na plataforma LI.FI levou ao roubo de cerca de US$ 11,6 milhões de 153 carteiras. Segundo o relatório do projeto, o problema afetou apenas autorizações ilimitadas. No mesmo ano, uma falha semelhante na Socket atingiu aproximadamente 200 usuários.
Em janeiro de 2026, 18 usuários perderam US$ 13,43 milhões por meio de contratos da SwapNet. De acordo com a análise posterior publicada pela Matcha Meta, as vítimas haviam desativado a opção de autorização de uso único, oferecida por padrão. A plataforma também observou que permitir a movimentação de uma quantidade específica ainda não utilizada pode deixar fundos expostos.
Para reduzir esse risco, os usuários podem limitar o valor autorizado sempre que a carteira ou a aplicação oferecer essa opção. Também é possível revisar e revogar permissões antigas com ferramentas como Revoke.cash e o verificador de autorizações da Etherscan. A revogação pode envolver taxas de rede.
Algumas aplicações adotam mecanismos de duração limitada. A interface da Uniswap, por exemplo, utiliza o Permit2 para conceder autorizações de 30 dias. Entretanto, o próprio contrato Permit2 também precisa receber uma autorização inicial, que não expira automaticamente.
Uma proposta chamada ERC-8255, apresentada por Moody Salem, fundador da Ekubo, em 6 de maio de 2026, pretende estabelecer prazos máximos para autorizações comuns e permitir permissões mais curtas, inclusive limitadas a um único bloco. Em 18 de outubro, o texto ainda era apenas uma proposta, sem implementação referenciada.
Até que mecanismos desse tipo sejam adotados, autorizações antigas continuam exigindo atenção. No caso dos roteadores da Ekubo atingidos pelo ataque, as permissões ilimitadas só deixam de valer quando os próprios usuários as revogam.








