O Bitcoin pode chegar a zero? Uma queda de 20% ou 50% no preço já pode provocar perdas relevantes, mas um colapso total seria outra coisa: significaria que o mercado deixou de atribuir valor econômico ao ativo.

O criptoativo foi projetado para funcionar sem uma autoridade central, mas isso não significa que esteja imune a um colapso econômico. O que aconteceria depois? As moedas desapareceriam? A blockchain pararia? E quem mantém BTC em uma carteira própria perderia tudo?

A resposta exige separar duas coisas que costumam ser tratadas como se fossem uma só: o Bitcoin como ativo negociado e a rede que registra suas transações.

O preço pode entrar em colapso sem que o protocolo seja desligado automaticamente, isso não significa, porém, que a infraestrutura continuaria funcionando normalmente ou permaneceria segura.

O Bitcoin pode chegar a zero e continuar funcionando?

O Bitcoin não fica armazenado dentro de uma corretora nem propriamente dentro de uma carteira. As moedas são registros na blockchain, e a carteira guarda as chaves que permitem movimentá-las. Por isso, uma queda de preço não apaga os saldos nem transfere automaticamente a propriedade dos BTC.

Quem mantém as próprias chaves privadas ainda teria controle técnico sobre as moedas, mas controle não é o mesmo que valor: se não houver compradores, esses BTC podem continuar registrados na rede sem que o titular consiga trocá-los por reais, dólares ou outros ativos.

Também é importante distinguir uma cotação próxima de zero de um preço efetivamente igual a zero. Em um mercado sem compradores, pode deixar de existir uma negociação capaz de estabelecer uma cotação confiável. O último preço registrado não garante que alguém ainda aceite comprar pelo mesmo valor.

A blockchain, por sua vez, poderia continuar produzindo blocos enquanto houvesse mineradores dispostos a participar. Os nós — computadores que armazenam e verificam as regras e transações, também não seriam desligados por uma queda de preço.

No entanto, sem mineração suficiente, as confirmações ficariam mais lentas; se ninguém produzisse blocos, a liquidação de novas transações pararia.

Quais cenários poderiam levar o Bitcoin a perder seu valor?

Um colapso até zero exigiria mais do que uma fase de pessimismo ou uma queda acentuada. Seria necessário que a demanda pelo ativo desaparecesse de forma ampla e persistente. Três tipos de choque ajudam a entender como isso poderia acontecer.

O primeiro seria uma perda generalizada de confiança. Uma falha grave, um escândalo envolvendo participantes importantes ou uma sequência de vendas forçadas poderia reduzir a liquidez — a facilidade de comprar e vender sem alterar muito o preço. Com menos compradores, cada ordem de venda teria impacto maior.

A queda, por sua vez, poderia provocar novas vendas e reforçar a desconfiança.

O segundo caminho seria uma falha tecnológica capaz de comprometer a propriedade ou a integridade das transações. Uma vulnerabilidade crítica no protocolo ou na criptografia usada para autorizar movimentações poderia colocar fundos em risco e abalar a premissa de segurança do sistema. Não bastaria, porém, uma notícia sobre computadores quânticos ou uma falha pontual em uma carteira: o problema teria de atingir de maneira concreta a confiança na rede.

O terceiro seria uma pressão regulatória coordenada e muito abrangente. Restrições severas a corretoras, custodiantes, serviços bancários e meios de acesso poderiam afastar usuários e instituições. Uma proibição em um país, isoladamente, não eliminaria uma rede global; o impacto dependeria da extensão das medidas e da existência de mercados em outras jurisdições.

Esses cenários não são previsões nem etapas inevitáveis. São mecanismos hipotéticos que mostram por que uma queda extrema dependeria de uma combinação de fatores econômicos, tecnológicos e institucionais.

A queda do preço também colocaria a mineração sob pressão

A mineração é a atividade que reúne poder computacional para validar blocos e proteger o histórico de transações. Em troca, os participantes recebem novos Bitcoins e as taxas pagas pelos usuários. Como boa parte das despesas — especialmente energia, equipamentos e instalações, é paga em moeda tradicional, a receita em BTC depende do preço de mercado.

Se o Bitcoin perdesse valor de forma persistente, mineradores menos eficientes poderiam desligar suas máquinas. A taxa de hash — medida do poder computacional dedicado à rede, cairia. Isso reduziria o ritmo de produção de blocos até que a dificuldade de mineração fosse ajustada.

O protocolo recalibra essa dificuldade a cada 2.016 blocos, intervalo que costuma corresponder a cerca de duas semanas. Se a capacidade de mineração cair de repente, os blocos podem demorar mais para ser encontrados antes do próximo ajuste.

A recalibração ajuda a adaptar a rede, mas não revoga os incentivos econômicos necessários para que alguém continue minerando.

Uma taxa de hash menor também pode reduzir o custo necessário para tentar reorganizar blocos recentes, o que não significa que um invasor passaria a poder criar Bitcoins do nada ou gastar moedas de qualquer carteira: um ataque de maioria pode, entre outras coisas, censurar transações ou tentar gastar duas vezes os próprios fundos.

O risco depende do poder computacional disponível e do custo de controlá-lo.

Quem seria afetado se o BTC perdesse todo o valor?

O impacto mais direto recairia sobre quem tem exposição ao preço do Bitcoin. Para quem comprou BTC, a perda econômica poderia chegar a 100%, mesmo que as moedas continuassem aparecendo na carteira. Já quem investe por meio de um ETF teria a queda refletida no valor das cotas, sem necessariamente ter controle direto sobre os bitcoins mantidos pelo fundo.

Corretoras e empresas de custódia enfrentariam outro tipo de pressão: queda no volume negociado, clientes tentando sacar ativos e possíveis dificuldades operacionais. Em situações extremas, algumas plataformas poderiam suspender saques ou negociações, não seria uma consequência automática do protocolo, mas uma decisão ou limitação de cada intermediário.

Os mineradores sentiriam o choque na receita e no valor dos equipamentos especializados. Empresas com dívidas, contratos de energia e grandes estruturas poderiam enfrentar perdas que ultrapassariam o valor de suas reservas em BTC.

Outras criptomoedas também poderiam ser afetadas pela perda de confiança no setor, embora não exista uma relação mecânica que obrigue todos os ativos a chegar a zero.

O que sustentaria o Bitcoin se o mercado deixasse de acreditar nele?

A descentralização impede que uma única empresa ou governo controle o funcionamento do Bitcoin, mas não elimina sua dependência de incentivos econômicos. Mineradores precisam de receita para manter seus equipamentos, enquanto investidores e usuários sustentam a demanda pelo ativo.

Mesmo que a blockchain continuasse produzindo blocos após uma queda extrema de preço, isso não garantiria o mesmo nível de segurança ou participação. O ajuste de dificuldade permite que a mineração acompanhe mudanças no poder computacional, mas não resolve a falta de rentabilidade.

É essa diferença que torna a hipótese de o Bitcoin chegar a zero mais complexa do que uma simples queda de cotação. A rede não precisa de uma autoridade central para existir, mas precisa de pessoas dispostas a mantê-la. Por isso, questionar se o Bitcoin pode chegar a zero é também perguntar até onde sua infraestrutura consegue resistir quando desaparecem os incentivos que sustentam sua economia.

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Luíza Nunes
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Luíza Nunes