A expansão internacional do dólar e a expansão da infraestrutura bancária caminharam praticamente juntas.
Quanto maior se tornava a presença da moeda americana no comércio global, maior também era a importância de bancos correspondentes, redes internacionais de pagamentos e instituições financeiras responsáveis por movimentar dólares entre diferentes países.
Essa relação começa a mudar, não porque o dólar esteja perdendo espaço, mas porque ele começa a circular sobre uma infraestrutura completamente diferente.
O dólar está ganhando novos trilhos
A maior parte da discussão sobre stablecoins esteve concentrada nas empresas que emitem esses ativos, Circle, Tether, PayPal e Bancos.
A pergunta sempre parecia a mesma, quem emitirá o dólar digital dominante?
Talvez essa nunca tenha sido a transformação mais importante. O crescimento das stablecoins começa a mostrar que o verdadeiro impacto desse mercado pode estar em outro lugar.
Pela primeira vez, o dólar passa a circular por uma infraestrutura que já não depende exclusivamente das redes bancárias construídas para distribuí-lo, a moeda continua sendo a mesma, os trilhos começam a mudar.
O acesso ao dólar deixa de depender do mesmo sistema
Essa mudança já aparece na forma como empresas e usuários movimentam recursos internacionalmente.
Stablecoins passam a ser utilizadas para liquidação entre empresas, pagamentos internacionais, tesouraria corporativa e transferência de recursos entre diferentes mercados.
Em muitos desses casos, quem envia e quem recebe o dinheiro sequer precisa perceber que uma blockchain foi utilizada durante parte da operação.
O que importa é que o dólar continua chegando ao destino, só que agora por um caminho diferente.
A infraestrutura deixa de ser um detalhe técnico, ela passa a representar uma alternativa ao modelo que durante décadas concentrou praticamente toda a circulação internacional da moeda americana.
O dólar pode se fortalecer sem ampliar a mesma infraestrutura bancária
Talvez esse seja o maior paradoxo criado pelas stablecoins, sempre pareceu natural imaginar que qualquer alternativa baseada em blockchain reduziria a importância do dólar.
O que começa a acontecer é exatamente o contrário, a maior parte das stablecoins continua denominada em dólares.
Quanto mais elas se expandem, maior também pode se tornar o alcance internacional da própria moeda americana.
A diferença é que essa expansão já não exige necessariamente o crescimento da mesma infraestrutura bancária que historicamente sustentou esse processo, o dólar continua sendo o centro mas o sistema responsável por distribuí-lo começa a mudar.
A transformação está na infraestrutura, não na moeda
Nada disso significa que bancos deixarão de desempenhar um papel central no sistema financeiro, as reservas das stablecoins continuam dependentes de ativos tradicionais.
A conversão entre moedas fiduciárias e ativos digitais continua utilizando instituições financeiras em diversas etapas, o que começa a mudar é outra coisa.
Dólar e infraestrutura bancária pareciam praticamente inseparáveis, agora eles começam a seguir caminhos parcialmente diferentes: o dólar preserva sua posição como principal moeda internacional, as stablecoins passam a oferecer uma nova infraestrutura para que essa mesma moeda circule.
Talvez esse seja o aspecto mais importante dessa transformação, as stablecoins não estão criando uma nova moeda global, elas começam a criar uma nova forma de distribuir a moeda global que já existe.




