As stablecoins passaram anos competindo entre si. Agora talvez precisem aprender a cooperar.

As stablecoins passaram anos competindo entre si. Agora talvez precisem aprender a cooperar.

O mercado de stablecoins parecia seguir a lógica de qualquer plataforma baseada em efeitos de rede.

Quanto mais pessoas utilizavam uma moeda, mais útil ela se tornava.

Mais liquidez atraía mais exchanges, mais exchanges atraíam mais protocolos. Mais protocolos atraíam mais usuários.

Foi assim que USDT e USDC construíram posições que pareciam cada vez mais difíceis de desafiar.

Mas a indústria começa a caminhar para um mercado onde essa lógica já não explica tudo.

Bancos, fintechs, empresas de pagamentos e grandes plataformas passam a desenvolver suas próprias stablecoins, a questão deixa de ser qual moeda conseguirá concentrar todo o mercado, passa a ser como um mercado com dezenas de emissores conseguirá continuar funcionando como um único sistema.

A corrida deixou de ser por uma única stablecoin

No passado, fazia sentido imaginar que poucas moedas dominariam esse mercado.

Quanto maior a adoção, maior a liquidez. Quanto maior a liquidez, maior a vantagem competitiva. Era um ciclo que favorecia naturalmente a concentração.

Agora esse cenário começa a mudar.

PayPal lançou sua própria stablecoin. Bancos anunciam projetos semelhantes. Empresas de pagamentos estudam emissões próprias. Outras plataformas enxergam vantagens em criar moedas adaptadas aos seus próprios ecossistemas, em vez de depender exclusivamente de um emissor externo.

O resultado é um mercado que parece caminhar para um cenário muito diferente daquele imaginado poucos anos atrás.

Em vez de poucas stablecoins globais concentrando praticamente toda a liquidez, cresce a possibilidade de um ecossistema formado por dezenas de moedas emitidas por instituições diferentes.

Esse movimento amplia as possibilidades para emissores e usuários, mas também cria uma nova necessidade: fazer com que todas essas moedas consigam circular entre si sem transformar pagamentos e liquidação em um sistema fragmentado.

O desafio passa a ser conectar, não emitir

Se cada instituição passa a emitir sua própria stablecoin, nenhuma delas pode operar como uma ilha.

Empresas precisarão receber pagamentos emitidos por outros bancos. Protocolos precisarão aceitar moedas diferentes. Usuários dificilmente escolherão uma stablecoin específica antes de cada transferência.

A experiência continuará simples apenas se toda essa complexidade permanecer invisível.

É exatamente nesse contexto que iniciativas como o ION Protocol, lançado pela Brale, começam a ganhar importância.

O objetivo do projeto não é criar uma nova stablecoin. A proposta é oferecer uma infraestrutura que permita que moedas emitidas por diferentes instituições circulem entre blockchains por meio de um modelo de queima e reemissão, reduzindo a necessidade de manter liquidez separada em cada rede.

Vista isoladamente, a iniciativa parece apenas mais uma inovação técnica. Colocada dentro da transformação do mercado, ela revela algo maior.

A indústria começa a investir menos em descobrir qual será a stablecoin dominante e mais em construir a infraestrutura necessária para que dezenas delas consigam funcionar juntas.

O efeito de rede começa a migrar da moeda para a infraestrutura

O principal ativo de uma stablecoin era reunir o maior número possível de usuários, integrações e liquidez.

Mas quando cada grande instituição possui sua própria moeda, esse efeito de rede deixa de depender exclusivamente do emissor, ele passa a depender da capacidade de conectar moedas diferentes sem criar atrito para quem as utiliza.

É uma mudança sutil, mas ela altera profundamente onde o valor começa a ser criado.

Na primeira fase da indústria, vencer significava emitir a stablecoin mais utilizada, na próxima, talvez signifique construir a infraestrutura capaz de conectar todas elas.

O maior vencedor talvez não seja uma stablecoin

Isso não significa que USDT ou USDC perderão relevância.

Elas continuam desempenhando um papel central na liquidez global e provavelmente permanecerão entre as moedas mais importantes do mercado por muito tempo.

O que muda é a lógica ao redor delas. Se cada banco, fintech ou empresa puder emitir sua própria stablecoin, a emissão deixa de ser um recurso escasso.

A capacidade de integrar centenas de emissores diferentes passa a ser muito mais difícil e muito mais valiosa.

A indústria acreditou que a grande disputa seria descobrir qual stablecoin dominaria o mercado.

O que começa a surgir agora aponta para outra possibilidade. Talvez o maior efeito de rede desse mercado deixe de existir nas próprias stablecoins.

Talvez ele passe a existir na infraestrutura capaz de fazer todas elas funcionarem como se fossem parte de um único sistema.