Uma stablecoin construída para bancos começou a funcionar nos Estados Unidos. Mas os clientes desses bancos não poderão comprá-la, guardá-la em uma carteira ou utilizá-la para fazer pagamentos.

A Fiserv colocou em produção sua nova plataforma de ativos digitais com o Roughrider Coin, um ativo desenvolvido em parceria com o Bank of North Dakota para movimentar dinheiro entre instituições financeiras do estado.

Mais de 90 bancos e cooperativas de crédito poderão acessar a infraestrutura através do Bank of North Dakota. As transações utilizam a Solana, o VersaBank atua como emissor e a Fireblocks fornece parte da infraestrutura de ativos digitais.

A estrutura chama atenção justamente pelo que deixa de fora.

O Roughrider Coin não foi criado para competir pela carteira dos consumidores. Segundo o Bank of North Dakota, o público não poderá comprar, possuir ou investir no ativo. Seu uso é restrito às instituições financeiras participantes.

Isso inverte uma parte importante da história das stablecoins.

Elas ganharam espaço oferecendo dólares digitais que circulavam fora da infraestrutura bancária tradicional. Agora, uma tecnologia semelhante está sendo incorporada ao próprio sistema bancário, não como alternativa oferecida aos clientes, mas como infraestrutura utilizada pelos bancos para movimentar dinheiro entre si.

A stablecoin fica escondida dentro do banco

Para utilizar o Roughrider Coin, uma instituição financeira de Dakota do Norte não precisa direcionar seus funcionários para uma exchange ou transformar sua operação em uma mesa de cripto.

A Fiserv integrou o ativo ao Commercial Center, sua plataforma utilizada por instituições financeiras para serviços de banco comercial, é uma escolha importante.

Para o banco, blockchain passa a existir dentro de uma interface que já faz parte de sua operação. O novo trilho financeiro é incorporado à infraestrutura existente em vez de exigir que a instituição construa uma operação paralela para acessá-lo.

A tecnologia pode mudar enquanto a experiência operacional muda muito menos.

Essa talvez seja uma das formas mais importantes de adoção institucional.

Um banco não precisa decidir que quer usar cripto. Ele pode simplesmente utilizar uma função nova dentro do software que já emprega para movimentar dinheiro.

Por trás dela, o valor passa a circular de outra maneira.

O Roughrider Coin não é uma stablecoin comum

A própria maneira como o ativo é descrito ajuda a entender o modelo.

Fiserv utiliza a linguagem de stablecoin em sua plataforma de ativos digitais. O Bank of North Dakota descreve o Roughrider Coin como um tokenized deposit, ou depósito tokenizado, destinado exclusivamente a instituições financeiras.

A distinção não é apenas semântica.

Stablecoins como USDC e USDT foram construídas para circular amplamente entre exchanges, carteiras, empresas e usuários. Podem atravessar plataformas e blockchains e, dependendo do ativo, ser utilizadas em diferentes aplicações financeiras.

O Roughrider Coin nasce com uma lógica diferente.

Ele representa depósitos dentro de uma infraestrutura bancária controlada e sua circulação ocorre entre participantes autorizados.

O Bank of North Dakota afirma que cada token representa um dólar depositado e que o ativo não estará disponível para compra ou investimento pelo público.

Blockchain continua sendo o trilho, mas o dinheiro que circula sobre ele permanece dentro das fronteiras do sistema bancário.

Mais de 90 instituições podem entrar sem construir a própria blockchain

O alcance potencial do projeto também é relevante.

O Bank of North Dakota funciona de maneira diferente de um banco comercial convencional. Por ser uma instituição estatal, ele atua como uma espécie de banco dos bancos locais, trabalhando com instituições financeiras espalhadas pelo estado.

É essa posição que permite distribuir o Roughrider Coin para mais de 90 bancos e cooperativas de crédito sem exigir que cada um desenvolva sua própria infraestrutura de ativos digitais.

A Fiserv adiciona outra camada de distribuição.

A empresa já fornece tecnologia para milhares de instituições financeiras. Se a arquitetura funcionar em Dakota do Norte, o valor estratégico do projeto não está apenas no número inicial de bancos conectados, mas na possibilidade de transformar stablecoins e depósitos tokenizados em mais uma funcionalidade dentro de uma infraestrutura bancária que já possui distribuição.

Isso muda o problema da adoção.

Em vez de perguntar como convencer milhares de bancos a construir sistemas blockchain, a pergunta passa a ser se os fornecedores de tecnologia que já atendem esses bancos conseguem incorporar blockchain aos produtos existentes.

Nesse modelo, a distribuição pode ser tão importante quanto a própria rede utilizada para processar as transações.

O dinheiro bancário começa a aprender com as stablecoins

O projeto também mostra que a disputa entre bancos e stablecoins pode ser menos binária do que parecia.

Stablecoins demonstraram que uma representação digital do dólar pode circular continuamente em blockchain, ser programável e transferida sem depender dos mesmos horários das redes bancárias tradicionais.

Bancos agora podem incorporar algumas dessas características sem necessariamente adotar stablecoins públicas.

Um depósito tokenizado permite preservar uma relação diferente com a instituição bancária. Em vez de possuir um token emitido por uma empresa de stablecoins, o participante continua operando dentro de uma estrutura bancária, mas com o depósito representado em uma infraestrutura blockchain.

Isso cria duas possíveis rotas para o dinheiro on-chain.

Em uma, stablecoins emitidas por empresas privadas entram cada vez mais na infraestrutura financeira tradicional, na outra os próprios bancos começam a colocar seus depósitos em blockchain.

O Roughrider Coin pertence mais claramente à segunda.

E essa diferença importa porque o resultado pode ser parecido para a tecnologia, mas bastante diferente para a estrutura financeira.

A blockchain ganha volume nos dois casos, quem emite o dinheiro é que muda.

A adoção pode acontecer sem chegar ao cliente

É fácil medir a adoção de uma nova tecnologia financeira pelo número de pessoas que passam a utilizá-la.

O Roughrider Coin propõe outra métrica.

Um cliente de um banco de Dakota do Norte pode nunca possuir o token. Pode nunca instalar uma carteira. Pode sequer saber que a infraestrutura existe.

Mesmo assim, o banco onde mantém seu dinheiro pode utilizar blockchain para movimentar recursos com outra instituição financeira.

Isso torna o Roughrider Coin um produto curioso.

Ele pode ser bem-sucedido justamente sem conquistar consumidores.

A Fiserv e o Bank of North Dakota estão testando se uma das tecnologias popularizadas pelas stablecoins pode se tornar parte da infraestrutura bancária sem transformar stablecoins em um produto oferecido pelo banco.

Se funcionar, os mais de 90 bancos e cooperativas participantes não precisarão convencer seus clientes a usar dinheiro on-chain.

Eles próprios serão os usuários.

E talvez seja essa uma das mudanças mais importantes da próxima fase das stablecoins: a tecnologia pode continuar avançando mesmo quando o ativo que a utiliza nunca chega às mãos do público.

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Rodrigo Reis
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