Project Agorá: os bancos descobriram que não precisam criar uma stablecoin para colocar dinheiro na blockchain

Project Agorá: os bancos descobriram que não precisam criar uma stablecoin para colocar dinheiro na blockchain

A transformação do dinheiro digital parecia seguir um único caminho.

Empresas privadas criavam stablecoins e bancos tradicionais observavam esse mercado crescer enquanto discutiam se deveriam lançar suas próprias moedas para não perder espaço.

Essa lógica começa a mudar.

Em vez de responder às stablecoins criando novas moedas, grandes bancos passaram a explorar outra possibilidade: levar para a blockchain o dinheiro que já existe dentro do sistema fnanceiro.

O objetivo deixa de ser substituir depósitos bancários e passa a ser permitir que eles funcionem sobre uma infraestrutura diferente.

A disputa deixou de ser apenas entre bancos e stablecoins

As stablecoins provaram que ativos digitais podem movimentar bilhões de dólares diariamente com liquidação quase instantânea e isso fez muitos acreditarem que o próximo passo natural seria cada grande banco emitir sua própria moeda digital, mas essa estratégia traz um novo problema.

Quanto maior o número de stablecoins, maior a fragmentação da liquidez e mais complexa se torna a movimentação de recursos entre instituições diferentes.

Em vez de multiplicar moedas, parte do sistema bancário começa a explorar outra alternativa, manter o mesmo dinheiro e mudar apenas a infraestrutura sobre a qual ele circula.

O Project Agorá mostra uma estratégia diferente

É exatamente essa a proposta do Project Agorá, iniciativa coordenada pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS) em parceria com bancos centrais e instituições financeiras globais.

Em vez de criar uma nova stablecoin, o projeto reúne depósitos bancários tokenizados e reservas de bancos centrais em uma infraestrutura compartilhada para testar pagamentos internacionais, operações de câmbio e liquidação entre diferentes moedas.

Nos testes mais recentes, o sistema executou dezenas de operações envolvendo seis moedas distintas em cerca de 80 segundos. O objetivo é avaliar como dinheiro já existente no sistema financeiro pode operar sobre infraestrutura blockchain sem alterar sua natureza jurídica ou seu emissor.

A blockchain deixa de competir com o dinheiro dos bancos

A blockchain foi frequentemente apresentada como uma alternativa ao sistema financeiro tradicional e as Stablecoins reforçaram essa percepção ao criar versões digitais do dólar emitidas por empresas privadas.

O Project Agorá sugere um caminho diferente.

A blockchain deixa de ser vista apenas como um ambiente onde circulam ativos criados fora do sistema bancário, ela começa a funcionar como uma nova infraestrutura para o próprio dinheiro emitido pelos bancos e sustentado pelos bancos centrais.

Essa mudança altera o foco da inovação.

O debate deixa de ser qual moeda substituirá os depósitos bancários e passa a ser como esses depósitos poderão circular em uma infraestrutura mais eficiente.

O próximo capítulo do dinheiro digital talvez não seja uma nova moeda

Isso não significa que as stablecoins perderão importância, elas continuam desempenhando um papel central na economia digital e provavelmente permanecerão essenciais para aplicações abertas e mercados globais, o que muda é a estratégia do sistema financeiro tradicional.

Em vez de competir diretamente com emissores privados criando dezenas de novas stablecoins, os bancos começam a explorar como depósitos bancários e reservas de bancos centrais podem operar no mesmo ambiente tecnológico.

Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes da atual fase da tokenização.

A discussão sobre dinheiro digital concentrou-se em quem emitiria a próxima moeda, o Project Agorá sugere outra pergunta.

Talvez a verdadeira transformação não esteja em criar um novo tipo de dinheiro, mas em descobrir que o dinheiro que já existe também pode funcionar sobre blockchain.