A BlackRock está transformando as reservas das stablecoins em um novo mercado para Wall Street

A BlackRock está transformando as reservas das stablecoins em um novo mercado para Wall Street

A disputa pelas stablecoins parecia relativamente simples.

A pergunta era quem conseguiria emitir o próximo dólar digital de sucesso, Circle, Tether, PayPal, Bancos,Fintechs.

Mas talvez essa nunca tenha sido a única oportunidade criada por esse mercado.

Cada stablecoin emitida precisa manter reservas em caixa, títulos do Tesouro americano e outros ativos altamente líquidos para garantir sua conversibilidade.

Quanto maior se torna o mercado de stablecoins, maior também se torna o patrimônio que precisa ser administrado.

É justamente nesse ponto que Wall Street começa a enxergar um novo negócio.

As reservas estão se tornando uma indústria própria

Nesta semana, a BlackRock anunciou dois novos produtos voltados para ativos tokenizados.

À primeira vista, eles parecem apenas mais uma expansão da estratégia da gestora em blockchain, mas um deles chama atenção por um motivo específico.

O BlackRock Daily Reinvestment Stablecoin Reserve Vehicle (BRSRV) foi criado para funcionar como um veículo de investimento destinado à administração das reservas de emissores de stablecoins. O fundo investe em caixa, títulos de curto prazo do Tesouro americano e operações compromissadas, mantendo o perfil de liquidez exigido por esse tipo de reserva.

Além disso, foi estruturado para atender aos critérios previstos pelo GENIUS Act para ativos elegíveis de reserva de stablecoins e elas começam a se transformar em um segmento disputado pelas maiores gestoras do mundo.

O crescimento das stablecoins cria um novo tipo de cliente

Até pouco tempo, administrar reservas era uma função quase invisível dentro do negócio das stablecoins.

Era necessário manter os ativos que garantiam a conversibilidade das moedas, mas essa atividade raramente aparecia como um mercado independente. O avanço da regulamentação começa a mudar essa lógica.

À medida que emissores regulados precisam manter bilhões de dólares em ativos de alta qualidade, cresce também a demanda por gestores especializados em preservar liquidez, administrar rendimento e cumprir exigências regulatórias.

Nesse cenário, emissores deixam de ser apenas empresas de tecnologia financeira e passam a se tornar grandes clientes para a indústria global de gestão de ativos.

A própria BlackRock já administra aproximadamente US$ 60 bilhões das reservas da USDC, da Circle. Durante a divulgação dos resultados do segundo trimestre, a companhia afirmou que pretende se tornar a principal gestora de reservas de stablecoins da indústria.

O lançamento do BRSRV transforma essa estratégia em um produto que pode ser oferecido a outros emissores regulados. 

O valor econômico pode estar migrando para outra camada

Boa parte da atenção esteve concentrada nos emissores.

Quem conseguiria lançar a stablecoin mais utilizada, quem conquistaria maior circulação e quem dominaria pagamentos internacionais.

Essas perguntas continuam importantes, mas o crescimento do mercado cria uma nova disputa.

Quanto maior a quantidade de stablecoins em circulação, maior também o volume de reservas que precisa ser investido, administrado e monitorado diariamente.

Essa atividade exige exatamente o tipo de especialização que empresas como BlackRock, Fidelity e State Street desenvolveram durante décadas administrando fundos de caixa, títulos públicos e estratégias de liquidez.

A oportunidade deixa de estar apenas na emissão da moeda e passa também pela administração do patrimônio que sustenta essa moeda.

A próxima disputa das stablecoins talvez aconteça fora das blockchains

Nada disso reduz a importância dos emissores.

Circle, Tether e outros continuarão sendo responsáveis pela emissão, resgate e distribuição de seus ativos digitais.

O que começa a mudar é a quantidade de participantes que passam a capturar valor ao redor desse ecossistema, já que a indústria tratou stablecoins principalmente como empresas de pagamentos.

Agora elas começam a se parecer também com clientes permanentes de Wall Street.

Talvez esse seja um dos sinais mais claros do amadurecimento do mercado.

A primeira disputa das stablecoins foi por quem conseguiria emitir o dólar digital mais utilizado, a próxima pode ser por quem administrará os bilhões de dólares necessários para sustentá-lo.