
Comprar Bitcoin depois de uma sequência de altas pode parecer uma boa oportunidade. Afinal, se o preço continua subindo, quem quer ficar de fora? O risco é entrar quando boa parte da valorização já aconteceu e descobrir que o mercado não vai continuar na mesma direção.
No entanto, as pessoas também podem perder dinheiro com criptomoedas ao investir em ativos difíceis de vender, recorrer à alavancagem ou confiar em plataformas fraudulentas. Mais do que acompanhar a cotação, entender esses riscos é o que explica por que uma alta no mercado nem sempre se traduz em lucro para quem investe.
O resultado depende tanto do ativo quanto das decisões tomadas ao longo do caminho.
O risco de chegar ao mercado quando o entusiasmo está no auge
O medo de ficar de fora de uma oportunidade, conhecido pela sigla FOMO (fear of missing out), leva algumas pessoas a comprar porque veem o preço subir ou amigos falando sobre ganhos. A decisão passa a ser guiada pela pressão do momento, não por uma avaliação do ativo ou do tamanho da perda que seria suportável.
Um estudo do Banco de Compensações Internacionais (BIS), baseado no uso de aplicativos de corretoras em 95 países entre 2015 e 2022, estimou que entre 73% e 81% dos investidores de varejo provavelmente perderam dinheiro em seu investimento inicial em Bitcoin.
O número não resulta do acompanhamento individual de todas as carteiras: é uma estimativa construída a partir de padrões de entrada e de hipóteses sobre compras recorrentes. Ainda assim, mostra como novos investidores podem chegar quando o preço já subiu bastante.
Isso não significa que comprar após uma alta sempre dá prejuízo. Significa que a cotação recente, sozinha, não é uma tese de investimento.
Por que algumas criptomoedas valorizam, mas quase ninguém consegue vendê-las?
O risco é maior em altcoins pequenas e memecoins com poucos compradores, pouca atividade ou grande concentração de tokens nas mãos de poucos endereços. Um preço exibido na tela não garante que será possível vender uma posição inteira naquele valor.
A CoinGecko calculou que 53,2% dos tokens acompanhados no GeckoTerminal entre julho de 2021 e dezembro de 2025 deixaram de ser negociados ativamente. Só em 2025, foram cerca de 11,56 milhões de tokens. A amostra não representa necessariamente todos os projetos cripto existentes, e deixar de negociar não prova, por si só, que houve fraude ou que cada detentor perdeu todo o dinheiro.
O dado mostra, porém, como é fácil criar tokens e como poucos mantêm atividade no mercado.
A capitalização de mercado também pode enganar. Se há 100 milhões de unidades de um token e a última negociação ocorreu a R$ 1, a capitalização indicada será de R$ 100 milhões. Isso não quer dizer que existam compradores suficientes para absorver vendas desse tamanho pelo mesmo preço. Com pouca liquidez, uma ordem grande pode derrubar a cotação.
Uma oscilação de preço pode ser suficiente para zerar o capital investido
A alavancagem permite controlar uma posição maior do que o dinheiro colocado como garantia. Com R$ 1.000 e alavancagem de 10 vezes, por exemplo, a exposição chega a R$ 10 mil. Uma queda de 5% no ativo representa uma perda aproximada de R$ 500 — metade da garantia, antes de taxas e outros custos. Uma oscilação mais forte pode levar à liquidação, quando a plataforma encerra a posição para limitar o risco de crédito.
Em 10 de outubro de 2025, cerca de US$ 19 bilhões em posições alavancadas foram liquidados em 24 horas, segundo análise da CoinGecko. É um lembrete de que alguém pode acertar a direção de longo prazo e, mesmo assim, perder sua posição durante uma queda temporária.
O risco aumenta quando o dinheiro investido era destinado a aluguel, contas ou reserva de emergência, ou veio de crédito. Se o ativo desvaloriza, a dívida não cai junto com ele. Antes de pensar no retorno possível, é preciso considerar o impacto de uma perda grande — inclusive a possibilidade de perder todo o valor investido.
Por que tentar acertar cada movimento do mercado pode reduzir os ganhos
O mercado de criptomoedas funciona 24 horas por dia, e sempre há uma nova moeda, notícia ou variação para acompanhar, mas tentar aproveitar cada movimento adiciona taxas, diferença entre preços de compra e venda e derrapagem (slippage), quando uma ordem é executada por um preço pior que o esperado. Também exige acertar duas vezes: a hora de vender e a hora de voltar.
O mesmo problema aparece quando não existe uma estratégia de saída. Um token comprado por R$ 1 chega a R$ 3, mas o investidor decide esperar R$ 5 — e depois R$ 10. Se a cotação cai, o lucro que existia no papel diminui ou desaparece.
Não significa que seja necessário vender tudo em um preço predeterminado. Significa decidir antecipadamente quais condições justificariam reduzir a posição ou rever a tese que motivou a compra.
A matemática das quedas ajuda a entender o risco: um ativo que perde 50% precisa subir 100% para voltar ao valor inicial. Depois de uma queda de 90%, precisa subir 900%. Quanto maior o prejuízo, mais difícil é recuperar o capital.
Escolher o ativo certo não protege contra uma plataforma que falha
Nem todo prejuízo vem da cotação. Golpes de investimento, páginas falsas, falsos atendentes, aprovações maliciosas de carteira e falhas de custódia podem tirar os ativos do controle de quem os comprou. Também existe o risco de uma plataforma centralizada enfrentar problemas financeiros e impedir saques.
A Chainalysis identificou pelo menos US$ 14 bilhões em entradas on-chain associadas a golpes e fraudes cripto em 2025 e projetou que a estimativa poderia superar US$ 17 bilhões à medida que mais endereços ilícitos fossem identificados. Esses números são estimativas de atividades rastreadas na blockchain, não uma contagem exata de todos os prejuízos sofridos por vítimas.
Senhas únicas, autenticação em dois fatores, conferência dos endereços de sites e cuidado com mensagens não solicitadas reduzem alguns riscos. A frase de recuperação da carteira nunca deve ser compartilhada.
Nenhum procedimento acaba com todas as ameaças, mas verificar antes de transferir é mais seguro do que tentar recuperar fundos depois.
Por que as pessoas perdem dinheiro com criptomoedas mesmo quando o mercado sobe?
Uma alta no mercado não significa que todos os investidores estão ganhando dinheiro. É possível perder dinheiro com criptomoedas mesmo quando o mercado sobe porque a valorização de um ativo não determina o resultado de cada investidor.
Quem compra depois de uma valorização expressiva pode entrar perto de uma reversão, quem usa alavancagem pode perder a posição com uma queda relativamente pequena, e quem não consegue vender um ativo ou cai em um golpe enfrenta riscos que vão além da cotação.
Perder dinheiro com criptomoedas nem sempre depende de ter escolhido a moeda errada. O preço pago, o tamanho da posição, os custos das operações e a segurança da plataforma também pesam no resultado.
Nenhuma estratégia extingue esses riscos, mas entender de onde eles vêm permite tomar decisões menos dependentes do entusiasmo do mercado.









