Mais de US$ 200 milhões em criptomoedas foram roubados nos últimos meses em casos envolvendo dispositivos Ledger adulterados e carteiras Coldcard cuja geração da seed não teria sido verdadeiramente aleatória. Os episódios levantaram dúvidas sobre a segurança das hardware wallets, mesmo entre usuários que compram os dispositivos de fontes oficiais e armazenam corretamente suas frases-semente.

O problema não se limita a falhas nos equipamentos. Ataques físicos contra investidores também representam um risco: a reportagem cita ocorrências na França a cada 2,5 dias, em média, no período observado. Perder um dispositivo ou esquecer a frase de recuperação, por sua vez, pode impedir o acesso aos fundos.

Para quem procura guardar criptomoedas sem depender exclusivamente de uma carteira física, existem outras opções. ETFs, carteiras com passkeys, contas multisig, corretoras centralizadas e carteiras de papel oferecem diferentes formas de administrar os ativos, mas nenhuma elimina todos os riscos.

1. ETFs de criptomoedas transferem a custódia para uma estrutura financeira

Os fundos negociados em bolsa, conhecidos como ETFs, podem simplificar a exposição ao Bitcoin. Mas há uma diferença importante: o investidor não passa a deter diretamente as moedas. Em vez disso, recebe cotas de um produto financeiro que mantém criptomoedas por meio de um custodiante.

Na prática, o investidor tem direito ao valor patrimonial das cotas, expresso em dólares, e não à posse direta dos bitcoins. A estrutura elimina a necessidade de administrar uma seed ou proteger uma carteira própria, mas introduz outros riscos, como dependência do emissor e de terceiros responsáveis pela custódia, taxas e possíveis diferenças entre o preço das cotas e o do ativo.

Ophelia Snyder, cofundadora da gestora 21Shares, afirmou que os produtos negociados em bolsa fazem mais sentido “for most people most of the time” — para a maioria das pessoas, na maior parte do tempo — por razões tributárias, sucessórias e de segurança.

Ela também aponta limitações: o investidor perde a possibilidade de usar o Bitcoin diretamente na blockchain e assume exposição a riscos relacionados ao emissor. Por isso, a infraestrutura de custódia deve pesar na escolha do produto.

Em 2025, PlanB, criador pseudônimo do modelo stock-to-flow do Bitcoin, transferiu seus BTC para ETFs e relatou ter sido criticado pela decisão. Após os incidentes envolvendo Ledger e Coldcard, afirmou: “Zero regrets of my ETF decision. Peace of mind.” Em português, a mensagem é clara: não se arrepende da escolha e ganhou tranquilidade.

2. Carteiras com passkeys reduzem a dependência de frases-semente

Passkeys são credenciais criptográficas armazenadas em dispositivos, frequentemente celulares, e protegidas por recursos como impressão digital, reconhecimento facial ou PIN. A tecnologia permite acessar determinados serviços sem precisar administrar uma frase-semente da maneira tradicional.

Entre as opções citadas estão a Smart Wallet da Coinbase, a Clave e a Infinex, que adotam modelos e mecanismos de recuperação diferentes. Essas carteiras aparecem com mais frequência em redes que utilizam contratos inteligentes.

A experiência pode ser mais simples, mas perder o dispositivo ou a passkey ainda pode criar problemas de acesso. Antes de escolher uma solução, é importante entender como funcionam os backups e se a recuperação depende de terceiros.

Em junho de 2024, Adam Back, executivo-chefe da empresa de infraestrutura de Bitcoin Blockstream, questionou a segurança da Smart Wallet da Coinbase diante da possibilidade de uma passkey ser comprometida. Sua crítica foi: “sounds like basically a hosted wallet with a better sales pitch” — algo que, na avaliação dele, parecia uma carteira custodiada com uma apresentação comercial melhor.

3. Carteiras multisig distribuem o controle entre várias chaves

Uma carteira multisig, ou de múltiplas assinaturas, exige mais de uma chave para autorizar uma transação. Em uma configuração comum de duas entre três assinaturas, por exemplo, três chaves são distribuídas entre responsáveis diferentes, e quaisquer duas precisam aprovar uma movimentação.

O modelo diminui a dependência de uma única chave ou dispositivo, mas não elimina necessariamente o uso de hardware wallets. A Casa, por exemplo, oferece soluções de custódia multisig para indivíduos e famílias que podem combinar uma carteira física, um celular e uma chave mantida pela própria empresa.

No ecossistema Ethereum, projetos também utilizam a carteira Safe, anteriormente conhecida como Gnosis Safe, para administrar tesourarias por meio de contas inteligentes com múltiplas assinaturas.

A proteção adicional tem contrapartidas. Os responsáveis precisam estar disponíveis para aprovar as operações, e coordenar assinaturas pode atrasar transferências. Carteiras baseadas em contratos inteligentes também estão sujeitas a vulnerabilidades de código ou de configuração. Se um invasor comprometer assinantes suficientes, ainda poderá autorizar uma transação.

Nick Neuman, executivo-chefe da Casa, também defendeu distribuir o risco entre diferentes provedores, em vez de concentrar toda a proteção em uma única empresa.

4. Corretoras centralizadas assumem a gestão das chaves

Manter criptomoedas em uma corretora centralizada transfere a responsabilidade pela custódia das chaves privadas para uma empresa. Essa opção reduz o trabalho do usuário com dispositivos, backups e frases de recuperação, o que pode ser conveniente para quem negocia com frequência ou não deseja administrar a própria segurança.

O custo dessa praticidade é depender da operação e da solvência da plataforma. O histórico do setor inclui invasões, falhas de segurança e casos em que investidores ficaram sem acesso aos próprios ativos. Mesmo quando corretoras publicam relatórios de prova de reservas ou mantêm fundos de emergência, isso não comprova, por si só, toda a sua saúde financeira nem a capacidade de honrar todas as obrigações.

Há ainda exigências de identificação e prestação de informações. Com o avanço das regras de reporte de operações com criptoativos, incluindo o Crypto-Asset Reporting Framework da OCDE, as plataformas podem solicitar dados de identidade, residência e situação tributária. O descumprimento dessas exigências pode resultar em restrições na conta ou suspensão de saques.

5. Carteiras de papel mantêm as chaves offline, mas exigem cuidado

Uma carteira de papel tradicional contém o endereço de uma criptomoeda e a chave privada correspondente impressos em uma folha. Como as informações ficam fora de um dispositivo conectado à internet, o método pode parecer uma forma simples de armazenamento offline.

O problema é gerar a chave com segurança. Um computador comprometido, um gerador malicioso ou uma fonte de aleatoriedade inadequada pode expor a chave antes mesmo de ela ser impressa. Depois disso, o papel ainda pode ser perdido, danificado ou destruído.

Gravar a seed em uma placa de metal é uma alternativa mais resistente ao dano físico. Também é preciso ter cuidado ao movimentar os fundos: importar a chave privada para uma carteira conectada à internet pode comprometer a segurança que o armazenamento offline pretendia oferecer.

Por essas razões, carteiras de papel não são necessariamente uma alternativa superior às hardware wallets. Para muitos usuários, os riscos de geração, preservação e movimentação dos fundos tornam o método pouco prático.

A escolha de como guardar Bitcoin depende do nível de autonomia desejado, da disposição para administrar chaves e da confiança que o usuário está disposto a depositar em terceiros. A autocustódia oferece controle direto, mas também transfere para o proprietário a responsabilidade por proteger e recuperar os fundos.

Distribuir os ativos entre endereços e métodos diferentes pode limitar o impacto de uma falha isolada, embora não elimine os riscos. Para quem não tem experiência com práticas próprias de segurança, combinar exposição por meio de um ETF e custódia em uma corretora pode fazer parte de uma estratégia de posse de criptomoedas, segundo Snyder.

O essencial é entender o que cada estrutura oferece — e quais responsabilidades ou limitações permanecem.

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Luíza Nunes
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