O Bitcoin Core mudou sua política de segurança para lidar com vulnerabilidades que a inteligência artificial consegue encontrar com pouco esforço. Para falhas consideradas fáceis de descobrir, os desenvolvedores poderão reduzir o período de sigilo e disponibilizar versões corrigidas com mais rapidez.

A mudança foi incorporada na quinta-feira, após uma proposta aberta no início do mês por Antoine Poinsot, desenvolvedor da Chaincode Labs. Ele apontou um aumento nos relatos de problemas que podem ser “easily (re-)discovered”, ou seja, facilmente descobertos novamente.

Segundo Poinsot, os modelos de linguagem de grande escala, conhecidos como LLMs, reduziram drasticamente a dificuldade de localizar determinadas falhas e até identificar correções discretas publicadas no código.

Até agora, a política do Bitcoin Core privilegiava períodos prolongados de embargo, mantendo detalhes sobre vulnerabilidades em sigilo e, muitas vezes, adiando a divulgação até o próximo lançamento principal. A abordagem buscava preservar a cautela nas atualizações de um software que sustenta grande parte dos nós da rede Bitcoin.

Como a nova política do Bitcoin Core muda a divulgação de falhas

Pelas novas diretrizes, os desenvolvedores poderão classificar uma vulnerabilidade como “easily discoverable”, expressão usada para problemas que podem ser identificados com uma consulta simples a um modelo de inteligência artificial.

Nesses casos, o projeto pretende aplicar a correção a todas as versões mantidas do software e lançar uma nova versão o mais rápido possível. O aviso de segurança será publicado junto com a versão corrigida, em vez de manter a vulnerabilidade sob sigilo por um período prolongado.

A mudança parte de uma avaliação prática: esconder uma falha oferece pouca proteção quando um atacante pode localizá-la facilmente com IA. Além disso, aplicar a correção em versões anteriores também pode indicar onde está o problema, reduzindo a utilidade de um embargo longo.

A revisão da política acompanha uma mudança mais ampla no setor de criptomoedas. Durante o verão no hemisfério norte, um grupo voluntário chamado Bitcoin Red Team começou a procurar vulnerabilidades que a IA consegue identificar antes que agentes mal-intencionados as explorem.

No início de agosto, uma auditoria conduzida com inteligência artificial registrou quase 5 mil apontamentos em centenas de projetos cripto. Desenvolvedores também precisaram corrigir falhas identificadas por IA em implementações da Lightning Network e em carteiras de hardware.

Em um caso ainda mais extremo, uma ponte de Bitcoin encerrou suas operações após concluir que a inteligência artificial encontrava vulnerabilidades mais rápido do que a equipe conseguia corrigi-las.

A nova política do Bitcoin Core reflete, portanto, uma mudança na forma de lidar com falhas de segurança: quando a tecnologia reduz o esforço necessário para encontrá-las, manter o problema em segredo por mais tempo pode deixar de ser uma estratégia eficaz.

A prioridade passa a ser disponibilizar a correção rapidamente, sem abandonar o cuidado necessário para atualizar o software que sustenta a rede.

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Luíza Nunes
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