As commodities tokenizadas querem ir além do ouro e abrir novos mercados para o financiamento de metais, a negociação de petróleo e o crédito lastreado em ativos físicos. Executivos de Paxos Labs, Theo e Energy Substantiation apostam que a tecnologia pode aproximar investidores de empresas que precisam financiar estoques e operações.

O mercado, porém, ainda está concentrado em poucos ativos. A capitalização das commodities tokenizadas chegou a US$ 5,55 bilhões no fim de março de 2026, contra US$ 1,43 bilhão no início de 2025, segundo dados da CoinGecko. Tokens lastreados em ouro da Paxos e da Tether responderam por quase 90% desse crescimento.

A proposta é usar redes blockchain para representar ativos físicos, como ouro, prata e petróleo, e facilitar não apenas sua negociação, mas também seu uso em operações financeiras. O desafio é conectar esses tokens a reservas verificáveis, mecanismos de custódia e mercados físicos capazes de sustentar a atividade.

Commodities tokenizadas buscam novas fontes de rendimento

A Paxos Labs aposta no crédito lastreado em ouro para ampliar esse mercado. Seu token PAXGy tem como respaldo o PAX Gold (PAXG), cujas reservas são utilizadas em empréstimos a tomadores institucionais.

O mecanismo prevê que cada PAXGy possa ser resgatado por uma quantidade maior de PAXG à medida que os pagamentos dos empréstimos gerem retornos denominados em onças de ouro. A estrutura busca permitir que os detentores aumentem sua exposição ao metal sem abandonar a relação com seu preço.

Em entrevista ao CoinDesk, o cofundador da Paxos Labs, Bhau Kotecha, resumiu a proposta como acesso a um mercado historicamente restrito. “The big proposition is access”, afirmou. O executivo vê interesse potencial de investidores individuais, family offices e instituições, além da possibilidade de usar o próprio PAXGy como garantia para empréstimos.

O modelo, no entanto, não elimina os riscos do crédito. Os retornos não são garantidos, e a inadimplência dos tomadores pode comprometer o valor do token.

A prata também entra nessa estratégia. O produto thSLVR, da Theo, repassa aos detentores receitas de contratos de arrendamento institucional de prata, mantendo a exposição às oscilações do preço do metal.

Para o diretor de investimentos da empresa, Iggy Ioppe, a demanda pode vir de instituições que procuram garantias produtivas, refinarias que precisam financiar estoques e tesourarias corporativas interessadas em ativos com liquidação rápida. A prata seria o próximo passo natural depois do ouro, embora sua volatilidade e a menor disponibilidade do metal para essas operações imponham dificuldades adicionais.

Ioppe projeta que o mercado de commodities tokenizadas alcance dezenas de bilhões de dólares em cinco anos e ultrapasse US$ 100 bilhões em uma década. Em sua visão, a tokenização poderá fazer parte das operações tradicionais de liquidação e financiamento de commodities dentro de 15 anos.

Petróleo testa os limites da tokenização

No setor de energia, as exigências operacionais são maiores. A Energy Substantiation (EnSub) expandiu seu token WTIC da Ethereum para a Solana em 2 de outubro. Segundo o anúncio da empresa, cada token representa um barril de petróleo bruto West Texas Intermediate (WTI), respaldado por estoque físico verificado.

O CEO e cofundador da EnSub, JP Thieriot, afirmou que tokens de gás natural e do petróleo Brent estão em desenvolvimento. Ele também prevê demanda de compradores de energia interessados em proteger seus custos, investidores que buscam exposição ao petróleo e fornecedores que precisam de capital de giro.

Thieriot estima que tokens de petróleo possam representar um quarto do mercado da commodity em dez anos. Trata-se de uma projeção, não de uma participação já alcançada.

A velocidade dessa expansão, porém, divide as empresas do setor. Ioppe considera mais difícil estruturar tokens de energia que gerem renda porque combustíveis exigem armazenamento, transporte e operações físicas complexas. Thieriot, por sua vez, destaca a necessidade de combinar estoques verificáveis, custódia funcional e liquidação confiável.

A evolução das commodities tokenizadas dependerá, portanto, de mais do que transferir ativos para uma blockchain. Para ganhar escala, esses produtos precisarão demonstrar que conectam os tokens a ativos físicos reais e oferecem vantagens concretas para quem investe, financia estoques ou negocia energia.

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Luíza Nunes
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