
Ataques de IA podem, no pior cenário, encontrar formas de quebrar a matemática que protege carteiras de Bitcoin e Ether em “meses, não anos”. O alerta foi feito por Justin Drake, pesquisador do ecossistema Ethereum, que defendeu que o setor comece a se preparar para o chamado “bunker mode”.
Drake publicou a recomendação na quarta-feira, pedindo que grandes detentores façam, de forma gradual, a migração de seus fundos para novos endereços. A ideia é reduzir a exposição das chaves públicas que já foram reveladas na blockchain.
Em uma carteira, uma sequência secreta chamada chave privada autoriza as transações. A chave pública relacionada permite que a rede verifique essas autorizações. Descobrir a primeira a partir da segunda exige, atualmente, uma quantidade impraticável de esforço computacional.
A preocupação de Drake é que a inteligência artificial possa ajudar a encontrar atalhos matemáticos para esse processo. Nesse cenário, um invasor poderia recuperar a chave privada usando computadores convencionais, sem depender de máquinas quânticas.
O risco potencial é amplo. Milhões de bitcoins estão em endereços cujas chaves públicas já são visíveis na blockchain. No Ethereum, qualquer conta que já tenha enviado uma transação expôs sua chave, e o mesmo sistema de assinaturas também controla stablecoins e fundos tokenizados emitidos na rede.
Até agora, nenhum ataque prático contra as chaves de Bitcoin ou Ethereum foi demonstrado, e o pesquisador não apresentou evidência de que isso já tenha acontecido.
Ataques de IA já encontraram falhas em sistemas cripto
O alerta surgiu após a OpenAI divulgar, na terça-feira, 722 manuscritos matemáticos produzidos por um modelo ainda não lançado, testado em cerca de 4.000 problemas de pesquisa. Segundo a empresa, alguns resultados possuem provas que podem ser verificadas por computador, enquanto outros ainda não foram confirmados.
Um dos resultados foi reproduzido externamente em menos de um dia. O teste verificou uma nova limitação sobre a velocidade com que computadores conseguem multiplicar grandes matrizes, um problema estudado por matemáticos desde 1969.
Drake argumenta que a matemática por trás das assinaturas usadas em Bitcoin e Ether, baseada em curvas elípticas, apresenta estruturas que uma IA suficientemente poderosa poderia aprender a explorar. Já as funções hash são projetadas para dificultar esse tipo de descoberta.
Os ataques de IA também já estão associados a perdas e vulnerabilidades no setor. Em dezembro, pesquisadores da Anthropic mostraram que modelos avançados conseguiam criar exploits funcionais contra cópias simuladas de contratos DeFi reais.
No fim de julho, o grupo voluntário Bitcoin Red Team usou modelos de IA para analisar 390 projetos de software ligados ao Bitcoin em cerca de 27 horas. O trabalho identificou quase 5.000 possíveis falhas, incluindo 85 classificadas como críticas.
Em 30 de julho, um invasor começou a retirar fundos de carteiras de hardware Coldcard por meio de uma falha de firmware existente havia cinco anos, levando pelo menos 1.367 BTC. A fabricante Coinkite afirmou suspeitar que IA tenha ajudado na descoberta da vulnerabilidade.
Dias depois, o BTCPay Server confirmou o roubo de fundos de comerciantes por meio de uma falha em nós Lightning que havia aparecido inicialmente em uma auditoria com apoio de IA. Em 27 de agosto, os desenvolvedores do Core Lightning emitiram um alerta emergencial depois que relatórios produzidos por IA identificaram vulnerabilidades reais.
O problema, segundo Drake, é que o cronograma da ameaça pode ser mais curto do que o previsto para a computação quântica. A Ethereum Foundation estabeleceu dezembro de 2029 como meta para migrar a rede para uma criptografia resistente à computação quântica, enquanto o cenário mais pessimista descrito pelo pesquisador colocaria um possível ataque clássico anos antes disso.
Vitalik Buterin concordou que o risco merece atenção, mas apontou uma dificuldade adicional: até mesmo algumas alternativas consideradas resistentes à computação quântica podem sofrer com avanços rápidos na pesquisa matemática conduzida por IA.
“ There is a good chance that the concrete security of lattices will take serious hits from the next two years of AI math”, escreveu Buterin. Segundo ele, um salto de capacidade matemática equivalente a décadas de avanços em apenas dois anos poderia incluir melhorias relevantes contra sistemas baseados em reticulados.
Por isso, Buterin vê com mais cautela as soluções baseadas em assinaturas derivadas de funções hash, que também estão sendo consideradas para uma futura reconstrução do sistema criptográfico do Ethereum. Para ele, esse desenho oferece menos espaço para atalhos inesperados, embora não esteja livre de possíveis ataques.
Drake recomenda que grandes detentores comecem primeiro, transferindo recursos para endereços cujas chaves públicas nunca tenham aparecido na blockchain. A estratégia tenta eliminar justamente o ponto de partida que um eventual ataque precisaria explorar.
Buterin concorda que reduzir a exposição das chaves públicas pode ser útil, mas pediu cautela com migrações rápidas. Segundo ele, erros durante uma mudança de endereço também podem provocar perdas.
“I personally have lost more money in botched migrations than I have lost in all hacks combined”, escreveu.









