Uma empresa pode ter centenas ou milhares de Bitcoins no balanço e, ainda assim, precisar de dinheiro para pagar despesas, comprar ativos ou financiar uma expansão. A saída mais simples seria vender parte da reserva, mas há uma alternativa mais sofisticada: usar o BTC como garantia de crédito.

A lógica muda bastante quando o ativo deixa de ser apenas uma reserva de valor e passa a sustentar uma dívida. Nesse modelo, a empresa tenta transformar parte do valor do Bitcoin em liquidez sem se desfazer imediatamente da posição.

Como empresas usam Bitcoin como garantia de crédito?

O mecanismo é um tanto quanto simples: a empresa entrega determinada quantidade de Bitcoin como colateral — o ativo que garante o pagamento da dívida, e recebe um empréstimo em moeda fiduciária ou outro ativo líquido.

A quantidade de crédito liberada costuma depender do LTV, sigla em inglês para Loan-to-Value. O indicador compara o valor da dívida com o valor da garantia. Uma companhia que oferece R$ 100 milhões em BTC e toma R$ 40 milhões emprestados, por exemplo, começa com LTV de 40%.

A diferença em relação à venda é fundamental. Ao vender BTC, a empresa reduz sua exposição ao ativo. Ao oferecer o Bitcoin como garantia, ela preserva a posição, mas assume uma obrigação financeira.

Por isso, taxa de juros é só parte da conta. Prazo, LTV inicial, gatilho da chamada de margem, liquidação, custódia e direitos sobre o colateral também importam.

O que uma empresa pode financiar com Bitcoin?

O primeiro uso é transformar uma reserva de BTC em liquidez corporativa.

Imagine uma companhia que acumulou Bitcoin como parte de sua estratégia de tesouraria, mas precisa de caixa para uma oportunidade de curto prazo. Vender o ativo resolveria a necessidade imediata, mas também reduziria a exposição ao BTC. Um empréstimo com garantia cria uma terceira possibilidade: levantar capital sem desmontar integralmente a posição.

Esse capital pode servir para despesas operacionais, refinanciamento, aquisição de ativos ou expansão.

A MARA fechou em agosto duas linhas de crédito lastreadas em Bitcoin, somando US$ 600 milhões, com 18.750 BTC entregues como garantia inicial. A empresa informou que os recursos poderiam ser usados para fins corporativos gerais, incluindo parte do financiamento da aquisição da Long Ridge Energy & Power.

O mais interessante é o papel atribuído ao Bitcoin: em vez de ficar parado no balanço ou ser vendido, o ativo passa a financiar a própria estratégia de crescimento.

Por que mineradoras têm um incentivo ainda maior?

O modelo ganha outra dimensão no setor de mineração de Bitcoin.

Uma mineradora recebe sua receita principalmente em BTC, mas boa parte de seus custos continua sendo paga em moeda fiduciária. Energia, salários, equipamentos, aluguel de infraestrutura e serviço da dívida não podem ser quitados em Bitcoin apenas porque a empresa produz o ativo.

Essa diferença cria um descasamento entre receita e despesa.

Em um cenário favorável, pode precisar de capital para ampliar capacidade; em um cenário ruim, pode precisar preservar caixa enquanto as margens apertam. Vender BTC resolve o problema, mas reduz a reserva.

O crédito com Bitcoin como garantia oferece outra ferramenta de tesouraria.

A PowerCompute, por exemplo, refinanciou cerca de US$ 18 milhões em dívida com uma nova estrutura garantida por 307 BTC de sua tesouraria. A companhia atua em mineração e também está expandindo sua infraestrutura para computação de alto desempenho e inteligência artificial.

É um bom retrato de como o BTC pode mudar de função dentro de uma empresa: de ativo acumulado para fonte de financiamento.

O problema é que a mesma garantia pode perder valor rapidamente

Se o Bitcoin cai, o tamanho da dívida não diminui junto. O que muda é o valor do colateral. Com isso, o LTV sobe. Dependendo das regras do contrato, a empresa pode ser obrigada a entregar mais BTC, amortizar parte da dívida ou aceitar a liquidação de uma parcela da garantia.

O risco é relevante para uma mineradora porque o preço do BTC pode afetar duas pontas ao mesmo tempo. A garantia perde valor enquanto a receita da companhia também pode sofrer pressão.

Esse é um tipo de risco que não aparece quando se olha apenas para a taxa do empréstimo.

Por isso, uma empresa que usa Bitcoin como garantia precisa saber não apenas quanto consegue tomar emprestado, mas o que acontece se o BTC cair 20%, 30% ou mais. Qual é o LTV máximo? Em quanto tempo a companhia precisa recompor a margem? O credor pode vender imediatamente a garantia? Qual preço será usado para calcular o valor do BTC?

A resposta para essas perguntas faz parte do custo real do crédito.

O Bitcoin pode virar parte da estratégia financeira, não apenas da reserva

Essa mudança é maior do que parece.

Durante muito tempo, a discussão institucional sobre Bitcoin esteve concentrada em quanto comprar, onde custodiar e qual parcela do balanço manter no ativo. O crédito introduz uma pergunta diferente: o que uma empresa consegue fazer com o Bitcoin depois que já o possui?

Isso aproxima a tesouraria cripto da lógica tradicional de gestão de capital. Uma empresa pode comparar vender BTC, emitir ações, contratar dívida convencional ou oferecer o ativo como garantia. Cada alternativa tem um custo, um efeito sobre o balanço e um impacto diferente sobre a exposição dos acionistas.

O Bitcoin, nesse contexto, não precisa ser o destino final do capital. Ele pode funcionar como uma ponte entre patrimônio e liquidez.

Mas essa flexibilidade só existe enquanto a estrutura de crédito for administrável. Se a empresa precisa vender BTC às pressas para cumprir uma chamada de margem, a promessa de “não vender” perde boa parte do sentido.

O verdadeiro produto não é o Bitcoin, mas a estrutura do empréstimo

Do lado de fora, duas operações podem parecer idênticas: ambas usam BTC como garantia e liberam dólares. Por dentro, podem ser completamente diferentes.

Custódia segregada, direito de propriedade sobre o colateral, possibilidade de reutilização dos ativos, metodologia de precificação, prazo da dívida e regras de liquidação mudam o risco da operação.

É por isso que o mercado começa a desenvolver estruturas de crédito mais sofisticadas.

Em fevereiro, a Ledn fechou uma securitização de US$ 188 milhões lastreada em empréstimos garantidos por Bitcoin.Em junho, Kraken e Maple anunciaram uma estrutura de warehouse onchain para financiar empréstimos garantidos por ativos digitais.

Esses movimentos apontam para uma evolução de mercado que não está apenas criando formas de emprestar contra Bitcoin. Está começando a criar infraestrutura para financiar, empacotar e distribuir esse crédito.

Quando o Bitcoin vira garantia, o risco muda de lugar

Usar Bitcoin como garantia de crédito não elimina a necessidade de vender ativos, apenas desloca a decisão.

Em vez de perguntar se a empresa deve vender BTC para obter liquidez, o gestor de tesouraria passa a avaliar se vale a pena manter a exposição e aceitar o risco de carregar uma dívida cujo colateral pode oscilar violentamente.

É uma diferença sutil, mas decisiva.

O avanço institucional do Bitcoin pode depender menos de quantas empresas compram o ativo e mais de quão bem elas conseguem integrá-lo à própria estrutura financeira. Nesse cenário, o BTC deixa de ser apenas algo guardado no balanço.

Passa a ser uma peça que pode financiar o balanço — desde que a dívida nunca cresça mais rápido do que a capacidade da empresa de suportá-la.

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Luíza Nunes
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Luíza Nunes