Uma stablecoin pode parecer simples na tela: um token que deveria valer US$ 1. O mecanismo que sustenta esse preço, porém, está fora da blockchain. Ele depende dos ativos mantidos pelo emissor e da capacidade de transformar esses ativos em dinheiro quando os usuários quiserem resgatar seus tokens.

É por isso que as reservas de stablecoins ganharam tanta importância regulatória. Nos Estados Unidos, o GENIUS Act criou regras federais para pagamentos com stablecoins. Na União Europeia, a Regulação MiCA estabelece exigências de reserva, liquidez, segregação e supervisão.

Em comum, os dois modelos partem de uma mesma ideia: o emissor não deveria criar mais tokens do que consegue sustentar com ativos líquidos e de baixo risco.

O que realmente existe por trás do lastro de uma stablecoin

A reserva é o conjunto de ativos que sustenta os tokens em circulação. Se um emissor recebe US$ 100 milhões e coloca 100 milhões de unidades de uma stablecoin no mercado, a lógica regulatória é que esse valor permaneça disponível para honrar os resgates.

Isso explica por que uma stablecoin não funciona exatamente como uma conta bancária. O emissor não deveria simplesmente receber os dólares, emprestá-los e ficar com uma promessa de pagamento. A reserva precisa ser formada por ativos que possam ser convertidos em dinheiro com pouca perda de valor e em pouco tempo.

O objetivo é simples: se muitos usuários quiserem trocar seus tokens por dólares ao mesmo tempo, o emissor precisa ter condições de atender à demanda.

Quais são os requisitos de reserva das stablecoins?

As regras variam entre jurisdições, mas normalmente tratam de quatro pontos.

O primeiro é a composição: quais ativos podem fazer parte da reserva. O segundo é a segregação: os ativos precisam ficar separados do patrimônio usado pela empresa em suas operações. O terceiro é a custódia, ou seja, quem guarda esses ativos. O quarto é a transparência: o que o emissor precisa divulgar e quem verifica essas informações.

Essa arquitetura é relevante porque “há US$ 1 para cada token” não diz, sozinha, onde está esse dólar nem quão rápido ele pode ser recuperado.

Por que as reservas de stablecoins precisam ser líquidas

A lógica por trás dos ativos aceitos é menos misteriosa do que parece. Uma boa reserva precisa reduzir três riscos: crédito, moeda e liquidez.

Risco de crédito surge quando uma contraparte pode deixar de pagar. Risco cambial aparece quando o ativo está em outra moeda. Já o risco de liquidez surge quando algo tem valor, mas não pode ser vendido rapidamente sem perda relevante.

Um título de longo prazo, por exemplo, pode sofrer uma queda de preço quando as taxas de juros mudam. Por isso, liquidez e prazo de vencimento importam tanto quanto o valor nominal do ativo.

Nos Estados Unidos, o GENIUS Act exige cobertura de pelo menos 1 para 1 e limita, em linhas gerais, as reservas a dinheiro, certos depósitos, títulos do Tesouro de curto prazo, operações compromissadas e fundos de mercado monetário governamentais, além de outros ativos líquidos autorizados pelos reguladores.

GENIUS Act e MiCA seguem a mesma lógica, mas não exatamente as mesmas regras

Nos EUA, o GENIUS Act exige reservas identificáveis com cobertura mínima de 1 para 1. O emissor também precisa publicar mensalmente sua composição, com exame por uma firma de contabilidade pública, além de certificação pelos executivos responsáveis.

Emissores acima de US$ 50 bilhões em circulação ficam sujeitos a demonstrações financeiras anuais auditadas, salvo as exceções previstas para empresas já submetidas às regras de reporte do mercado de capitais.

Na União Europeia, a Regulação MiCA também exige uma reserva permanentemente mantida e legalmente segregada do patrimônio do emissor. Para tokens classificados como significativos, as exigências de liquidez são mais rígidas e os depósitos em instituições de crédito precisam representar pelo menos 60% do valor referenciado. Para os demais, o piso é de 30%.

Para o leitor brasileiro, essas não são regras que substituem a legislação local. Elas são importantes porque os EUA e a União Europeia estão entre os principais mercados a definir padrões para a infraestrutura que sustenta as stablecoins.

O que acontece com a reserva se o emissor quebrar?

Separar a reserva do patrimônio da empresa tenta impedir que os ativos dos titulares sejam tratados como dinheiro disponível para outros credores.

A Regulação MiCA determina que a reserva seja legal e operacionalmente segregada do patrimônio do emissor e que, em caso de insolvência, os credores da empresa não tenham acesso a esses ativos.

O GENIUS Act estabelece proteção específica para as reservas e prioridade para créditos dos titulares quando a reserva disponível não for suficiente, de acordo com as regras de insolvência aplicáveis.

Quem verifica se as reservas realmente existem?

Transparência não significa necessariamente uma auditoria completa.

Uma attestation é uma verificação sobre a situação em uma determinada data. Ela pode confirmar que os ativos existiam e eram suficientes naquele momento, mas não equivale necessariamente a uma auditoria financeira abrangente.

O GENIUS Act combina divulgação mensal da composição das reservas com exame independente desses relatórios. Para emissores de maior porte, entram também demonstrações financeiras anuais auditadas.

Na União Europeia, a Regulação MiCA prevê auditoria independente das reservas, incluindo verificações periódicas mais rigorosas para tokens sujeitos às exigências específicas do regime.

Uma fotografia do lastro em determinada data, portanto, não mostra sozinha o que aconteceu antes ou depois dela.

Reservas mais seguras eliminam o risco?

Não, elas mudam o tipo de risco que precisa ser administrado.

Um emissor pode cumprir a exigência de 1 para 1 e ainda depender de bancos, custodiante e mercados financeiros para manter sua reserva acessível. O risco, nesse caso, não desaparece: ele migra para a infraestrutura que guarda e movimenta os ativos.

O episódio do USDC com o Silicon Valley Bank mostrou essa tensão. Em 2023, a Circle informou que US$ 3,3 bilhões das reservas do USDC estavam no banco, cerca de 8% do total. O anúncio provocou saques e levou a stablecoin a cair temporariamente para cerca de US$ 0,87.

A intervenção das autoridades americanas para proteger os depositantes ajudou a restaurar a paridade.

O paradoxo das reservas de stablecoins

A regulamentação tenta tornar as stablecoins mais previsíveis: reservas líquidas, patrimônio segregado, custódia controlada e divulgação periódica.

Mas essa segurança depende justamente de instituições e mercados que existem fora da blockchain.

Quanto mais o sistema exige ativos conservadores e resgatáveis, mais ele conecta o dinheiro digital à infraestrutura financeira tradicional. A blockchain pode registrar o token 24 horas por dia, mas o dólar que sustenta esse token ainda precisa estar em algum lugar — e esse lugar também tem risco.

Para quem usa stablecoins, portanto, olhar apenas para a paridade de US$ 1 é insuficiente. A pergunta é o que sustenta esse dólar, onde está a reserva e com que frequência alguém independente consegue verificar essa informação.

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Luíza Nunes
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Luíza Nunes