Satoshi Nakamoto, criador pseudônimo do Bitcoin, é apontado como dono de quase 1,1 milhão de BTC. Só que esse número não vem de uma pessoa identificada. Ele nasce do rastreamento de uma operação de mineração bem específica.

A estimativa também não é exata: ela varia em mais de 200 mil bitcoins, dependendo do rigor aplicado ao teste da “impressão digital” dessa mineração.

A diferença ganhou peso quando 600 BTC minerados em 2010 foram movimentados após 16 anos parados. Surgiu a suspeita de que as moedas de Satoshi tinham voltado a circular.

Eram 12 recompensas de bloco, geradas ao longo de quatro dias em março de 2010. Em 5 de setembro, quem controla as chaves privadas gastou todas, uma por uma, em até meia hora. O valor chegou a US$ 46 milhões.

Mas isso não significa que o autor da transação seja Satoshi. A Whale Alert, plataforma de monitoramento onchain, não encontrou ligação entre esses 600 BTC e as moedas atribuídas ao criador do Bitcoin.

A Bitquery, empresa de pesquisa em blockchain, foi além. Dos 12 blocos, 10 não seguem o padrão de mineração associado a Satoshi, conhecido como “Patoshi”. Os outros dois têm correspondência fraca, do tipo que poderia surgir por acaso, segundo o pesquisador Gaurav Agrawal.

As recompensas saíram de uma única máquina, e quem as gastou controlava as chaves privadas. Agrawal destaca o limite dessa evidência:

“What the chain cannot say is whether the hand in 2026 belongs to the person who ran the machine in 2010.”

Em tradução livre: a blockchain não informa se quem mexeu nas moedas em 2026 é a mesma pessoa que operava a máquina em 2010.

Chaves privadas podem ser herdadas, vendidas, roubadas ou recuperadas de um disco antigo achado em uma loja de usados. Para Agrawal, a rede registra apenas que alguém tinha acesso a elas.

Além disso, as transações usaram um software de carteira moderno, que o cliente de 2010 não teria como gerar. Ou seja, as chaves foram carregadas, no mínimo, em algo novo.

Então, de onde vem a ideia de que o 1,1 milhão de BTC pertence a Satoshi Nakamoto? De evidências circunstanciais. Em 2013, o pesquisador Sergio Demian Lerner identificou nos primeiros blocos do Bitcoin uma assinatura peculiar. Um minerador operava sua máquina de forma diferente dos demais, e esse comportamento podia ser seguido ao longo de milhares de blocos.

Lerner estimou que esse minerador acumulou cerca de 1,1 milhão de BTC. Mais de uma década depois, ele mantém o cálculo. À Magazine, afirmou que a estimativa é correta, com a ressalva de que a evidência é circunstancial: não há prova matemática nem testemunha direta.

Segundo ele, a ligação com Satoshi vai além da assinatura de mineração. Usuários do início do Bitcoin, como Hal Finney, Dustin D. Trammell, Nicholas Bohm e Mike Hearn, receberam transferências feitas a partir de recompensas de bloco (coinbases) no padrão Patoshi. Para Lerner, isso reforça a tese de que Patoshi e Satoshi são a mesma pessoa, embora não a comprove.

Lerner também aponta que o minerador parece ter usado um software especializado, e não o cliente padrão, provavelmente criado antes do lançamento do Bitcoin. Por isso, ele considera altamente improvável que outro minerador tenha montado uma estrutura funcional nas poucas horas entre o anúncio da versão 0.1 e a mineração do primeiro bloco.

Treze anos depois, a Bitquery refez a impressão digital a partir dos blocos brutos. A empresa avaliou 54.316 blocos do início do Bitcoin e seguiu cada moeda até 1º de setembro de 2026.

Na reconstrução de maior grau, há concordância de 99,2% com a lista pública do Patoshi. Um teste de ordenação de timestamps em 5.836 pares de blocos vizinhos não teve nenhuma exceção. Agrawal resume: “I don’t know of a stronger test for this.” (Em tradução livre: não conheço teste mais forte para isso.)

Quantos bitcoins Satoshi Nakamoto teria? O número muda conforme o critério

Apesar da solidez do método, o 1,1 milhão de BTC é menos exato do que parece. Aplicado de forma estrita, o teste cobre pouco menos de 0,9 milhão de BTC, diz Agrawal. Na leitura mais generosa, o total chega a cerca de 1,17 milhão.

Isso não desmente Lerner. As estimativas publicadas, de 1,0 a 1,13 milhão, ficam dentro dessa faixa, e por isso a Bitquery afirma que não mudou o número. O que a análise mostra é que o tamanho do estoque depende de como o padrão é aplicado.

Agrawal resume que dizer que Satoshi Nakamoto possui 1,1 milhão de BTC é juntar três afirmações. A de que as moedas saíram de uma única máquina tem evidência forte. A de que a máquina era de Satoshi é circunstancial. E a de que as chaves continuam com ele não pode ser comprovada só porque as moedas nunca se mexeram.

A Bitquery encontrou ainda uma transação de 2010 que, segundo a empresa, não aparece em nenhum estudo publicado. Em 17 de maio de 2010, 600 BTC de recompensas antigas de mineração foram movidos em duas transações, com cerca de uma hora de intervalo.

A primeira, às 22h04 UTC, gastou 10 recompensas de bloco, somando 500 BTC. A segunda, às 23h07 UTC, gastou outras duas, num total de 100 BTC.

Essas moedas foram mineradas em momentos diferentes de 2009, inclusive perto do início e do fim do primeiro ano do Bitcoin. Para Agrawal, isso importa porque é o momento mais claro em que a própria cadeia, e não um padrão estatístico, indica que esses blocos pertencem ao mesmo grupo.

Segundo ele, é o mais perto que a blockchain chega de confirmar que blocos de todo o ano de 2009 estavam na mesma carteira. É justamente o que o padrão alega para o conjunto inteiro.

Ou seja, sabemos que quem controlava essas chaves tinha acesso a recompensas mineradas ao longo de 2009. Quem era essa pessoa, não.

Já os 600 BTC movimentados em setembro não pertencem ao minerador Patoshi, e não há nova evidência que os conecte ao estoque atribuído a Satoshi Nakamoto. Nas palavras de Agrawal: “nothing in the math settles it, so we will never be sure.” (Em tradução livre: nada na matemática resolve isso, então nunca teremos certeza.)

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Luíza Nunes
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