O boom dos NFTs transformou a ideia de propriedade digital em um dos maiores fenômenos do mercado cripto. Em 2021, a Christie’s vendeu um NFT de Beeple por US$ 69,35 milhões, enquanto a Sotheby’s arrecadou US$ 24,40 milhões com 101 NFTs do Bored Ape Yacht Club.

O problema é que comprar o token nunca significou, necessariamente, controlar todos os elementos necessários para manter a obra acessível.

O encerramento da Nifty Gateway, marketplace de NFTs pertencente à corretora Gemini, colocou essa questão no centro da discussão. A empresa anunciou o fechamento em janeiro enquanto a controladora decidiu concentrar seus esforços em seu aplicativo financeiro principal.

Como parte da saída, a plataforma planejou uma ferramenta para retirada em massa dos ativos e uma estrutura para continuar hospedando as obras.

A medida expõe uma fragilidade pouco discutida durante a febre dos NFTs: o token, a imagem e o serviço que permite visualizar esse conteúdo podem ter ciclos de vida completamente diferentes.

NFTs podem continuar na blockchain enquanto a obra desaparece da tela

Em muitos NFTs da rede Ethereum, o padrão ERC-721 registra quem é o proprietário de cada token e permite sua transferência. Esse registro permanece na blockchain, mas o arquivo visual normalmente está em outro lugar.

O token costuma apontar para um arquivo de metadados, que reúne informações como nome da obra e o endereço onde estão armazenados imagem ou vídeo. A carteira acessa esses dados e monta a representação que o usuário vê.

Isso cria uma diferença importante. Transferir um NFT para uma carteira própria significa assumir o controle do token, mas não significa baixar automaticamente a obra ou assumir o servidor responsável por disponibilizá-la.

No caso da Nifty Gateway, a empresa informou que pretendia transferir registros descritivos e arquivos de mídia para a Arweave, uma rede voltada ao armazenamento de longo prazo. Alguns NFTs criados em 2021 ou antes, porém, tinham seus registros permanentemente ligados aos servidores da própria plataforma.

A empresa afirmou que manteria esse armazenamento de metadados indefinidamente e ampliou o prazo para retirada dos ativos até 23 de abril.

O caso mostra como um link considerado permanente pode continuar dependendo da empresa que mantém aquele endereço funcionando. O token pode permanecer intacto na blockchain enquanto o acesso à obra depende de decisões tomadas fora dela.

O mesmo vale para sistemas distribuídos. O IPFS, utilizado para armazenar conteúdos associados a NFTs, identifica os dados pelo próprio conteúdo e permite que diferentes computadores mantenham cópias verificáveis.

Mas estar no IPFS não garante que alguém continuará armazenando determinado arquivo. O mecanismo conhecido como pinning serve justamente para indicar que um computador deve manter aquele conteúdo. Essa retenção pode ficar a cargo do próprio usuário ou de um serviço pago.

Por isso, um NFT que deixou de carregar na carteira não necessariamente perdeu sua imagem. O problema pode estar apenas no caminho usado para acessar o arquivo.

Gateways do IPFS funcionam como intermediários que buscam o conteúdo para o usuário. Um gateway pode falhar mesmo quando existe uma cópia disponível em outro lugar. Porém, se ninguém manteve os dados, trocar o endereço de acesso não resolve o problema.

O custo de manter NFTs pode durar mais que o ciclo de vendas

Existem outras formas de estruturar NFTs, como armazenar os dados diretamente na blockchain ou utilizar redes projetadas para financiar a retenção de arquivos por períodos mais longos.

Cada modelo cria dependências diferentes. No armazenamento on-chain, a continuidade depende da própria blockchain. Em redes de armazenamento, entram em cena os incentivos econômicos que mantêm os provedores envolvidos.

Em todos os casos, existe uma questão que o boom de 2021 deixou em segundo plano: vender uma obra gera receita no momento da compra, enquanto preservar seus arquivos exige trabalho durante todo o período em que alguém quiser mantê-los acessíveis.

Mesmo um sistema barato precisa de alguém para verificar se os arquivos continuam funcionando, manter cópias e organizar uma alternativa caso o provedor original abandone o serviço.

Essa responsabilidade pode ser assumida pelos próprios colecionadores. Mas, nesse cenário, a promessa de propriedade digital também vem acompanhada de uma tarefa menos glamourosa: saber onde os arquivos estão, como recuperá-los e quem será responsável por mantê-los no futuro.

Instituições de preservação já tratavam dessas questões enquanto o mercado registrava seus maiores preços. Em dezembro de 2021, uma discussão publicada pelo LACMA reuniu o gerente de preservação digital Joey Heinen e o cientista da computação Elian Carsenat para discutir software, armazenamento e a responsabilidade contínua de manter obras em NFT acessíveis.

O problema também existe fora da blockchain. Em 2016, o MoMA relatou a restauração de Lovers, de Teiji Furuhashi, que envolveu tecnologias obsoletas como MS-DOS e LaserDiscs.

Nesse tipo de obra, preservar os arquivos não basta. Também é necessário manter as condições para que o trabalho continue funcionando como foi concebido.

Isso ajuda a colocar em perspectiva outra discussão recorrente dos NFTs: a existência de cópias não elimina necessariamente o valor do token. Uma pessoa pode reproduzir a imagem sem assumir a propriedade registrada na blockchain.

Ao mesmo tempo, manter uma cópia pode ser justamente o que permite que a obra continue existindo no futuro.

Para colecionadores, a lição é mais prática do que tecnológica. O ativo pode estar registrado corretamente na blockchain e ainda depender de servidores, gateways, arquivos externos e pessoas dispostas a manter toda essa estrutura funcionando.

A promessa de propriedade digital era simples de vender. A parte mais difícil sempre seria garantir que, anos depois, ainda houvesse alguém responsável por abrir o arquivo.

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Luíza Nunes
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Luíza Nunes