Uma stablecoin pode ser criada para representar um dólar, mas isso não significa que cada negociação aconteça exatamente a US$ 1. Em uma corretora ou em um protocolo DeFi, o preço continua sendo definido por compradores e vendedores — e pode oscilar alguns centavos.

O que impede que essa cotação se afaste demais?

Em modelos bem estruturados, existem mecanismos econômicos que criam incentivos para aproximar o preço da referência. Eles envolvem reservas ou garantias, emissão e resgate e, principalmente, a confiança de que esse circuito continuará funcionando quando houver pressão.

A paridade das stablecoins é, portanto, menos uma trava contra a volatilidade e mais um sistema de forças que trabalha continuamente para manter o preço próximo do alvo.

Por que as stablecoins podem oscilar sem perder a paridade

Quando uma stablecoin tem o dólar como referência, pequenas oscilações fazem parte da negociação normal. Um preço de US$ 0,998 ou US$ 1,002 ainda está muito próximo da paridade.

Por isso, muitas stablecoins operam com um soft peg, ou paridade flexível. A meta é permanecer em uma faixa estreita em torno do valor de referência, e não impedir matematicamente qualquer variação.

O problema começa quando essa diferença cresce e permanece. Um depeg é uma perda relevante da paridade. Mais importante do que o primeiro movimento é saber se existe um mecanismo capaz de trazer o preço de volta.

É aí que entram as duas engrenagens centrais.

Duas forças mantêm o preço próximo do dólar

A primeira é a existência de algo que dê ao token uma referência econômica. Nas stablecoins lastreadas em moeda fiduciária, isso normalmente significa reservas em dinheiro e ativos líquidos, como títulos públicos de curto prazo.

A segunda é a possibilidade de transformar uma diferença de preço em uma oportunidade de arbitragem.

Imagine uma stablecoin que deveria valer US$ 1, mas começa a ser negociada a US$ 0,99. Um participante com acesso ao processo de resgate pode comprar o token no mercado por US$ 0,99 e trocá-lo com o emissor pelo valor nominal, capturando a diferença.

A operação cria demanda pelo token quando ele está barato e ajuda a empurrar sua cotação de volta para cima.

O movimento inverso também acontece. Se a stablecoin chegar a US$ 1,01, participantes com acesso à emissão podem obter tokens pelo valor nominal e vendê-los no mercado por mais. O aumento da oferta tende a pressionar o preço de volta para US$ 1.

Esse mecanismo detalha por que a paridade depende de mais do que simplesmente “ter um dólar guardado”. É preciso existir uma ponte funcional entre o token e esse valor.

No caso do USDC, por exemplo, a Circle informa que o ativo é respaldado por dinheiro e equivalentes de caixa e permanece resgatável 1:1 por dólares dentro de sua estrutura de resgate. A empresa também divulga informações sobre suas reservas.

Quando o lastro existe, mas o mercado perde a confiança

Aqui aparece uma distinção relevante no entendimento das stablecoins: solvência e liquidez não são a mesma coisa.

Uma emissora pode ter ativos suficientes para cobrir os tokens em circulação e, ainda assim, enfrentar dificuldades para transformar esses ativos em dinheiro imediatamente. Para quem está negociando a stablecoin, essa diferença pode ser decisiva.

O episódio do USDC durante a crise do Silicon Valley Bank deixou isso evidente. A Circle informou que US$ 3,3 bilhões das reservas do USDC estavam no banco. A incerteza provocou uma onda de resgates e levou o USDC temporariamente para cerca de US$ 0,87, segundo o Federal Reserve. O ativo posteriormente voltou para perto de US$ 1.

O caso não mostrou apenas o risco bancário. Mostrou algo mais estrutural: o mercado precisa acreditar que o mecanismo de resgate continuará acessível justamente quando houver uma corrida para sair do ativo.

Por isso, uma stablecoin pode estar totalmente lastreada e ainda sofrer um depeg temporário. A garantia econômica pode continuar existindo enquanto a infraestrutura necessária para acessá-la está sob pressão.

Como diferentes stablecoins mantêm a paridade

As diferentes arquiteturas tentam resolver o mesmo problema — manter um ativo perto de seu valor de referência, usando instrumentos distintos.

Nas stablecoins lastreadas em moeda fiduciária, como USDC e USDT, a âncora está principalmente nas reservas mantidas pelo emissor. O desenho é relativamente direto: os tokens em circulação correspondem a ativos que sustentam o valor de resgate.

Nas stablecoins sobrecolateralizadas, o respaldo vem de outros ativos cripto depositados em contratos inteligentes. O usuário fornece uma quantidade de garantia superior ao valor emitido, criando uma margem contra a volatilidade. No protocolo Sky, por exemplo, posições que caem abaixo dos parâmetros de garantia podem ser liquidadas para ajudar a preservar a solvência do sistema e o peg do USDS.

Modelos algorítmicos tentam defender a paridade principalmente por regras de oferta e incentivos. O problema é que, quando a confiança diminui, o mecanismo desenhado para estabilizar o preço pode passar a reforçar a queda.

TerraUSD mostrou esse risco de forma extrema. Em maio de 2022, a arquitetura baseada em incentivos e em seu token associado LUNA entrou em uma espiral de perda de confiança e valor. O episódio se tornou um exemplo de como retirar reservas tradicionais não elimina o problema econômico da paridade — apenas onde está o risco.

Já os modelos de stablecoins sintéticos, como o USDe da Ethena, usam outra abordagem. O sistema combina ativos de garantia com posições em derivativos destinadas a neutralizar a exposição ao preço. Parte da receita pode vir das taxas de financiamento de contratos perpétuos, que variam conforme as condições do mercado e podem se tornar um custo.

Um mecanismo pode funcionar bem em determinadas condições e enfrentar uma dinâmica muito diferente quando o custo do hedge aumenta.

US$ 1 é o resultado, não o mecanismo por trás das stablecoins

Stablecoins não são estáveis porque seu preço foi simplesmente declarado como US$ 1.

É preciso haver algo por trás desse valor e, principalmente, um mecanismo que funcione quando o preço começa a se afastar da referência. Pode ser uma reserva em ativos líquidos, uma garantia em cripto, um sistema de incentivos ou uma estratégia com derivativos. O desenho muda, e os riscos também.

Por isso, olhar apenas para a cotação não diz tudo sobre as stablecoins. Duas podem passar meses próximas de US$ 1 e depender de estruturas completamente diferentes para chegar ao mesmo resultado.

É no momento em que o mercado deixa de estar calmo que fica claro se as reservas podem ser acessadas, se os resgates funcionam e se ainda existem incentivos para que alguém compre o token quando outros estão tentando vendê-lo.

É isso que, na prática, sustenta uma paridade, não a promessa de que uma stablecoin vale US$ 1, mas a capacidade de continuar oferecendo esse valor quando ele é mais necessário.

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Luíza Nunes
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Luíza Nunes