Duas stablecoins podem valer US$ 1 e, ainda assim, depender de estruturas completamente diferentes para chegar a esse preço.
Uma pode ter reservas em dinheiro ou títulos. Outra pode exigir mais criptomoedas em garantia do que o valor dos tokens emitidos. Um terceiro modelo pode tentar manter a paridade apenas com regras programadas e incentivos econômicos.
Essa é a diferença que está por trás dos tipos de stablecoins.
Para quem olha apenas a cotação, todas parecem cumprir a mesma função: oferecer um ativo digital com menos volatilidade. Mas o mecanismo usado para manter essa estabilidade determina onde estão os riscos — e o que acontece quando o mercado deixa de confiar nele.
Quais são os tipos de stablecoins e o que muda entre eles?
A divisão mais útil começa pelo ativo ou mecanismo que sustenta o token.
As stablecoins lastreadas em moeda fiduciária usam reservas em dinheiro e equivalentes de caixa para tentar acompanhar moedas como o dólar ou o euro.
As stablecoins lastreadas em criptomoedas usam outros criptoativos como colateral, geralmente com uma margem adicional para compensar a volatilidade. As algorítmicas procuram manter o preço por meio de regras de emissão, queima e incentivos de mercado. E existem stablecoins ligadas a ativos físicos, como metais preciosos.
O objetivo é semelhante. A engenharia por trás dele, não.
Stablecoins lastreadas em moeda fiduciária colocam a reserva fora da blockchain
USDT e USDC são exemplos conhecidos desse modelo. A lógica é direta: para cada unidade emitida, a empresa responsável afirma manter ativos de reserva suficientes para sustentar seu valor, como dinheiro ou títulos de alta liquidez.
Na prática, isso cria uma ponte entre dois mundos. O token circula em uma blockchain, mas parte importante da confiança no sistema depende de ativos mantidos fora dela.
Essa arquitetura tem uma vantagem óbvia: é mais fácil entender o que deveria sustentar a paridade. Mas também cria uma dependência. O usuário precisa confiar no emissor, na qualidade das reservas, na custódia desses ativos e na transparência usada para demonstrar que eles realmente existem.
É por isso que “lastreada em dólar” não significa “sem risco”. Uma stablecoin desse tipo pode continuar próxima de US$ 1 na maior parte do tempo e, ainda assim, carregar riscos ligados à instituição que administra a reserva.
Nas stablecoins de cripto, a própria garantia pode perder valor
Aqui, o mecanismo muda completamente.
Em vez de depender de dólares ou títulos mantidos por uma empresa, uma stablecoin colateralizada por cripto utiliza ativos digitais depositados como garantia. Como Bitcoin, Ether e outros criptoativos oscilam bastante, o sistema costuma exigir mais valor em colateral do que o montante de stablecoins criado.
Um exemplo simples ajuda: se a regra exigir 150% de garantia, seriam necessários US$ 150 em cripto para emitir US$ 100 em stablecoins.
DAI é o exemplo mais conhecido desse modelo. A lógica da sobrecolateralização funciona como uma margem de segurança: se o preço do colateral cair, ainda existe uma reserva de valor relativamente maior por trás do token.
Mas essa proteção tem um limite. Em uma queda muito rápida, a margem pode desaparecer e posições podem ser liquidadas automaticamente. O que parecia uma arquitetura mais descentralizada passa a depender da qualidade do colateral, da velocidade das liquidações e do funcionamento dos mecanismos do protocolo.
Para reduzir a dependência de uma instituição central, o sistema precisa manter mais garantia.
Stablecoins algorítmicas tentam manter o preço sem uma reserva convencional
O desenho algorítmico leva a ideia de estabilidade por outro caminho.
Em vez de depender principalmente de uma reserva de dinheiro ou de criptoativos sobrecolateralizados, esses projetos usam regras programadas e incentivos econômicos para ajustar a oferta e tentar manter o preço do token.
O problema é que código não cria demanda.
Enquanto o mercado acredita no mecanismo, os incentivos podem funcionar. Quando a confiança desaparece e muitos participantes tentam sair ao mesmo tempo, porém, o mesmo sistema pode ter dificuldade para recuperar a paridade.
O colapso da TerraUSD mostrou esse risco de forma extrema. O descolamento do dólar desencadeou uma venda em massa e também derrubou o token Luna ligado ao ecossistema, destruindo mais de US$ 40 bilhões em valor de mercado em questão de dias.
O episódio ficou como um lembrete de que descentralização e transparência do código não substituem automaticamente uma fonte robusta de valor para sustentar uma paridade.
Nem toda stablecoin usa uma moeda como referência
Existe ainda uma categoria menor, mas conceitualmente importante: stablecoins lastreadas em ativos físicos.
Paxos Gold e Tether Gold, por exemplo, são tokens concebidos para representar exposição a ouro mantido como reserva física. Nesse caso, a promessa de estabilidade não depende do dólar em si, mas do comportamento e da custódia do ativo que serve como lastro.
Isso amplia a ideia de stablecoin. O objetivo não precisa ser reproduzir uma moeda fiduciária; pode ser transformar um ativo relativamente estável em uma unidade negociável em blockchain.
A estabilidade muda de forma, e o risco muda junto
O erro mais fácil ao comparar stablecoins é perguntar qual delas “é segura” como se existisse uma única fonte de risco.
Não existe.
Nas stablecoins lastreadas em moeda fiduciária, o ponto crítico está nas reservas, na custódia e no emissor. Nas cripto-colateralizadas, a atenção se desloca para a volatilidade do colateral e para os mecanismos de liquidação. Nas algorítmicas, a estabilidade depende muito mais da demanda e dos incentivos que mantêm o sistema funcionando. Nas lastreadas em ativos físicos, entra em cena a relação entre o token, a reserva e a custódia do bem.
Em outras palavras, cada modelo resolve um problema criando outro.
É justamente por isso que conhecer os tipos de stablecoins vale mais do que decorar siglas. Quando uma nova stablecoin surgir, a pergunta mais útil não será apenas “quanto ela vale?”, mas “o que sustenta esse valor se o mercado entrar em estresse?”.
Essa resposta costuma dizer muito mais sobre a estabilidade de um token do que o próprio nome stablecoin.



