Em fevereiro de 2025, a Bybit sofreu o maior roubo já registrado contra uma empresa de cripto. Aproximadamente US$ 1,5 bilhão em ativos digitais foram retirados de uma de suas carteiras em um ataque que o FBI atribuiu à Coreia do Norte.
Um ano e meio depois, a resposta da exchange ajuda a mostrar como a inteligência artificial está mudando a lógica da segurança no setor.
No primeiro semestre de 2026, a Bybit afirma ter bloqueado mais de 30 mil solicitações suspeitas de saque, envolvendo quase 20 mil usuários e mais de US$ 700 milhões em potenciais perdas. Segundo a companhia, a análise inicial dessas operações levou em média 4,7 minutos, e 95% dos casos foram avaliados em menos de dez minutos.
A mudança também chegou à busca por vulnerabilidades.
Ferramentas assistidas por IA passaram a encontrar falhas de alta gravidade em frequência até cinco vezes maior do que revisões manuais e reduziram determinados ciclos de testes de cerca de duas semanas para duas horas. A empresa afirma ainda que seus sistemas analisaram quase 1.500 ativos e processaram mais de 100 mil alertas.
Os números são fornecidos pela própria Bybit e não significam que todas essas perdas teriam necessariamente ocorrido sem os sistemas de defesa., mas a velocidade revelada por eles aponta para uma transformação maior.
A segurança cripto está deixando de depender apenas de quem consegue encontrar uma vulnerabilidade, cada vez mais, depende de quem consegue encontrá-la primeiro.
A IA acelerou os dois lados da disputa
A diferença entre descobrir uma vulnerabilidade antes ou depois do atacante sempre existiu, a inteligência artificial está comprimindo esse intervalo.
Modelos avançados conseguem analisar grandes volumes de código, procurar padrões suspeitos e automatizar partes da identificação de falhas muito mais rapidamente do que equipes humanas trabalhando sozinhas.
O problema é que essa capacidade não pertence apenas aos defensores.
As mesmas ferramentas podem ajudar atacantes a procurar vulnerabilidades, automatizar etapas de exploração e ampliar o número de sistemas que conseguem analisar, isso cria uma dinâmica diferente.
Se encontrar falhas ficou mais rápido, defender sistemas também precisa ficar.
A preocupação já levou mais de 40 organizações ligadas aos ativos digitais, incluindo Coinbase, Block e BitGo, a pedir aos grandes laboratórios de IA acesso controlado e antecipado aos modelos mais avançados para pesquisadores de segurança.
O argumento dessas empresas é que defensores não podem enfrentar atacantes utilizando ferramentas menos capazes, a corrida, portanto, já começou.
Auditorias estão deixando de ser eventos isolados
Existem sinais de que essa mudança vai além das exchanges.
Uma auditoria assistida por IA realizada em centenas de projetos relacionados ao ecossistema Bitcoin produziu quase 5 mil achados de segurança em pouco mais de um dia, incluindo dezenas inicialmente classificados como críticos.
Isso não significa que a IA tenha descoberto milhares de vulnerabilidades exploráveis.
Resultados automatizados ainda precisam ser revisados por especialistas. Modelos podem produzir falsos positivos, interpretar incorretamente determinados contextos ou deixar passar problemas relevantes.
Mas esse limite não elimina o ganho mais importante, a IA permite procurar em mais código, com maior frequência e em menos tempo e isso começa a mudar a própria arquitetura da segurança.
Tradicionalmente, uma auditoria poderia acontecer antes do lançamento de um protocolo ou após uma grande atualização. O código era analisado, vulnerabilidades eram corrigidas e uma nova revisão aconteceria posteriormente.
Esse modelo não desaparece, mas começa a ser complementado por sistemas capazes de procurar problemas continuamente.
A segurança deixa de ser apenas uma inspeção periódica e se aproxima de uma operação permanente.
O hack da Bybit mostrou onde o tempo pode fazer diferença
O ataque contra a Bybit ajuda a explicar por que essa mudança importa para cripto.
Os invasores não quebraram o Ethereum. O ataque ocorreu durante uma transferência entre carteiras e explorou a infraestrutura utilizada para autorizar a operação, manipulando aquilo que os signatários acreditavam estar aprovando.
É exatamente esse tipo de ambiente que torna a defesa complexa.
Uma grande exchange precisa proteger código, carteiras, interfaces, usuários e processos internos enquanto milhares de operações acontecem continuamente.
Não existe um único ponto que possa ser auditado uma vez e considerado permanentemente seguro, a resposta da Bybit está sendo construída ao redor dessa realidade.
IA ajuda a procurar vulnerabilidades antes que sejam exploradas. Sistemas automatizados analisam operações suspeitas enquanto elas acontecem. Especialistas entram no processo quando é necessário validar riscos e decidir como responder.
O objetivo não é retirar humanos da segurança, é reduzir o tempo entre identificar um sinal e conseguir agir sobre ele.
Segurança está se tornando uma competição por tempo
A inteligência artificial não torna exchanges imunes a ataques, ela também não garante que defensores encontrarão vulnerabilidades antes dos invasores. Pelo contrário, quanto mais capazes os modelos se tornam, mais ferramentas os dois lados recebem.
É justamente por isso que a velocidade passa a importar tanto.
O maior hack da história cripto mostrou que bilhões de dólares podem ficar expostos a uma única cadeia de falhas. A resposta da Bybit mostra uma indústria tentando reduzir o intervalo disponível para que algo semelhante aconteça novamente.
Auditorias continuam importantes. Especialistas continuam necessários. Sistemas de custódia continuam precisando de múltiplas camadas de proteção.
O que está mudando é o relógio.
Quando máquinas conseguem procurar falhas continuamente, descobrir uma vulnerabilidade já não é suficiente, a vantagem passa a pertencer a quem consegue encontrá-la, entendê-la e reagir antes do outro lado.
A Bybit perdeu US$ 1,5 bilhão quando os atacantes chegaram primeiro.
Agora está construindo sua defesa para tentar garantir que, na próxima vez, sejam seus sistemas que cheguem antes.


