O yuan digital foi criado para modernizar o dinheiro. Sua evolução mais recente, porém, está reforçando o papel de uma instituição muito mais antiga: os bancos.
Em 2026, o Banco Popular da China triplicou o número de bancos integrados diretamente ao e-CNY. Eram dez no início do ano. Doze instituições entraram em abril e outras oito foram adicionadas agora, elevando o total para 30.
Ao mesmo tempo, uma mudança mais importante aconteceu dentro das próprias carteiras.
Desde janeiro, saldos verificados de e-CNY mantidos por clientes de bancos comerciais podem pagar juros. Esses valores passaram a integrar a gestão de ativos e passivos das instituições e receberam proteção do sistema de seguro de depósitos.
Isso aproxima o yuan digital de algo que originalmente deveria permanecer distinto: um depósito bancário.
A mudança não significa que a China esteja abandonando seu CBDC, pelo contrário, o país está tentando ampliar sua utilização, mas a estratégia escolhida revela algo importante sobre como uma moeda digital de banco central pode alcançar escala.
Em vez de contornar os bancos, a China está incorporando-os cada vez mais profundamente ao sistema.
O yuan digital nunca foi criado para eliminar os bancos
A China adotou desde o início uma arquitetura de dois níveis para o e-CNY.
O Banco Popular da China emite a moeda e administra sua infraestrutura central. Bancos comerciais e outras instituições autorizadas cuidam da relação com os usuários, incluindo abertura de carteiras, pagamentos e procedimentos de identificação e compliance.
Essa divisão foi deliberada.
Um CBDC distribuído diretamente pelo banco central poderia competir com depósitos bancários. Se famílias e empresas transferissem grandes quantidades de dinheiro de suas contas para carteiras mantidas diretamente no PBoC, os bancos poderiam perder uma importante fonte de financiamento.
O risco seria ainda maior durante crises, quando a possibilidade de mover dinheiro instantaneamente para um ativo garantido pelo banco central poderia acelerar corridas bancárias.
O modelo chinês evitou esse problema mantendo os intermediários dentro da arquitetura, o que está acontecendo agora é um passo além.
Os bancos deixam de funcionar apenas como distribuidores do e-CNY e passam a incorporar seus saldos mais diretamente à própria operação financeira.
Juros mudam a relação entre o e-CNY e os depósitos
Originalmente, o yuan digital funcionava economicamente de maneira semelhante ao dinheiro físico, ele era um passivo do banco central, classificado como M0 e não pagava juros, isso criava uma separação clara.
O usuário poderia manter e-CNY para pagamentos ou deixar dinheiro depositado em um banco e receber rendimento.
Desde janeiro, essa fronteira ficou menos definida.
Saldos verificados de e-CNY podem ser remunerados pelos bancos e recebem proteção do seguro de depósitos. Para o usuário, isso reduz uma das diferenças econômicas entre manter dinheiro digital e manter recursos em uma conta bancária.
Para os bancos, a mudança é igualmente importante.
Promover o yuan digital já não significa simplesmente direcionar clientes para uma infraestrutura monetária paralela. Esses recursos podem permanecer integrados à relação financeira que a instituição mantém com o cliente.
A China encontrou, assim, uma maneira de alinhar os incentivos.
Para expandir o e-CNY, não precisa pedir aos bancos que ajudem a construir algo que possa enfraquecê-los, pode fazê-los participar economicamente dessa expansão.
De 10 para 30 bancos
A velocidade da expansão neste ano mostra a importância dessa estratégia, o número de instituições diretamente integradas ao yuan digital passou de 10 para 30 em poucos meses.
Isso significa que mais clientes podem acessar o e-CNY por meio de instituições com as quais já possuem uma relação financeira, sem que o banco central precise construir sozinho uma enorme infraestrutura de varejo.
A rede bancária oferece algo que tecnologia monetária, por si só, não cria: distribuição.
Os bancos já possuem clientes, sistemas de identificação, estruturas de compliance, aplicativos e integração com outros produtos financeiros.
Utilizar essa infraestrutura permite ao PBoC concentrar-se na emissão e na arquitetura central da moeda enquanto instituições comerciais administram grande parte da relação com o usuário e essa distribuição importa porque o desafio do yuan digital já não parece ser simplesmente provar que a tecnologia funciona.
Até novembro de 2025, o e-CNY havia processado 3,48 bilhões de transações, movimentando 16,7 trilhões de yuans, cerca de US$ 2,4 trilhões.
A China já demonstrou que consegue operar uma CBDC em enorme escala.
O problema é torná-la necessária em uma economia onde pagamentos digitais já estavam profundamente estabelecidos antes de sua chegada.
Alipay e WeChat Pay não deixaram um grande problema de pagamentos esperando para ser resolvido.
O e-CNY precisa encontrar seu próprio espaço dentro de uma infraestrutura que já funciona, os bancos podem ajudar a criá-lo.
Digitalizar o dinheiro não elimina automaticamente o intermediário
A experiência chinesa começa a oferecer uma resposta interessante para uma das questões mais antigas sobre CBDCs.
A tecnologia permite que um banco central estabeleça uma relação muito mais direta com quem utiliza sua moeda.
Isso não significa que essa seja necessariamente a melhor arquitetura financeira.
Bancos não servem apenas para movimentar unidades monetárias. Eles administram depósitos, conhecem clientes, executam compliance, distribuem produtos e conectam diferentes partes do sistema financeiro.
Transformar o yuan em um ativo digital não elimina essas funções.
A China parece estar chegando a uma divisão mais pragmática, o banco central controla a moeda e sua infraestrutura central, os bancos distribuem essa moeda e mantêm a relação financeira com os usuários.
O resultado é menos radical do que algumas das primeiras visões sobre CBDCs sugeriam, mas talvez seja justamente por isso que possa funcionar em escala.
O yuan digital não está substituindo a infraestrutura bancária, está sendo incorporado a ela.
A experiência chinesa começa a mostrar que digitalizar o dinheiro pode mudar profundamente a forma como ele circula sem necessariamente mudar quem fica entre o banco central e quem o utiliza.


