
Um pagamento pode passar por uma stablecoin sem que a pessoa que fez a compra tenha comprado, recebido ou sequer visto uma.
Visa e Lloyds Banking Group concluíram um teste de sete dias no qual o banco utilizou USDC para liquidar US$ 750 mil em obrigações de pagamento com a Visa. Os recursos chegaram à empresa nos Estados Unidos em menos de uma hora, inclusive durante o fim de semana.
Mas o experimento não mudou a maneira como consumidores pagam, ele aconteceu depois.
O foco estava no settlement: o processo de bastidores pelo qual instituições financeiras transferem recursos para concluir e reconciliar pagamentos que já ocorreram.
Essa diferença torna o teste mais interessante.
Stablecoins normalmente são apresentadas como uma nova maneira de pagar. O experimento de Lloyds e Visa aponta para outra possibilidade: elas podem ganhar escala como uma nova maneira de liquidar pagamentos, escondidas na infraestrutura financeira que o consumidor nunca vê.
O cartão não precisa mudar
Quando alguém utiliza um cartão Visa, existe uma série de movimentações financeiras depois que a compra é aprovada.
Bancos, adquirentes e a própria rede precisam calcular e liquidar obrigações entre si. É essa infraestrutura que garante que o dinheiro eventualmente chegue a quem deve recebê-lo.
No teste, o Lloyds utilizou USDC adquirido por meio da Archax, uma exchange de ativos digitais regulada no Reino Unido. As obrigações foram registradas pela filial de Corporate Markets do banco em Jersey e transferidas para a Visa nos Estados Unidos.
Para o consumidor, nada disso precisaria aparecer.
O cartão poderia continuar sendo utilizado da mesma maneira, o preço continuaria expresso em moeda tradicional e o comerciante não precisaria necessariamente receber uma stablecoin.
A mudança ocorre em uma camada diferente.
Em vez de alterar a experiência de pagamento, blockchain passa a disputar espaço na infraestrutura utilizada pelas instituições para acertar as contas depois dele.
A própria Visa já utiliza esse modelo. Em dezembro de 2025, a empresa começou a permitir que determinados emissores e adquirentes nos Estados Unidos liquidassem suas obrigações diretamente em USDC. A companhia destacou justamente que isso poderia ocorrer sem qualquer mudança na experiência do consumidor com o cartão.
O fim de semana explica parte do problema
O teste também expõe uma diferença fundamental entre os dois sistemas.
Blockchain não fecha.
Durante os sete dias do piloto, as transferências chegaram à Visa em menos de uma hora, inclusive no fim de semana. Segundo o Lloyds, processos tradicionais de liquidação internacional podem levar um dia ou mais quando iniciados fora do horário bancário.
Isso não significa que stablecoins automaticamente tornem qualquer pagamento internacional mais rápido ou barato, o experimento analisou uma etapa específica da cadeia.
Mas disponibilidade contínua pode mudar a maneira como instituições administram liquidez.
Se uma obrigação só pode ser liquidada posteriormente, recursos precisam permanecer disponíveis enquanto a instituição espera pela abertura dos sistemas necessários. Quanto maior o intervalo entre a obrigação surgir e sua liquidação, maior pode ser a necessidade de capital mantido para garantir que ela seja cumprida.
Um ativo que circula 24 horas por dia reduz parte dessa dependência do calendário bancário.
É por isso que o benefício de uma stablecoin nessa camada não precisa aparecer como uma experiência mais rápida no caixa de uma loja, ele pode aparecer no balanço das instituições que operam por trás daquele pagamento.
Stablecoins estão começando a resolver um problema de tesouraria
Essa mudança ajuda a explicar por que settlement está se tornando uma das áreas mais relevantes da estratégia da Visa para stablecoins.
Em abril, a empresa afirmou que seu programa de liquidação com stablecoins havia alcançado um volume anualizado de US$ 7 bilhões, depois de crescer 50% em um trimestre. Naquele momento, a Visa expandiu o programa para nove blockchains.
Desde então, a escala continuou aumentando.
Em setembro, a Visa informou que o volume de settlement em stablecoins havia ultrapassado uma taxa anualizada de US$ 20 bilhões entre seus programas ligados a cartões.
Existe uma razão econômica para isso.
Programas de cartões precisam financiar suas obrigações de liquidação. Em estruturas tradicionais, linhas de crédito e movimentações bancárias podem depender de horários comerciais, processos manuais e capital previamente disponibilizado. A própria Visa identifica o financiamento dessas obrigações como uma das limitações para programas de cartões digitais que operam continuamente.
Stablecoins não eliminam a obrigação, elas mudam a infraestrutura pela qual o dinheiro utilizado para cumpri-la pode circular.
Lloyds e Visa também testaram duas blockchains
Existe ainda uma segunda camada no experimento.
O Lloyds utilizou seu próprio nó na Canton Network, uma infraestrutura blockchain voltada ao mercado institucional e com controles configuráveis de privacidade. A Visa, por sua vez, suportou a liquidação em uma blockchain pública separada.
Portanto, o teste não avaliou apenas se uma stablecoin poderia atravessar uma fronteira rapidamente.
Ele também testou se instituições operando em ambientes blockchain diferentes poderiam participar da mesma infraestrutura de settlement.
Isso importa porque o sistema financeiro dificilmente migrará inteiro para uma única rede.
Bancos podem preferir ambientes com controles de privacidade. Empresas de pagamentos podem operar em várias blockchains públicas. Outros participantes podem continuar utilizando sistemas tradicionais.
Nesse cenário, o problema deixa de ser escolher qual blockchain vencerá e passa a ser permitir que dinheiro e informações atravessem essas infraestruturas sem obrigar cada instituição a reconstruir toda sua operação ao redor da mesma tecnologia.
O teste de Lloyds e Visa ainda é pequeno diante do volume movimentado diariamente pelo sistema financeiro e não existe, por enquanto, uma data anunciada para transformar essa arquitetura específica em um serviço comercial amplo.
Mas ele testa uma arquitetura que pode ser mais importante do que seu tamanho sugere.
A adoção pode ficar cada vez menos visível
Durante muito tempo, medir adoção de stablecoins significou procurar pessoas comprando USDT ou USDC, empresas aceitando esses ativos ou consumidores mantendo dólares digitais em carteiras.
Settlement cria outra forma de adoção.
Uma empresa pode receber uma compra em moeda tradicional. Um consumidor pode pagar com o mesmo cartão que já utiliza. Nenhum dos dois precisa possuir uma stablecoin.
Mesmo assim, uma stablecoin pode movimentar o dinheiro entre as instituições responsáveis por concluir aquela transação.
Isso transforma a discussão sobre adoção.
Quanto mais stablecoins forem incorporadas à infraestrutura financeira, menos sua expansão dependerá de convencer consumidores a mudar de comportamento.
Visa e Lloyds não estão tentando substituir o cartão por USDC, estão testando se USDC pode melhorar uma parte da infraestrutura que faz o cartão funcionar.
E talvez seja justamente aí que stablecoins consigam alcançar uma escala muito maior: não aparecendo na frente do sistema de pagamentos, mas desaparecendo dentro dele.









