
Carteiras de hardware são projetadas para proteger criptomoedas mantendo as chaves privadas offline, mas um caso envolvendo dispositivos da Ledger mostrou que essa proteção também depende de quem manuseia o equipamento antes de ele chegar ao comprador.
Na sexta-feira, foram relatadas perdas em criptomoedas relacionadas a dispositivos Ledger vendidos pela CryptoBilis, uma revendedora identificada como autorizada na Indonésia, na Malásia e nas Filipinas. No sábado, a fabricante francesa confirmou que um dos dispositivos afetados continha um implante não autorizado.
Segundo a Ledger, os componentes maliciosos instalados nos aparelhos capturavam as frases de recuperação dos usuários e transmitiam essas informações por redes celulares. Com acesso à frase, um invasor pode comprometer as carteiras correspondentes.
O caso levanta uma questão difícil para quem guarda criptoativos por conta própria: como verificar se um dispositivo é realmente seguro quando parte dos riscos surge antes mesmo de ele chegar às mãos do comprador?
Carteiras de hardware e os limites da inspeção visual
O pesquisador de segurança Joe Grand, conhecido por seu trabalho na recuperação de criptomoedas de carteiras bloqueadas, afirmou que usuários comuns não podem ser responsabilizados por identificar adulterações sofisticadas.
“It’s really hard to explain to people how they’re supposed to look at their devices, because even technical people like me are not looking at every single device to see if it’s been tampered with,” disse Grand ao Cointelegraph.
A dificuldade está na própria cadeia de distribuição. Da fabricante ao fornecedor, passando por todos os intermediários que manuseiam o produto, cada etapa adiciona uma relação de confiança que o consumidor nem sempre consegue verificar.
O analista de criptomoedas Mati Greenspan afirmou que nunca utilizou uma carteira de hardware, apesar de atuar no setor desde 2013. Para ele, o benefício desses dispositivos não justifica necessariamente adicionar outra cadeia de confiança à segurança dos ativos.
Nick Neuman, CEO da empresa de segurança para Bitcoin Casa, reconheceu que eliminar completamente a dependência de terceiros é impossível. “There is always an intermediary you will need to trust”, afirmou. Sua recomendação é distribuir os riscos entre diferentes fornecedores, em vez de depender de apenas um.
A Trezor, concorrente da Ledger, afirmou que seus aparelhos passam por verificações de autenticidade e aceitam apenas firmware assinado digitalmente. A empresa também recomenda conferir a embalagem, o selo de segurança e eventuais marcas incomuns no dispositivo.
Essas medidas, porém, não garantem que o equipamento esteja livre de modificações físicas.
O tipo de implante relatado nos aparelhos da Ledger apresenta uma dificuldade adicional porque, segundo a Trezor, os componentes capturavam informações exibidas na tela sem alterar o firmware. A empresa declarou não ter observado esse tipo de ataque em seus próprios dispositivos.
Na terça-feira, a Trezor anunciou que reduziria o número de revendedores como medida preventiva.
O que pode tornar as carteiras de hardware mais seguras
Grand apontou mudanças de projeto que poderiam dificultar adulterações, como carcaças transparentes que permitam visualizar os componentes internos e estruturas resistentes a intervenções físicas.
Nesse segundo caso, um invasor precisaria recriar o invólucro para esconder alterações no equipamento.
Essas soluções não eliminam o risco, mas podem tornar ataques à cadeia de fornecimento mais difíceis. Para o consumidor, o episódio mostra que comprar de um revendedor autorizado e conferir a embalagem são precauções relevantes, mas insuficientes para comprovar a integridade de uma carteira.
A segurança das criptomoedas, portanto, não depende apenas da tecnologia que mantém as chaves privadas offline. Também envolve os processos de fabricação, distribuição e controle dos dispositivos antes de chegarem ao usuário.








