A USDT, stablecoin atrelada ao dólar da Tether, chegou a ser anunciado com ágio de quase 13% em plataformas de negociação P2P no Paraguai, após a intervenção das autoridades no Ueno Bank. A crise deixou cerca de 3 milhões de clientes temporariamente sem acesso às próprias contas e aumentou a procura por alternativas digitais ao sistema bancário tradicional.

Em alguns anúncios, vendedores pediam até 6.942 guaranis paraguaios por USDT. O valor superava em aproximadamente 13% a cotação de referência do dólar publicada pelo Banco Central do Paraguai em 4 de novembro, de 6.144,02 guaranis.

O movimento ocorreu após o início do processo de resolução do Ueno Bank, em 3 de novembro. A instituição, uma das principais plataformas bancárias digitais do país, havia crescido rapidamente desde seu lançamento, em 2021.

Segundo os dados apresentados na reportagem, o banco afirmava ter 3 milhões de clientes e administrar aproximadamente US$ 850 milhões em recursos do público. Com a intervenção, serviços financeiros foram interrompidos e o acesso às contas temporariamente restringido.

As autoridades começaram a organizar a transferência de contas e a proteção dos depósitos, enquanto investigavam as operações da instituição.

Uma análise publicada pelo Criptoinforme em 5 de novembro também identificou distorções nos preços do mercado P2P. O levantamento examinou 80 anúncios na Binance e encontrou uma mediana próxima de 6.399 guaranis entre as dez melhores ofertas de compra de USDT, equivalente a um ágio de 3,4% em relação aos preços do dólar nas casas de câmbio.

A crise também teve desdobramentos políticos. Em 5 de novembro, o presidente Santiago Peña anunciou sua renúncia em meio à pressão relacionada ao colapso do banco. A Reuters informou que promotores investigavam o presidente e que as autoridades haviam emitido mandados de prisão contra oito executivos da instituição.

Ágio do USDT reacende debate sobre a proposta original do Bitcoin

A dificuldade de acesso ao dinheiro depositado no Ueno Bank trouxe novamente à discussão uma das questões que motivaram a criação do Bitcoin: a dependência dos usuários em relação às instituições financeiras para movimentar e custodiar seus próprios recursos.

Satoshi Nakamoto publicou o whitepaper do Bitcoin em 31 de outubro de 2008, durante a crise financeira global. A proposta apresentava um sistema de dinheiro eletrônico ponto a ponto (peer-to-peer), capaz de transferir valor sem depender de intermediários financeiros.

A mensagem ficou ainda mais evidente em 3 de janeiro de 2009, quando Nakamoto minerou o primeiro bloco da rede, conhecido como genesis block. Nele, foi incorporada a manchete de jornal: “Chancellor on brink of second bailout for banks” (Chanceler à beira de um segundo resgate aos bancos).

O Bitcoin foi concebido como uma alternativa às limitações de um sistema financeiro baseado na confiança em instituições centralizadas. Sua rede descentralizada permite que usuários mantenham e transfiram BTC sem precisar da autorização de um banco convencional.

Essa característica depende, porém, de um elemento fundamental: a autocustódia. Quem controla as próprias chaves privadas pode acessar e movimentar seus bitcoins sem depender de uma instituição bancária para autorizar saques.

O episódio no Paraguai não significa que stablecoins e Bitcoin sejam equivalentes. O USDT oferece exposição digital ao dólar, enquanto o Bitcoin foi concebido como uma rede monetária independente de intermediários. Mas a procura por dólares digitais em meio à restrição de acesso a depósitos bancários evidencia por que a possibilidade de controlar diretamente os próprios recursos continua relevante.

A proposta original do Bitcoin não se limitava à valorização de um ativo. Também envolvia oferecer outra maneira de armazenar e transferir valor, sem depender integralmente do funcionamento e da autorização do sistema bancário.

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Luíza Nunes
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