Empresas de criptomoedas como Coinbase, Robinhood e Circle estão ampliando seus negócios para além da compra e venda de Bitcoin, mas seus resultados mais recentes mostram que diversificar produtos não significa necessariamente conquistar receitas mais estáveis.

As três companhias apostam em frentes como stablecoins, pagamentos, serviços financeiros e mercados de previsão para reduzir a dependência da negociação de ativos digitais. Mesmo assim, os balanços divulgados recentemente revelaram dificuldades para sustentar o crescimento quando a atividade do mercado cripto perde força.

A Coinbase e a Robinhood registraram queda nas receitas com negociação de criptomoedas. Já a Circle, responsável pela emissão da stablecoin USDC, reportou uma redução de 8% na receita proveniente de suas reservas, que chegou a US$ 658 milhões.

Os resultados também tiveram reflexo no mercado acionário. As ações das três empresas acumularam perdas expressivas nos cinco dias anteriores à publicação dos balanços, com a Circle liderando as quedas, de 11%.

O movimento acontece enquanto os preços das criptomoedas recuam após as eleições de meio de mandato de terça-feira, aumentando a pressão sobre empresas que ainda dependem, em diferentes graus, da atividade do setor.

Na Coinbase, a receita total ficou próxima de US$ 1,22 bilhão no terceiro trimestre. A receita proveniente de transações, porém, caiu 23% em relação ao mesmo período do ano anterior, para US$ 590 milhões. O volume de negociação à vista entre clientes de varejo recuou 9% em comparação com o trimestre anterior, enquanto a atividade institucional diminuiu 8%.

Apesar da retração nas negociações, o EBITDA ajustado da companhia avançou 60% na comparação trimestral, alcançando US$ 333 milhões. O resultado foi favorecido pela redução de despesas e pelo crescimento de produtos mais recentes.

Para Mark Palmer, analista da StoneX, os números “should help to dispel the notion that the company is simply a leveraged bet on crypto trading volumes”. A avaliação contrasta com a visão mais cautelosa do Barclays: o banco considera que a dependência da Coinbase em relação às negociações à vista de criptomoedas continua sendo um desafio importante.

Empresas de criptomoedas encontram crescimento, mas enfrentam pressão nas margens

A Circle apresenta uma dinâmica diferente da Coinbase e da Robinhood. A maior parte de sua receita está relacionada aos juros obtidos com o dinheiro e os títulos do Tesouro que dão lastro ao USDC. Isso significa que a empresa também fica exposta às mudanças nas taxas de juros.

No último balanço, a receita total da Circle cresceu 17%, chegando a US$ 865 milhões. Entretanto, a receita proveniente das reservas caiu 8%, para US$ 658 milhões, enquanto a oferta de USDC ficou em US$ 73,9 bilhões no fim de setembro, praticamente estável em relação ao ano anterior.

Outro detalhe ajuda a explicar o resultado: US$ 182 milhões da receita vieram da pré-venda de tokens relacionados à Arc, a nova blockchain da Circle. Sem essa contribuição, a receita teria registrado queda aproximada de 8% na comparação anual.

A Coinbase também enfrenta dificuldades para transformar a expansão das stablecoins em margens maiores. A receita relacionada ao USDC mantido em sua plataforma cresceu 16% em relação ao trimestre anterior, impulsionada por um saldo médio recorde de US$ 22 bilhões.

Por outro lado, as recompensas pagas pela Coinbase para atrair e manter esses depósitos aumentaram 9%. Depois de descontar esses incentivos, o crescimento da receita com stablecoins foi de apenas 3% na comparação trimestral e ficou aproximadamente 16% abaixo do registrado um ano antes.

Mercados de previsão e pagamentos ampliam as apostas

Apesar das dificuldades, os resultados também mostram que as novas frentes de negócios estão ganhando espaço.

Na Coinbase, os usuários diários de mercados de previsão cresceram mais de 60% em relação ao trimestre anterior. A atividade desse segmento, somada aos derivativos, já representa aproximadamente um quarto da receita proveniente de transações da empresa.

Segundo Palmer, cerca de 60% da receita líquida da Coinbase agora vem de atividades recorrentes ou que não dependem diretamente da negociação à vista de criptomoedas. Os mercados de previsão, por exemplo, já geram mais de US$ 200 milhões em receita anualizada.

A Circle também apresentou crescimento na utilização de sua stablecoin. O volume de transações com USDC aumentou 49% em um ano, chegando a US$ 13,9 trilhões. Sua rede de pagamentos alcançou um volume anualizado de US$ 41,3 bilhões, enquanto o número de carteiras com mais de US$ 10 em USDC cresceu 16%.

Ainda assim, expansão não significa necessariamente maior rentabilidade. A Clear Street estima que a Coinbase retém aproximadamente US$ 0,015 por contrato de mercado de previsão encaminhado pela Kalshi. A margem poderia chegar a US$ 0,02 caso a empresa também realizasse o processamento por meio de sua própria estrutura de compensação, embora não exista uma previsão estabelecida para o início dessa operação.

Os pagamentos também continuam representando uma parcela pequena da receita da Coinbase. A Clear Street observa que essas atividades ainda não produziram uma contribuição financeira relevante.

No caso da Robinhood, a diversificação inclui contas de aposentadoria, produtos bancários e outros serviços financeiros, enquanto a plataforma tenta ir além de sua origem no mercado de negociação de ações.

Por enquanto, as três empresas estão conseguindo ampliar suas fontes de atividade e atrair clientes para novos produtos.

O desafio é transformar essa expansão em receitas recorrentes e margens sustentáveis, especialmente quando o volume de negociações de criptomoedas diminui e as condições do mercado deixam de favorecer o setor.

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Luíza Nunes
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