A adoção de criptomoedas entrou em uma nova fase. Depois de anos investindo na infraestrutura e na criação de produtos financeiros em blockchain, empresas do setor agora enfrentam um problema menos técnico: fazer usuários experimentarem essas soluções e, principalmente, continuarem usando.

Essa mudança ganha importância à medida que o mercado cripto se aproxima das finanças tradicionais. Gestoras estão tokenizando fundos, corretoras ampliam sua atuação para crédito e pagamentos, e redes blockchain buscam clientes institucionais.

A questão, portanto, deixou de ser apenas provar que esses produtos podem ser construídos. O desafio agora é entender por que consumidores e instituições escolheriam usá-los.

Para empresas como a Coinbase, isso significa olhar menos para a tecnologia por trás do produto e mais para o que o cliente quer fazer com seu dinheiro.

Ben Shen, responsável por produtos de serviços financeiros e fidelidade da Coinbase, afirmou que o setor cripto foi, muitas vezes, excessivamente orientado pela tecnologia. Isso levava a produtos carregados de termos técnicos e que expunham o usuário à infraestrutura que existia por trás deles.

Agora, segundo Shen, esse aspecto importa menos. Clientes querem aumentar seu patrimônio, manter dinheiro, enviar, gastar ou tomar empréstimos usando seus ativos. A presença de uma blockchain por trás dessas operações não é necessariamente o motivo que leva alguém a usar o produto.

A Coinbase chama esses momentos de “magic moments”: situações em que o usuário consegue perceber imediatamente a utilidade de uma solução.

Mas fazer alguém testar um produto apenas uma vez não resolve o problema de adoção.

A adoção de criptomoedas depende de mais do que incentivos

A Coinbase enxerga a adoção de criptomoedas como um ciclo. O dinheiro entra na plataforma, o cliente encontra uma razão para mantê-lo ali e, depois, passa a ter maneiras de utilizá-lo.

Isso pode começar com um depósito ou recebimento de salário, seguir com recompensas para quem mantém os ativos e avançar para negociação, gastos ou pagamentos.

“If you create the right ‘magic moments’ across these three parts of the flywheel, then that’ll get people to increasingly bring more and more money onto the platform”, disse Shen.

Recompensas podem ajudar a iniciar esse processo. Algumas fazem parte do próprio produto, enquanto outras são incentivos temporários criados para convencer clientes a transferirem dinheiro de serviços que já utilizam.

A ideia, segundo Shen, é “break inertia”: superar a resistência inicial à mudança.

O problema é evitar que o cliente vá embora assim que a promoção termine. Um usuário pode chegar atraído por uma oferta de rendimento e, depois, encontrar outras utilidades para os mesmos ativos dentro da plataforma.

O desafio também aparece no nível das próprias redes blockchain.

Durante o Avalanche Summit, em Nova York, Kevin O’Leary, investidor do Shark Tank e presidente da O’Leary Ventures, disse que blockchains que buscam clientes institucionais precisam mostrar usuários e negócios reais.

“The challenge you have is ‘show me, show me adoption’”, afirmou.

Segundo O’Leary, empresas podem compreender por que a tecnologia blockchain é relevante para construir capacidade, mas isso não basta. Para ele, as redes precisam apresentar contratos e adoção efetiva, e não apenas testes.

Um cliente importante também pode facilitar a conquista de outros. O’Leary destacou que, no setor de tecnologia, a recomendação entre empresas concorrentes pode ser uma das formas mais poderosas de marketing.

A lógica também vale para consumidores. Shen afirmou que serviços financeiros dependem fortemente de confiança porque envolvem dinheiro, salários e economias.

“There’s like a social proof thing for financial services that is important”, disse.

Produtos cripto precisam chegar onde o usuário já está

Para algumas empresas, ampliar a adoção de criptomoedas significa distribuir seus produtos por plataformas que os clientes já utilizam.

A WisdomTree, gestora com US$ 150 bilhões em ativos, criou uma série de fundos tokenizados. Entre eles está o WTGXX, um fundo de mercado monetário tokenizado com cerca de US$ 1,2 bilhão em ativos, segundo Will Peck, chefe de ativos digitais da empresa.

Agora, a estratégia é ampliar os pontos de acesso.

A WisdomTree anunciou uma colaboração com a MoonPay que permitirá que clientes de varejo elegíveis nos Estados Unidos acessem o WTGXX pela plataforma da empresa.

Quem já forneceu seus dados à MoonPay poderá comprar o fundo usando stablecoins sem passar por um novo processo de cadastro diretamente com a WisdomTree.

A MoonPay, porém, não deve ser o único canal. Peck disse que os fundos tokenizados da WisdomTree devem aparecer em outras plataformas, permitindo que usuários cheguem aos produtos por diferentes interfaces.

A Coinbase segue uma estratégia semelhante. Shen não espera que isso substitua os aplicativos e sites próprios das empresas. A tendência, segundo ele, é combinar plataformas próprias com novos canais de distribuição.

Agentes de inteligência artificial também podem se tornar uma dessas novas portas de entrada. A Coinbase trabalha em formas de conectar seus serviços a ferramentas de IA de terceiros, ao mesmo tempo em que continua desenvolvendo produtos em sua própria plataforma.

A infraestrutura, portanto, já não é o único desafio. Para a adoção de criptomoedas avançar, as empresas precisam transformar produtos tecnicamente sofisticados em serviços que as pessoas tenham motivos reais para usar — e continuar usando.

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Luíza Nunes
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Luíza Nunes