Uma criptomoeda pode chegar a um ponto em que nenhuma unidade nova poderá ser criada, o que não significa que ela deixará de circular ou que sua blockchain perderá a função. No entanto, muda uma das engrenagens que sustentam esse mercado: a forma como os participantes são remunerados para manter a rede funcionando.

A oferta máxima de criptomoedas estabelece um limite para a emissão, mas suas consequências vão além da quantidade de tokens disponíveis. Quando esse teto se aproxima, mineradores e validadores precisam depender cada vez menos de novas unidades e, dependendo do protocolo, mais de taxas de transação ou outras fontes de recompensa.

O efeito dessa transição varia entre projetos. Enquanto algumas redes seguem cronogramas rígidos de emissão, outras utilizam reservas, mecanismos de queima ou sequer estabelecem um limite definitivo.

O que a oferta máxima realmente limita em uma criptomoeda

A oferta máxima é a quantidade de unidades que as regras de um protocolo permitem criar. No Bitcoin, esse teto é de aproximadamente 21 milhões de BTC, ele não determina quantas moedas estarão disponíveis para negociação em cada momento, nem impede que unidades já existentes sejam transferidas entre carteiras.

Também não significa que a blockchain será desligada quando o limite for alcançado. Os nós continuarão verificando as regras, os blocos continuarão sendo adicionados e os usuários poderão realizar transações. O que muda é a origem da remuneração dos participantes que mantêm a rede funcionando.

No modelo de prova de trabalho, como o do Bitcoin, os mineradores competem para adicionar blocos. Na prova de participação, usada por redes como Cardano e Ethereum, validadores bloqueiam ou comprometem tokens para participar do consenso.

Em ambos os casos, o protocolo precisa oferecer incentivos para que esses participantes continuem contribuindo.

Como o Bitcoin chegará aos 21 milhões de unidades

O Bitcoin não passa de uma vez de emitir moedas para não emitir nenhuma. A mudança ocorre gradualmente por meio do halving: a cada 210 mil blocos — aproximadamente quatro anos, o subsídio pago ao minerador vencedor é reduzido pela metade.

No lançamento, em 2009, a recompensa era de 50 BTC por bloco. Após sucessivos halvings, caiu para 3,125 BTC em abril de 2024. O cronograma continuará reduzindo essa parcela até que ela chegue a zero, estimado para por volta de 2140. A quantidade final ficará ligeiramente abaixo de 21 milhões por causa dos arredondamentos do protocolo.

Hoje, a remuneração de um minerador combina duas fontes. O subsídio é formado por bitcoins novos, criados pelo protocolo. As taxas são pagas pelos usuários que querem incluir suas transações nos blocos. Quando o subsídio terminar, as taxas serão a remuneração direta restante por bloco.

O que não significa que a mineração vai parar, e sim que sua viabilidade dependerá mais da receita com taxas e dos custos de operar equipamentos, eletricidade e infraestrutura.

A segurança passa a depender mais da demanda por espaço nos blocos

As taxas do Bitcoin não são fixas. Como cada bloco comporta uma quantidade limitada de dados, usuários disputam espaço quando há muitas transações pendentes. Em períodos de maior demanda, quem oferece uma taxa mais competitiva tende a ter prioridade, quando a rede está menos congestionada, a disputa diminui.

Essa dinâmica gera um questionamento pro longo prazo: as taxas serão suficientes para sustentar a mineração quando não houver mais subsídio?

Se a receita cair e parte dos mineradores desligar seus equipamentos, o poder computacional total da rede — o chamado hashrate, pode diminuir. Isso não interrompe automaticamente o Bitcoin: o protocolo ajusta a dificuldade da mineração a cada 2.016 blocos para manter o intervalo médio entre blocos próximo de dez minutos.

No entanto, o ajuste não substitui o poder computacional perdido. Com menos hashrate, certos ataques que exigem controlar uma parcela relevante da mineração podem se tornar menos custosos.

Pesquisadores de Princeton examinaram esse cenário em um estudo de 2016, ‘On the Instability of Bitcoin Without the Block Reward‘. O trabalho apontou que, em um sistema remunerado apenas por taxas, a diferença entre blocos com receitas altas e baixas poderia criar incentivos para reorganizar blocos e capturar taxas maiores.

É uma análise teórica sobre possíveis problemas de incentivo, não uma previsão de que o Bitcoin necessariamente ficará vulnerável em 2140.

O resultado dependerá de fatores que ainda podem mudar: volume de uso, preço do BTC, mercado de taxas, eficiência da mineração e eventuais mudanças no protocolo. A adoção de soluções de segunda camada também pode alterar a quantidade de transações que precisam ser liquidadas diretamente na rede principal.

Nem toda oferta máxima funciona como a do Bitcoin

Nem todas as criptomoedas podem emitir tokens indefinidamente. Algumas estabelecem desde o início quantas unidades poderão existir, enquanto outras reduzem gradualmente a emissão ou utilizam mecanismos para retirar ativos de circulação.

Redes de prova de participação podem financiar recompensas com novas emissões, reservas acumuladas ou taxas, conforme as regras de cada protocolo.

A Cardano, por exemplo, limita a oferta de ADA a 45 bilhões. Suas recompensas combinam uma parcela das reservas, que diminui ao longo do tempo, com taxas de transação. Assim, a participação das taxas tende a ganhar importância à medida que as reservas são distribuídas.

A Avalanche tem um teto de 720 milhões de AVAX, mas seu mecanismo é diferente: novos tokens são emitidos como recompensa aos validadores, enquanto as taxas de transação são queimadas — ou seja, removidas da oferta, não entregues aos validadores. Já o XRP teve suas 100 bilhões de unidades criadas no início do XRP Ledger, e as taxas pagas em XRP também são destruídas.

O Ethereum, por outro lado, não tem um limite máximo fixo. Novos ETH são emitidos para recompensar validadores, enquanto parte das taxas é queimada. Dependendo da atividade da rede, a oferta pode aumentar ou diminuir.

Esses exemplos apontam a necessidade de entender de onde vêm as recompensas e o que o protocolo faz com as taxas.

O que acontece quando uma criptomoeda atinge sua oferta máxima?

Atingir a oferta máxima não significa que uma criptomoeda deixe de funcionar. Significa que o protocolo chega ao ponto em que não pode mais emitir novas unidades, a menos que suas regras sejam alteradas.

A partir daí, a continuidade da rede depende dos incentivos previstos em seu próprio modelo econômico.

Para mineradores e validadores, isso pode representar uma mudança na origem das recompensas. No Bitcoin, por exemplo, as taxas pagas pelos usuários terão um papel cada vez maior na remuneração dos mineradores. Outras redes seguem caminhos diferentes, com mecanismos de staking, reservas ou queima de tokens.

Por isso, a oferta máxima de criptomoedas não deve ser interpretada como uma garantia de valorização ou de segurança.

Um limite de emissão pode restringir a criação de novas unidades, mas o futuro de uma rede também depende de fatores como demanda, uso e capacidade de remunerar quem mantém sua infraestrutura.

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Luíza Nunes
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