Como funcionam as pontes de criptomoedas e por que elas são tão vulneráveis a ataques?

Como funcionam as pontes de criptomoedas e por que elas são tão vulneráveis a ataques?

Blockchains foram criadas para funcionar como redes independentes, então o que acontece quando você quer usar uma criptomoeda em uma blockchain diferente daquela onde ela está?

O Ethereum não consegue, por conta própria, verificar o que aconteceu na Solana, por exemplo.

É para fazer essa conexão que existem as pontes de criptomoedas. Elas permitem que o usuário transfira valor entre redes diferentes, mesmo quando uma blockchain não consegue se comunicar diretamente com a outra.

Mas uma ponte não simplesmente move a mesma moeda de um lugar para outro. É preciso comprovar que o ativo foi depositado, bloqueado ou destruído na rede de origem antes que o valor correspondente seja liberado no destino. E é aí que as pontes de criptomoedas podem se tornar um alvo especialmente atraente para ataques.

Como uma ponte de criptomoedas conecta duas blockchains

Imagine que alguém tenha 1 ETH na Ethereum e queira utilizá-lo em outra rede. A blockchain de destino não pode simplesmente olhar para a carteira do usuário na Ethereum e considerar aquele saldo como seu.

A ponte resolve isso criando uma relação entre as duas redes.

No modelo mais conhecido, o usuário deposita o ETH em um contrato inteligente, que funciona como uma espécie de cofre. Depois que o depósito é confirmado, outro sistema informa à blockchain de destino que a operação aconteceu. Só então uma representação do ativo pode ser liberada ou criada.

É daí que surgem os chamados wrapped tokens, ativos que representam outro token em uma blockchain diferente. Um ETH representado em outra rede, por exemplo, pode existir como um token que dá ao seu proprietário o direito de resgatar o ativo bloqueado na origem.

A regra básica é simples: se existem 10 mil unidades do ativo original bloqueadas, a representação criada no outro lado precisa estar devidamente respaldada.

Se essa relação for quebrada, alguém pode acabar segurando tokens que não têm ativos suficientes por trás.

Como as pontes de criptomoedas verificam uma transferência

Existem diferentes formas de fazer uma transferência cross-chain. A diferença mais relevante entre elas não está apenas na velocidade ou no custo das pontes de criptomoedas, mas em quem ou o que confirma que a operação é válida.

No modelo lock-and-mint, o ativo é bloqueado na blockchain de origem e uma representação é criada na rede de destino. Para voltar, o token representado é destruído e o ativo original é liberado.

No burn-and-mint, o token original é destruído em uma rede e uma quantidade equivalente é criada na outra. Esse modelo pode evitar a proliferação de versões “wrapped”, mas depende de o emissor controlar a emissão do token nas diferentes redes. O USDC, por exemplo, utiliza esse tipo de mecanismo em seu protocolo de transferências entre determinadas blockchains.

Já as pontes baseadas em pools de liquidez funcionam de outra maneira. Em vez de criar um novo token no destino, elas mantêm ativos disponíveis em diferentes redes. O usuário entrega seus tokens em uma rede e recebe ativos equivalentes de um pool na outra.

Para quem está transferindo, o resultado pode parecer igual, nos bastidores, porém, são modelos de confiança bastante diferentes.

O ponto mais delicado é provar que a transferência aconteceu

Se alguém afirma ter depositado 100 ETH na Ethereum, como a blockchain de destino sabe que isso realmente aconteceu?

Algumas pontes de criptomoedas usam conjuntos de validadores ou guardians para observar as transações e assinar uma mensagem confirmando o evento. Outras utilizam mecanismos de multisig, nos quais várias chaves precisam autorizar uma operação.

Há também sistemas que tentam verificar diretamente informações da blockchain de origem, reduzindo a necessidade de confiar em um grupo externo.

Essa diferença é fundamental. Uma ponte pode conectar duas blockchains altamente descentralizadas e, ainda assim, depender de um grupo relativamente pequeno de participantes para confirmar as transferências.

É aí que uma vulnerabilidade nas pontes de criptomoedas pode se tornar muito maior do que um simples bug de contrato.

Por que as pontes de criptomoedas são tão vulneráveis a ataques

A Ethereum pode continuar funcionando normalmente enquanto uma ponte conectada a ela é completamente comprometida. A blockchain não precisa ser invadida para que os ativos representados em outra rede percam seu respaldo.

Isso acontece porque a ponte adiciona uma nova camada entre as redes.

O usuário pode estar confiando na segurança da blockchain de origem, na blockchain de destino e, ao mesmo tempo, em contratos inteligentes, validadores, chaves privadas ou mecanismos de liquidez responsáveis pela conexão.

Quanto mais complexa essa estrutura, maior pode ser a superfície de ataque.

Por isso, dizer simplesmente que uma ponte é “descentralizada” não responde à principal questão. O que é relevante é onde está concentrado o poder de autorizar uma transferência falsa.

Os maiores ataques mostram quatro formas diferentes de falhar

O ataque à Ronin Bridge, em 2022, é um exemplo de problema operacional. A ponte utilizava nove validadores, mas cinco assinaturas eram suficientes para autorizar uma retirada. Os invasores conseguiram obter as chaves necessárias e drenaram cerca de US$ 624 milhões em ETH e USDC.

O problema não estava apenas no número de validadores. Parte importante do risco vinha da concentração de controle: uma mesma organização tinha influência sobre uma parcela relevante das chaves.

O caso da Wormhole mostrou outro tipo de falha. Em 2022, um problema na verificação das assinaturas permitiu que um invasor produzisse uma mensagem falsa e criasse cerca de US$ 326 milhões em ETH representado na Solana sem que o depósito correspondente tivesse acontecido.

Aqui, as chaves não precisaram ser roubadas. O mecanismo que deveria verificar a autenticidade da mensagem simplesmente foi enganado.

Na Nomad, também em 2022, uma atualização introduziu uma configuração incorreta que fez mensagens falsas serem consideradas válidas. Depois que a primeira exploração ficou evidente, outros usuários passaram a repetir o mesmo padrão e a retirar fundos.

Já a Harmony Horizon Bridge perdeu cerca de US$ 100 milhões depois que duas das cinco chaves necessárias para autorizar operações foram comprometidas.

Os quatro episódios apontam para uma mesma conclusão: não basta saber que uma ponte usa multisig, validadores ou auditorias. É preciso entender como esses mecanismos funcionam na prática.

Como novas pontes de criptomoedas tentam reduzir a confiança em intermediários

Alguns projetos estão tentando mudar justamente esse ponto.

Pontes de criptomoedas baseadas em light clients procuram verificar diretamente informações da blockchain de origem, em vez de depender apenas de um grupo externo de validadores. A ideia é fazer com que a rede de destino consiga verificar provas relacionadas ao estado da blockchain de origem.

As provas de conhecimento zero (ZK) podem tornar esse processo mais eficiente. Em vez de reproduzir uma grande quantidade de verificações, a rede de destino pode verificar uma prova criptográfica compacta de que determinada condição foi satisfeita.

Outro caminho são os sistemas baseados em intenções. Nesse modelo, o usuário declara o resultado que deseja, por exemplo, receber determinada quantidade de USDC em outra rede, e um participante fornece os fundos no destino, sendo posteriormente reembolsado pelo protocolo.

Nenhuma dessas soluções elimina automaticamente o risco, elas apenas mudam a pergunta sobre em quem ou em que o sistema precisa confiar.

Como avaliar o risco de uma ponte de criptomoedas

Usar uma ponte não deveria começar pela pergunta sobre qual delas é mais rápida ou cobra a menor taxa. Antes disso, vale entender quem está garantindo que a operação é válida.

Quem confirma a transferência? Quantas assinaturas são necessárias? Os responsáveis pelas chaves são realmente independentes? O contrato passou por auditorias? E existe uma alternativa nativa da própria rede? Essas perguntas dizem mais sobre o risco de uma ponte do que simplesmente o valor que ela movimenta.

Também é melhor começar com uma quantia pequena antes de transferir um valor relevante. Uma operação simples pode revelar problemas com o token, a rede de destino ou o próprio processo de retirada antes que o custo de um erro seja maior.

No fim, essa é a questão central para entender as pontes de criptomoedas: elas não precisam apenas conectar duas redes. Precisam convencer uma blockchain de que algo realmente aconteceu na outra, sem transformar a conexão no ponto mais frágil do sistema.

É por isso que a segurança das pontes de criptomoedas depende menos da aparência de uma interface e muito mais de como essa prova é feita. Quanto mais o sistema consegue verificar o que aconteceu diretamente na blockchain, menor tende a ser a confiança depositada em intermediários.

A conexão entre duas redes só é tão forte quanto o mecanismo usado para comprová-la.