
O Bitcoin começou outubro em queda, contrariando o histórico positivo que deu ao mês o apelido de “Uptober”. Após recuar para perto de US$ 80 mil, a criptomoeda enfrenta novos testes de suporte, e analistas alertam que o calendário, por si só, não garante uma recuperação.
Na última semana, o Bitcoin chegou a US$ 80.427 e era negociado pouco abaixo de US$ 83 mil, acumulando queda de 4,1% em sete dias. Em um mercado de previsões chamado Myriad, 79% dos participantes apostavam que o ativo terminaria a semana acima de US$ 82 mil, enquanto apenas 28% esperavam que superasse US$ 84 mil.
A região de US$ 83 mil permanece importante para Luke Deans, pesquisador sênior da Bitwise Europe. O nível reúne o preço médio de aquisição dos investidores em ETFs e uma antiga referência técnica de alta, além de ter sido testado diversas vezes nas últimas semanas.
Bitcoin tem suportes entre US$ 77 mil e US$ 72 mil
Se a criptomoeda não conseguir recuperar os US$ 83 mil, os próximos níveis de suporte podem entrar no radar dos investidores. Ananda Banerjee, fundador e pesquisador quantitativo principal da Charlie Quant Lab, identifica a região de US$ 77 mil como o suporte mais forte, com base em métricas on-chain que apontam uma concentração relevante de moedas adquiridas nesse patamar.
Deans também vê US$ 77 mil como uma referência importante. A região fica próxima da True Market Mean, métrica que representa o preço médio de aquisição dos investidores ativos.
Mais abaixo, o analista aponta dois níveis adicionais. O primeiro é US$ 74 mil, associado ao custo médio de aquisição dos detentores de curto prazo. O segundo é US$ 72 mil, onde se encontra a média móvel de 200 dias, indicador técnico acompanhado pelo mercado.
Segundo Deans, uma queda até a faixa de US$ 72 mil a US$ 77 mil ainda poderia representar um teste de suporte compatível com uma estrutura de mercado construtiva. Se essa região resistir, níveis que anteriormente funcionavam como resistência poderão passar a sustentar o preço. Caso contrário, a estrutura atual do mercado poderá se deteriorar.
Falta de demanda à vista limita a recuperação
No início da semana, o Bitcoin chegou a tentar superar US$ 87 mil, mas não conseguiu sustentar o movimento. Analistas da Bitfinex atribuíram a tentativa principalmente ao posicionamento em contratos futuros, e não à demanda pelo ativo no mercado à vista.
“Spot demand remains the missing piece,” afirmaram os analistas à Decrypt.
Os números dos fundos negociados em bolsa (ETFs) reforçam essa preocupação. Entre 28 de setembro e 2 de outubro, os ETFs spot de Bitcoin nos Estados Unidos receberam US$ 241,1 milhões, bem abaixo dos US$ 2,39 bilhões registrados na semana anterior.
Os analistas da Bitfinex também observaram que o investidor médio desses ETFs voltou ao ponto de equilíbrio pela primeira vez desde janeiro. Historicamente, segundo eles, os fluxos de entrada tendem a perder força nesse cenário.
A pressão continuou nos pregões seguintes. Na quarta-feira, os ETFs de Bitcoin registraram saídas líquidas de US$ 484,9 milhões, o maior volume diário de resgates desde 25 de junho. O IBIT, da BlackRock, liderou as retiradas, com US$ 207,7 milhões, seguido pelo FBTC, da Fidelity, com US$ 105,1 milhões.
Na quinta-feira, os fundos perderam mais US$ 244 milhões. Para os analistas, uma retomada consistente dos fluxos de entrada será importante para sustentar uma recuperação.
A Bitfinex considera que a faixa de consolidação está entre US$ 84 mil e US$ 87.722, preço de abertura anual. A divulgação do índice de preços ao consumidor (CPI) de setembro, prevista para 14 de outubro, e uma eventual retomada dos aportes em ETFs podem ajudar a definir o próximo movimento.
O “Uptober” ainda pode se recuperar?
Apesar do desempenho negativo no início do mês, os especialistas ouvidos pela Decrypt evitaram declarar o fim do “Uptober”. O histórico oferece motivos para otimismo, mas não elimina a influência de fatores econômicos e das condições de mercado.
Desde 2013, o retorno mediano do Bitcoin em outubro foi de aproximadamente 14%, e 10 dos últimos 13 meses de outubro terminaram em alta, segundo Jake Kennis, analista sênior de pesquisa da Nansen.
“Historical evidence supports October strength,” afirmou Kennis.
O próprio analista, porém, ressalvou que o comportamento histórico do mês não deve orientar decisões isoladamente. “But ultimately liquidity, positioning, macro conditions, and underlying demand are more important drivers than any specific date,” acrescentou.
Na prática, a possibilidade de uma recuperação dependerá menos do nome atribuído ao mês e mais da capacidade de a demanda voltar a sustentar os preços. Até lá, as regiões entre US$ 77 mil e US$ 72 mil permanecem referências importantes caso a pressão vendedora continue.









