
O Bitcoin encerrou outubro com uma queda de aproximadamente 7%, contrariando a expectativa de mais um Uptober — apelido dado ao padrão histórico de valorização da criptomoeda durante o mês.
Desta vez, a pressão sobre ações ligadas à inteligência artificial (IA) e mudanças no mercado de títulos dos Estados Unidos marcaram o cenário.
A queda também ocorreu em meio a uma combinação de fatores que afetou os mercados tradicionais. Na quinta-feira, o BTC recuou cerca de 4% em poucas horas, antes da forte venda de ações na Nasdaq na sexta-feira e no mesmo período do ataque histórico à Binance.
O resultado interrompeu uma tendência que, até então, favorecia os investidores em outubro. Entre 2013 e 2025, o Bitcoin fechou no positivo em 10 dos 13 meses de outubro analisados, com ganho mediano próximo de 15%.
O movimento de 2026, porém, não foi um caso isolado. Outubro de 2025 também terminou em queda, fazendo deste o segundo ano consecutivo em que o Bitcoin não acompanhou a expectativa sazonal de valorização.
Bitcoin refletiu em outubro a mudança de humor sobre a inteligência artificial
Um dos sinais dessa mudança apareceu no mercado de títulos dos Estados Unidos. Os contratos futuros de petróleo subiram enquanto os rendimentos dos títulos do Tesouro americano recuaram, rompendo uma correlação de 80% observada ao longo do ano.
Para Jeffrey Rosenberg, gestor sênior de portfólio da BlackRock, a mudança está relacionada ao desempenho das empresas ligadas à inteligência artificial. As chamadas Magnificent Seven, grupo das sete maiores companhias americanas associadas ao setor, acumularam perdas ao longo de outubro.
Em entrevista à CNBC, Rosenberg resumiu a percepção dos investidores: “In the market’s mind, the geopolitical risk is secondary to AI risk.”
Na avaliação do gestor, a fraqueza das ações de IA passou a ser interpretada como um possível sinal de desaceleração do crescimento econômico dos Estados Unidos. Essa leitura ajuda a explicar a queda dos rendimentos dos títulos, mesmo com a alta do petróleo.
O cenário também expôs divergências sobre a dimensão dos investimentos em tecnologia. Rosenberg destacou que o Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre foi forte e impulsionado por gastos relacionados à IA. O investimento empresarial cresceu 12,7%, maior avanço fora do período da pandemia desde 2011.
Já o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, afirmou na quarta-feira que os investimentos de capital estão se expandindo para além de um grupo restrito de empresas. Ele também apontou a alta do petróleo como um fator relevante para o combate à inflação.
Em meados de outubro, os contratos futuros de juros já indicavam apostas em uma possível elevação das taxas pelo Fed em dezembro. Na semana passada, o Google registrou sua maior queda em um único pregão, eliminando cerca de US$ 500 bilhões em valor de mercado.
A expansão da infraestrutura de IA também começa a ganhar peso no mercado de crédito. A Microsoft voltou a emitir títulos de dívida depois de quase uma década, enquanto os spreads dos credit default swaps (CDS), instrumentos usados para precificar o seguro contra calote, estavam próximos de 55 pontos para a empresa. Na Oracle, o indicador girava em torno de 300.
Rosenberg avalia que o mercado de títulos pode absorver cerca de US$ 4 trilhões em dívidas relacionadas à IA nos próximos quatro anos. Essa oferta, porém, pode pressionar os preços dos títulos e ampliar os spreads de crédito.
Com isso, a construção da infraestrutura de inteligência artificial deixa de ser apenas uma questão de valorização das ações de tecnologia e passa a influenciar também o mercado de dívida. Para o Bitcoin, outubro mostrou que o padrão sazonal do Uptober não impediu uma queda em um período marcado por mudanças nas expectativas sobre crescimento, juros e investimentos em IA.







