5 anos de Bitcoin em El Salvador: sucesso global ou fracasso local?

5 anos de Bitcoin em El Salvador: sucesso global ou fracasso local?

Em junho de 2021, o presidente Nayib Bukele anunciou uma medida inédita que prometia transformar a economia do país. Cinco anos depois, a adoção do Bitcoin em El Salvador mostra resultados que contrastam fortemente com as promessas iniciais de inclusão financeira e redução de custos com remessas.

Dados recentes indicam que o uso diário da principal criptomoeda do mercado pela população local não se concretizou. Uma pesquisa acadêmica publicada em 2025, liderada pelo cientista Tobias Boos, revelou que os poucos cidadãos que adotaram a tecnologia eram jovens, escolarizados e, principalmente, já possuíam contas bancárias.

O cenário das remessas internacionais, essenciais para a economia do país e responsáveis por cerca de 24% do PIB em 2024, também frustrou as expectativas do governo. Apesar da promessa de taxas de conversão menores, as transferências via carteiras cripto caíram para apenas 1% do total movimentado.

Qual o verdadeiro legado do Bitcoin em El Salvador após meia década?

Estudos adicionais mostram que os esforços estatais não geraram retenção de usuários. Mais de 60% dos cidadãos que baixaram a carteira governamental Chivo abandonaram o aplicativo logo após gastarem o bônus inicial de US$ 30 oferecido durante o lançamento.

A pressão institucional externa também forçou o governo a recuar em suas políticas mais incisivas. Após firmar um acordo de financiamento de US$ 1,4 bilhão com o Fundo Monetário Internacional (FMI) no início de 2025, a legislação local foi alterada, tornando a aceitação da moeda estritamente voluntária e limitando o envolvimento do setor público.

Se a usabilidade doméstica encontrou barreiras quase intransponíveis, o impacto da iniciativa no cenário internacional foi inegável. O projeto do Bitcoin em El Salvador funcionou como uma campanha de posicionamento global extremamente eficiente, atraindo a atenção e o capital de investidores do mundo todo.

Figuras conhecidas da indústria cripto mudaram-se para o país centro-americano, e algumas passaram a integrar escritórios oficiais do governo. Paralelamente, projetos de base comunitária como a “Bitcoin Beach” em El Zonte continuam operando de forma funcional, sustentados pelo fluxo constante de turistas e entusiastas da tecnologia.

Para jornalistas e pesquisadores que acompanham o desenvolvimento econômico da região, a experiência do Bitcoin em El Salvador serviu mais como uma estratégia de marketing voltada para estrangeiros do que como uma solução financeira para os salvadorenhos. Ainda assim, o experimento provou de forma definitiva que a adoção da criptomoeda por um Estado soberano é uma realidade viável.