Isso significa que a empresa está próxima de possuir cerca de um em cada vinte ETH existentes. Mais de 5 milhões dos tokens acumulados já estão em staking, os números são grandes o suficiente para mudar a dimensão das tesourarias corporativas de Ethereum.
Quando empresas começaram a adicionar Bitcoin e posteriormente ETH aos seus balanços, a narrativa era principalmente sobre demanda institucional. Companhias públicas estavam criando uma nova maneira de investidores obterem exposição a ativos digitais e retirando parte da oferta disponível do mercado.
A BitMine leva essa lógica para outra dimensão.
A questão deixa de ser apenas quanto Ethereum uma empresa pode comprar e passa a ser o que uma companhia consegue fazer quando acumula uma parcela relevante da oferta de um ativo que também participa diretamente da economia e da segurança de sua própria blockchain.
A BitMine cresceu mais rápido do que a própria categoria
A escala atual fica mais clara quando comparada à origem recente desse mercado.
Em julho de 2025, todas as tesourarias corporativas de Ethereum identificadas pela Reuters possuíam, juntas, cerca de 966 mil ETH. No final de 2024, o total era inferior a 116 mil ETH.
Hoje, apenas a BitMine possui aproximadamente seis vezes aquela quantidade.
A velocidade também chama atenção.
Em fevereiro deste ano, a companhia mantinha cerca de 4,42 milhões de ETH, equivalentes a 3,66% da oferta. Seis meses depois, a posição avançou para 5,815 milhões.
A distância para outras tesourarias também se tornou enorme.
A SharpLink, uma das empresas que ajudaram a popularizar a estratégia de tesouraria de Ethereum, informava aproximadamente 889 mil ETH no início de agosto. A posição da BitMine já é mais de seis vezes maior.
Essa diferença importa porque a companhia começa a deixar de ser apenas uma participante de uma tendência, ela passa a testar até onde essa tendência pode chegar.
Ethereum mudou o que uma tesouraria pode fazer com o ativo
As primeiras grandes tesourarias corporativas de cripto foram construídas principalmente ao redor de Bitcoin.
A lógica era acumular um ativo escasso, mantê-lo no balanço e utilizar os mercados de capitais para aumentar progressivamente a posição.
Ethereum acrescenta outra variável.
ETH pode ser colocado em staking e participar diretamente do mecanismo que protege a rede, recebendo recompensas em troca.
A BitMine já colocou mais de 5 milhões de ETH em staking, cerca de 87% de toda a sua posição.
Isso muda a natureza econômica da tesouraria, o ativo não permanece apenas no balanço esperando valorização. Uma parcela significativa pode produzir rendimento dentro do próprio protocolo.
Em fevereiro, quando a BitMine possuía aproximadamente 3 milhões de ETH em staking, a companhia estimava receitas anualizadas próximas de US$ 171 milhões com essa atividade. Desde então, a quantidade alocada aumentou substancialmente.
A SharpLink utiliza a mesma lógica. No primeiro semestre, a companhia registrou US$ 18,7 milhões em receitas provenientes de recompensas de staking nativo.
Essa característica cria uma diferença importante em relação ao modelo popularizado pela Strategy.
Uma tesouraria de Bitcoin pode construir diferentes estruturas financeiras ao redor de sua reserva, mas o BTC mantido no balanço não produz rendimento nativo, ETH pode.
Por isso, acumular Ethereum e administrar uma tesouraria de Ethereum começam a se tornar atividades diferentes.
Possuir ETH e controlar Ethereum não são a mesma coisa
A escala da BitMine exige uma distinção importante.
Possuir uma parcela relevante da oferta de ETH não significa possuir a mesma parcela de controle sobre o Ethereum.
O consenso depende do ETH efetivamente colocado em staking e de como esse stake é operado. A rede possui uma ampla estrutura de validadores, clientes e operadores, e a relação entre propriedade do ativo e poder sobre a blockchain não é direta.
Portanto, a posição da BitMine não deve ser interpretada como controle equivalente sobre a rede.
Mas o tamanho da reserva também não é irrelevante.
Ethereum é uma rede proof-of-stake. ETH não é apenas um ativo negociado ao redor dela; também é o recurso econômico utilizado para participar da validação da blockchain.
Quando uma companhia acumula milhões de ETH e coloca grande parte deles em staking, sua tesouraria passa a participar de uma camada econômica que não existe no mesmo formato para empresas de Bitcoin.
A BitMine inclusive está desenvolvendo sua própria infraestrutura de staking, chamada MAVAN, além de utilizar parceiros externos.
Isso acrescenta uma segunda dimensão à estratégia, a companhia não está apenas tentando aumentar a quantidade de ETH que possui, está tentando construir uma operação ao redor dessa posição.
A tesouraria começa a se tornar um negócio próprio
Essa evolução muda também a forma como essas empresas precisam ser avaliadas.
Em uma tesouraria tradicional, a principal informação é quanto do ativo a companhia possui e quanto essa reserva vale.
Em uma tesouraria de Ethereum, outras variáveis começam a importar.
Quanto ETH está em staking. Quanto rendimento essa posição produz. Qual é o custo de capital utilizado para adquirir novos tokens. Quanto os acionistas são diluídos para financiar a expansão. E quanto ETH por ação a companhia consegue acumular ao longo do tempo.
A tesouraria deixa de funcionar apenas como reserva, começa a adquirir características de uma operação financeira própria.
É aí que a escala alcançada pela BitMine se torna mais interessante do que o percentual isolado.
A Strategy mostrou que uma empresa pública podia transformar seu acesso aos mercados de capitais em uma máquina de acumulação de Bitcoin.
A BitMine está testando uma versão diferente do modelo.
Ela utiliza o mercado de capitais para acumular ETH, coloca grande parte dessa reserva em staking e transforma o próprio ativo em uma fonte adicional de receita.
Isso não significa que o modelo seja necessariamente melhor. A empresa continua exposta ao preço do Ethereum, aos rendimentos do staking, ao custo de capital e à possibilidade de diluição dos acionistas.
Mas demonstra que a versão Ethereum das tesourarias corporativas pode evoluir para algo diferente de simplesmente manter cripto no balanço.
Há pouco mais de um ano, possuir algumas centenas de milhares de ETH já colocava uma empresa entre as maiores tesourarias do setor, agora uma única companhia se aproxima de uma parcela da oferta que antes pareceria improvável para uma empresa pública.
E, ao mesmo tempo, está colocando a maior parte dessa posição para trabalhar dentro da própria economia do Ethereum.
A nova escala das tesourarias de ETH, portanto, não está apenas na quantidade que empresas conseguem acumular. Está no tamanho da operação financeira que começa a ser construída ao redor desses ativos.




