O setor financeiro tradicional está mudando de postura em relação aos ativos digitais. Durante o evento MERGE Madrid 2026, realizado no Palacio de Cibeles, executivos do setor revelaram que os grandes bancos estão indo além da simples negociação de criptomoedas para construir a infraestrutura por trás dos ativos tokenizados e das transferências de stablecoins.

Dados apresentados pela empresa de análise Chainalysis revelaram a dimensão desse movimento. A atividade econômica com criptomoedas movimentou cerca de US$ 9,4 trilhões entre junho de 2025 e junho de 2026, registrando uma leve queda de apenas 1,6% na comparação anual, mesmo em um cenário de mercado mais fraco.

No mesmo período, o volume de transferências de stablecoins entre diferentes países deu um salto de 80%. Para Jordan Wain, líder global de políticas da Chainalysis, esses números comprovam que os recursos digitais estão sendo cada vez mais aplicados em transações do mundo real, independentemente das oscilações de preços.

Apesar da mudança de foco, o comércio direto de criptoativos ainda responde pela maior parcela do faturamento das instituições. “Onde os bancos estão ganhando dinheiro hoje com ativos digitais? A resposta ainda é a oferta de cripto que eles disponibilizam aos seus clientes”, afirmou Stijn Vander Straeten, CEO da Crypto Finance Group, subsidiária da Deutsche Börse.

Paralelamente, as instituições direcionam investimentos para staking, depósitos tokenizados e novos sistemas de liquidação.

Alexandra Soroko, representante da Visa, destacou a liquidação de cartões via dólares digitais, sistema que permite liquidações financeiras sete dias por semana. Ela indicou os pagamentos corporativos transfronteiriços e a gestão de tesouraria de empresas como os próximos motores de expansão para as transferências de stablecoins.

Representantes de instituições como Commerzbank, N26 e Applied Blockchain reforçaram que a tendência é atuarem como provedores de infraestrutura, e não como detentores de grandes reservas dessas moedas.

O segmento de emissores também apresentou novidades em painéis mediados por Luis De Magalhães, chefe para a América Latina da BeInNews. Malcolm Clarke, da Western Union, e Emilio Rivero Coello, da Anchorage Digital, detalharam o USDPT, token pareado ao dólar lançado pela Western Union na rede Solana em maio.

Emitido pela Anchorage, o ativo estreou na Bolívia e nas Filipinas, mercados com forte fluxo de remessas do exterior. O produto foi projetado para substituir os trilhos tradicionais de liquidação com agentes locais, trocando contas correspondentes pré-financiadas por saldos em ativos digitais, o que reduz o tempo de liquidação de dias para minutos.

A resposta europeia vem sendo articulada pelo consórcio Qivalis, representado no evento por Vid Hribar, além de Elma Saric (do banco fundador Raiffeisen Bank), Niccolò Bardoscia (Intesa Sanpaolo) e Tania Griffith (Ripple). Sediada em Amsterdã, a iniciativa de moeda pareada ao euro nasceu com 9 bancos e já reúne 37 instituições em 15 países.

O projeto pretende operar sob a regulamentação MiCA, com supervisão do banco central holandês na rede pública do Ethereum, visando fechar a lacuna de um mercado em que os tokens em euro somam menos de US$ 1 bilhão em valor de mercado, contra mais de US$ 300 bilhões dos tokens pareados ao dólar.

Desafios operacionais e infraestrutura para transferências de stablecoins

Apesar do otimismo, os palestrantes concordaram que os principais entraves para a adoção institucional em larga escala são internos. “Não é um problema prioritariamente tecnológico, é uma questão de modelo operacional”, avaliou Shrutisagar Chandrasekaran, da Fireblocks. “Envolve pessoas, processos e governança.”

Luis Nacarino, do Santander CIB, ressaltou que os novos ecossistemas de dinheiro digital precisam conversar entre si em vez de funcionarem como redes isoladas. Já Alberto Carlos Alonso Temprado, da Iberpay, lembrou que a infraestrutura europeia de pagamentos atual é eficiente e que o ecossistema blockchain deve aprimorá-la. “Não precisamos reinventar a roda. Temos que fazê-la funcionar melhor”, afirmou.

No campo da tokenização, o anúncio de destaque veio da Bit2Me. O diretor de estratégia da empresa, Abel Peña, informou a obtenção de autorização para o lançamento da STX, uma oferta de tokens de valores mobiliários focada em ações e debêntures de médias empresas.

No mesmo painel, representantes do BBVA e da Bullish alertaram que o sucesso da tokenização depende de liquidez suficiente para negociações em momentos de volatilidade.

A inteligência artificial também entrou em pauta no evento. Representantes da Mastercard, Tether e Fundação Cardano debateram o uso de agentes de IA para realizar pagamentos em nome de pessoas e empresas, destacando a necessidade de autorizações claras e identidades digitais estruturadas.

O MERGE Madrid 2026 encerra sua programação com foco em regulação e investimentos, reunindo órgãos supervisores de Espanha, Portugal, Itália, Grécia, Croácia, Chipre e Luxemburgo.

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Luíza Nunes
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Luíza Nunes